“Espaços públicos”

Por Vicente Golfeto em 21/05/2018

Aprovada na legislatura passada, a lei de parcerias público-privadas está sendo posta em prática pela equipe do prefeito Duarte Nogueira Filho. Inicia-se, assim, uma outra modalidade de gestão do espaço público. Este pode ser conceituado como um local que é de uso e de posse de todos. Com papel determinante para os cidadãos, o espaço público é lugar voltado para atividades pessoais e coletivas, para o convívio e para troca de experiência entre grupos heterogêneos. São as denominadas áreas públicas: praças, jardins, parques, logradouros e outros locais de encontro que promovam o lazer e a descontração, impactando a qualidade de vida dos moradores, das vizinhanças e mesmo de transeuntes.
As parcerias público-privadas representam objetivamente um tipo de transição do capitalismo de estado para o capitalismo de competição. E esta situação agrava as tensões porque – já o dissemos – a competição desperta o que há de melhor nos produtos e o que há de pior nas pessoas. Estes locais proporcionam o retorno ao que é uma verdadeira cidade. É um local para se viver e também para se conviver. E é disto que as pessoas – cada vez mais – estão carentes porque estes locais, abandonados pelas famílias – como regra – acabaram deixando de ser incluídos no rol das prioridades dos gestores municipais.
O ganha-ganha, assim, está instaurado. As empresas privadas ganham divulgando seus produtos através de placas. O poder público – e o consumidor de serviços públicos, embutido no contribuinte – também ganha porque pode, através dos gestores, alocar os escassos recursos financeiros para atender outros itens necessários e importantes.

“Comércio exterior”

Por Vicente Golfeto em 14/05/2018

Não me lembro qual foi o ministro de desenvolvimento econômico e de comércio exterior do Brasil que sintetizou: “comércio exterior é um exercício para gangsters”. Parto de sua afirmação – não concordando com ela – embora saiba que o comércio exterior não seja local para anjos. Aliás, como dizia o barão do Rio Branco, “há vitórias que não devem ser comemoradas”. E não devem até porque não podem. As do comércio exterior rigorosamente também não podem. Pelo menos em boa parte. Em muitos casos, nós ficamos diante de dilemas que configuram ângulos da dialética de Georg Wilhelm Friedrich Hegel, com todos os seus ônus e bônus. Vejamos: com moeda forte, um país perde competitividade do lado das exportações. É o ônus. Mas, por outro lado, ele amplia a presença financeira e também o volume de seus investimentos externos. E aí situa-se todo o bônus, completando a dialética.
A complexidade das relações econômicas – importações e exportações, no âmbito do comércio internacional – nos mostra que, por exemplo, dezesseis países participam da produção de um telefone da Nokia. Aviões das grandes marcas também são fabricados com a cooperação de empresas de vários países. Os governos, então, precisam dar mais atenção às cadeias produtivas internacionais – área em que o Brasil está apenas iniciando – a fim de se convencerem das vantagens de uma abertura geral, ainda que gradativa, dos mercados.
O Brasil continua com uma economia muito fechada. Ela tem algumas vantagens porque está mais protegida. Mas – descompassada com o que ocorre no mundo – com o cálculo custo-benefício, ela perde mais do que ganha. É preciso que nos atualizemos, portanto.

“Automóveis”

Por Vicente Golfeto em 10/05/2018

De maneira geral, pode-se dizer que as cidades brasileiras – pelo menos as mais antigas – foram construídas não se prevendo o automóvel. As ruas não tinham pista de rolamento. Elas tinham – como ainda muitas têm – leito carroçável. Como, aliás, é a realidade de Ribeirão Preto. Após um certo tempo de existência, a alteração – a mudança verificada – foi radical. A cidade passou a ser construída dando-se primazia ao automóvel. Colocar o pedestre como protagonista da cidade – nos dias de hoje – é o caminho correto para melhorar a mobilidade urbana. Que não é, no entanto, apenas questão de trânsito. Nem só de tráfego. É a forma como se disciplina e se usa a ocupação do espaço público. Essa é a questão fundamental.
Sempre cita-se a mobilidade urbana como peça do plano diretor estratégico, desdobramento do que impõe, no âmbito local, o Estatuto das Cidades. Eu mesmo – em diversas oportunidades – comentei aspectos do plano diretor estratégico de Ribeirão Preto. Entretanto, a verdade é que, desde o ano de 2 012 – através da lei federal 12 587 – determinou-se que toda cidade com mais de vinte mil habitantes tenha também um plano de mobilidade urbana. Por esta lei, devem ser privilegiados os transportes não motorizados sobre os transportes motorizados e o transporte coletivo sobre os que se considera como sendo os transportes individuais motorizados. Está aí uma hierarquia que – cumprida à risca – marcará o início de uma revolução no trânsito urbano. E também no tráfego. O protagonismo do pedestre precisa de ser enfatizado com absoluta primazia. Hieros, em grego, quer dizer sagrado. Hierarquia, assim, é coisa sagrada.

“Empreendedores”

Por Vicente Golfeto em 07/05/2018

Análise mais detida do mercado de trabalho dos principais municípios de nossa região – com dados extraídos do Caged, do Ministério do Trabalho – mostra-nos que alguns municípios, na resultante, conseguem transformar o ônus de uma crise em vitorioso bônus. A esta conclusão – que tenho chegado, valendo-me do que é considerada história da economia regional – é uma verdadeira luz para explicar racionalmente o que aconteceu. É que algumas cidades – na região cito como exemplos Cravinhos, Sertãozinho, Monte Alto e Ribeirão Preto – sofrem muito com o desemprego. Como, aliás, todas. Mas umas mais e outras menos. Mas acontece que algumas, particularmente – e as cidades são exemplos – na realidade, quando ocorrem as crises, desempregam muitos empreendedores que, até então, tinham carteira de trabalho assinada. Vale dizer: estavam empregados mas eram empreendedores e até empresários embora ainda incompletos. Sendo demitidos – consequência imediata da crise – iniciam o próprio negócio e, então, a cidade recebe um impulso singular. E único. Estes são casos que explicam o maior desenvolvimento industrial de Sertãozinho, de Monte Alto e até de Cravinhos. Já no que toca Ribeirão Preto, o ímpeto de desenvolvimento tem sido maior nos setores de serviço e do comércio de varejo.
Muitas vezes, o desemprego é o gatilho do empreendedorismo. Que vinga quando o desempregado tem vocação natural para correr riscos e tem, também, condições pessoais e íntimas para iniciar um negócio próprio. Quando não – quando não tem aptidão para tanto – na verdade ele, no fundo, não quer criar uma empresa. Ele quer criar um emprego. E então, quebra a cara.

“Lideranças”

Por Vicente Golfeto em 02/05/2018

A função de um líder – seja ele do setor privado ou do setor público – é apoiar sua equipe. Mas líder é aquele que aponta caminhos. Ao mesmo tempo, o líder verdadeiro é quem não enxerga a realidade somente através dos próprios olhos. Pelo contrário. É aquele que consegue se colocar no papel do outro e entender que a realidade pode ser muito diferente quando ela é vista pelos olhos de mais alguém. Trata-se de uma atitude, ao mesmo tempo, de humildade e de inteligência.
Uma das exceções a esta regra acontece quando estamos falando de um tipo de líder mais raro. São os líderes considerados carismáticos. Carisma – em termos de conceito – é o dom da graça divina, já que caris, em grego, quer dizer graça. Eles têm muito de místicos e muito de imaterial. Além de ser o dom da graça de Deus – segundo conceito que é muito utilizado – carisma é também a capacidade de atrair pessoas e de fascinar, às vezes, até multidões. Os líderes carismáticos inspiram grande devoção. Como tal, acabam dificultando – ou até impedindo – análise baseada na racionalidade do seu comportamento. É inevitável – exatamente por isso – serem vaidosos. O ego é muito insuflado por aplausos, por adulações e por muitos elogios. Nós sabemos que não há nada mais perigoso do que um elogio. Então, esta marca de comportamento pode se transformar num perigoso narcisismo. Narciso, olhando-se no espelho – informa-nos a mitologia grega – ficou apaixonado pela própria imagem.
Quando o líder carismático exerce cargo eletivo, o risco do prejuízo citado acima passa a ser muito maior porque, então, estamos diante de possibilidade de termos até atitudes patológicas.

“Villa-Lobos”

Por Vicente Golfeto em 23/04/2018

As bachianas foram escritas por Heitor Villa-Lobos entre os anos 1 930 e 1 945. Nelas, o compositor tentou unir uma identidade própria – nacional e brasileira, ainda em fase de construção – à tradição da música de Johann Sebastian Bach. Eu soube disso – muito mais sentindo aliás do que valendo-me da razão – depois de bom tempo ouvindo Villa-Lobos. No início da minha adolescência – quando eu então já era muito influenciado por músicas italianas – eu tinha absoluta convicção de que o compositor mais importante da música brasileira era Carlos Gomes. Que inclusive recebera bolsa de estudos do imperador Pedro II. Discípulo de Giuseppe Verdi, li que este compositor italiano teria dito – depois de ouvir músicas do nosso Carlos Gomes – que “este rapaz quer partir do local aonde eu cheguei”. Ele tentava dar sequência ao itinerário do próprio Verdi.
Mas Villa-Lobos – percebi de maneira nítida – chegava ao clássico tendo como forte insumo muitas músicas de compositores populares do Brasil, inclusive de Heitor dos Prazeres, de Cartola e de Pixinguinha, dentre alguns outros. As bachianas reúnem as duas paixões de Villa-Lobos. São elas: Johann Sebastian Bach e o Brasil. Sua obra – desta maneira – é o Brasil em forma de música, que se revela em nove peças onde se nota toda sua imensidão, com referências claras tanto à música e à cultura urbanas como à tradição folclórica e à sua riqueza que tanto interessam o compositor. Some-se a isto, a beleza das melodias carregadas também de uma certa melancolia. E assim, não fica difícil entender como, até hoje, as peças de Villa-Lobos estão entre as mais populares da música brasileira.

“Crescimento”

Por Vicente Golfeto em 19/04/2018

Muitas vezes, o combate à recessão nos países menos desenvolvidos – como o Brasil – consiste na mudança de modelos assentados em transpiração e em modelos assentados em inspiração. O primeiro gera crescimento econômico enquanto o segundo produz desenvolvimento econômico. O crescimento apóia-se na capacidade de acumular fatores de produção utilizando-se de mão-de-obra disponível e fazendo mais investimento. No passado, falava-se em contratar braços. Afinal, é o suor que provoca transpiração. O modelo baseado na inspiração depende da capacidade de se fazer mais com os mesmos recursos e com os mesmos disponíveis fatores de produção. A consequência imediata é o aumento da produtividade e também a busca da eficiência por meio da melhora da educação, da gestão e da inovação. Não se contrata mais braços mas cérebros. Cada vez mais, são usados menos músculos e mais neurônios.
Nos dois casos, entretanto, são necessários governos com eficiência da iniciativa privada e também empresas privadas com espírito público. Adicione-se a esta necessidade o fato – também esclarecedor – que, no método de combate à recessão pela transpiração, o que se tem é crescimento econômico. No método da inspiração chega-se ao desenvolvimento econômico. Quando o PIB passa a ter mais conteúdo mental do que conteúdo físico. No modelo da transpiração, ao contrário, o PIB tem mais peso físico do que peso mental. Aquele é o modelo dos países avançados.
O próprio estudo das diferenças põe a nu a síntese que fez Kofi Anan, secretário geral da ONU, quando disse: “economia e meio-ambiente não se contrapõem. Pelo contrário. Complementam-se”.

“Obras de arte”

Por Vicente Golfeto em 18/04/2018

Foi Luc de Clopiers, marquês de Vauvenagues, quem chegou primeiramente – pelo que sabemos – a uma conclusão chocante. É que, para ele, “a paz faz os homens mais felizes mas mais fracos”. Este conflito, quando se chega ao entendimento e à conclusão finais, abriu-me a mente para compreensão posterior que tive assistindo ao filme – do ano de 1 959 – “O Terceiro Homem”, de Carol Reed, diretor inglês. Ele põe na boca de Orson Welles: “trinta anos de guerra, terror e sangue, na Itália sob o domínio dos Bórgias, produziram a arte de Michelângelo Buonarroti e de Leonardo da Vinci, dentre outros, dando início ao Renascimento, período imediatamente posterior à Idade Média.” Com os quinhentos anos de democracia e paz, a Suíça produziu apenas o relógio Cuco.
A partir desta lembrança – advinda de filme a que assisti em sala do então famoso Cine Centenário – lembro-me bem da sua localização no centro de Ribeirão Preto e no advento dos chamados Anos Dourados, assim denominado por Chico Buarque e Tom Jobim. Busquei, em vão, explicação para esta assertiva real – mas dita com ponta grande de ironia – por diversos artistas. O último foi através de citação do pintor suíço Paul Klee: “se a obra de arte precisa ser explicada, então ela está errada. A obra de arte deve ser explicada por si mesmo”. Parti para a estética do absurdo, literatura que é a marca registrada inclusive de Franz Kafka. Não cheguei a nada de especial.
Não fiquei sabendo com qual matéria-prima foi feita tanta beleza. Mas desconfio que o sofrimento é o principal insumo. Toda grande arte tem poder de purgar dores. O que é belo alivia. Há força catártica na beleza.

“Gênio político”

Por Vicente Golfeto em 17/04/2018

Há mais de trinta anos eu participei de seminário na Unesp – campus de Araraquara – sobre Literatura e História, dirigido pelo professor Edgard Carone, por sugestão do sociólogo Tocary de Assis Bastos. Então, comecei a entender os corredores que ligam a ciência do tempo passado com a literatura, uma arte singular. No cruzamento, analisamos algumas biografias de líderes políticos, a começar pela de Napoleão Bonaparte.
História e Literatura comunicam-se mas a História é construída em torno de fatos enquanto a literatura gira ao redor da condição humana, amplo território das emoções e dos pensamentos que produzem experiência, sempre acúmulo de erros. Para Gilles Deleuze, nós erramos quando acreditamos nos fatos porque só há signos. E erramos novamente ao crermos na verdade porque não há verdades. Só há interpretações. Para ele, a História – a ciência dos fatos – na esquina com a literatura, provoca interpretações díspares por causa da própria condição humana, campo das emoções e dos pensamentos singulares.
Ao analisar Napoleão na obra Os Heróis, Thomas Carlyle focaliza o corso, inclusive no momento em que, em Bonaparte despontou Napoleão. Vale dizer: no militar aparece o gênio político que exportou para a Europa, através das botas dos soldados do exército francês, no início do século XIX, a revolução de 1 792. George Roux também analisa o perfil de Napoleão mas do ponto de vista do visionário que permitiu a Affonso Arinos de Mello Franco – no livro Amor a Roma – ter anotado que “é impossível entender-se o século XX sem ter lido o Memorial de Santa Helena, testamento político onde pontifica o estadista de gênio”.

“Hábito cultural”

Por Vicente Golfeto em 16/04/2018

Não se trata apenas de comportamento isolado dos municípios. Nem dos administradores dos municípios. É coisa do Brasil como um todo porque já faz parte de nossa cultura. E – como toda cultura – ela é feita de hábitos. A união, os estados, como também os municípios, têm tido ao longo dos tempos, o mesmo comportamento. É que, no curso da história do Brasil, não faltam exemplos de que, em nosso país, se alguma coisa não for urgente – mesmo que seja bastante importante – acaba sempre ficando para depois. Só quando o problema se torna crítico – quase insolúvel, mesmo – é que a solução ganha prioridade. E assume características de inadiável e, assim mesmo, a solução vem a conta-gotas, aos poucos. Isto quando vem. Há problemas que podem ser resolvidos a vista – de imediato – e, no entanto, em obediência à nossa tradição, apresentam solução muito demorada. É a prática de se empurrar tudo com a barriga como se costuma dizer comumente. Não se trata apenas do Brasil. Fatiado vemos claramente o comportamento dos próprios brasileiros.
Atualmente nós estamos com duas questões prementes que já deveriam ter sido equacionadas ainda que não totalmente resolvidas. Ante os problemas atuais não discutimos, no que seria oportuno, a questão da previdência social – tanto do setor público como do setor privado – e agora somos chamados a discuti-las às pressas, quase no que se chama de bacia das almas. A outra questão é o deficit fiscal que, como elemento fundamental das finanças públicas, é o grande responsável pelo gênesis da dívida pública e, também, pelo seu aumento constante e seguido.
Assim deste jeito, somos quase todos nós.