“Pelo estômago”

Por Vicente Golfeto em 14/08/2017

Culinária é uma das artes mais fascinantes que existe. Influenciada decisivamente pelo binômio tempo e ponto, ela é centrada na cozinha, repartição tradicional das casas. A culinária nada mais é do que um conjunto de modos de produzir alimentos de uma sociedade – para sermos mais preciso – marcada, quando estudada, pela existência de uma história peculiar, com características próprias de uma região. O filósofo Ludwig Feurbach dizia que “o homem é o que ele come”. Na síntese nós podemos ver, de início, quem é – na maior parte das vezes – o ser humano. Ele é produto muito mais da mulher, responsável pelo corpo, pela formação e muitas vezes também até pela formatura, que é transmissão de conhecimentos.
Já a gastronomia – que, em vez de ser centrada na cozinha como a culinária, é centrada no estômago porque gastro, em grego, é estômago – surgiu na Europa ligada ao aparecimento dos restaurantes, quando se começou a estruturar discurso próprio sobre comida. Não é raro o ser humano comer mas não se alimentar. Com a gastronomia, aparece a palavra petisco, soma de petit – termo francês – com iska. Tal palavra, do latim, é usada para atrair peixes no ato da pesca e também costuma atrair o ser humano. É daí que surge a síntese: “a mulher, quando boa cozinheira, amarra o homem pelo estômago”.
A culinária nasce como arte pura, sem contaminação e no lar, enquanto a gastronomia, tendo importante componente artístico, exibe lado que a torna porta de entrada para business, para ganhar dinheiro, para – numa palavra – ganhar a vida. O metro da qualidade de vida de uma cidade pode ser aferido também pela sofisticação de suas casas de pasto.

“Segurança”

Por Vicente Golfeto em 11/08/2017

Segurança é a primeira condição para que uma comunidade tenha qualidade de vida. Montesquieu alerta: “é dever do estado oferecer ao cidadão apenas segurança e justiça”. Mesmo considerando-se este binômio, segurança vem até antes que justiça. É que não há justiça sem segurança.
Temos que considerar que seu oferecimento procede de ação coordenada da União, do Estado e do Município. A União deve policiar as fronteiras impedindo o ingresso de drogas e de mercadorias contrabandeadas. O município deve fazer a sua parte. Primeira é dotar os bairros distantes de iluminação pública que iniba a ação dos marginais. A geração beat, nos Estados Unidos, sentia a força da iluminação para limitar sua ação. Beat é gíria inglesa. Significa marginal. O município pode coibir os marginais restaurando condições para que as famílias, reocupem as praças e os logradouros públicos. Esta é também da guarda civil. Ao estado compete dar segurança aos cidadãos.
Impunidade é estímulo à criminalidade. É o crime continuado. Ela se acentua com falta de solução dos delitos, inclusive dos homicídios. E a ação mais importante é a da policia civil, lembrando do descompasso que nasce em decorrência da existência de duas policias: a civil e a militar. Quem investiga o crime não é quem o combate nas ruas. Os direitos dos cidadãos à segurança são mais importantes do que o corporativismo das polícias.
Enquanto o crime compensar – como acontece – combatê-lo fica cada vez mais difícil. Há sempre aumento da insegurança do cidadão. Esse estado de espirito é aferido pela sensação de insegurança. Que está crescendo.

“Deseducando”

Por Vicente Golfeto em 07/08/2017

Imediatamente após eu ter terminado a graduação, velho professor universitário – sacerdote católico, da universidade gregoriana de Roma, já falecido – sugeriu-me que eu fizesse pós-graduação. Mas acautelou-me: “se for no Brasil, preste atenção na ideologia de seu orientador. E nunca fique contra o que ele pensa. Discorra sua dissertação conforme as ideias dele”. Não entendi bem. Ou, melhor, entendi sim. Mas não concordei. Só que era a pura realidade. Como é nos dias de hoje. A verdade é que não há possibilidade de aprender a pensar se a verdade for apenas a do professor. Muito mais importante do que ensinar pensamentos é ensinar o estudante a pensar. Isto desde as primeiras letras, passando pelo segundo grau, chegando à graduação e, por último, à pós-graduação. Sempre cito santo Agostinho para quem “educar é ensinar a pensar.” Em matemática, mais importante do que apresentar um algoritmo – e, depois, exercícios de aplicação – é aprender a raciocinar matematicamente. E após, apresentar exercício de aplicação a respeito, ensinar a distinguir raciocínio matemático de raciocínio aritmético. E por ai vai, na sequência.
A verdade é que, quanto mais ideologias, menos ideias. E é plantando ideias que nós colhemos oportunidades. O estudante fica escravo de ideologias já mortas, sem a menor possibilidade de serem ressucitado porque já foram sepultadas pela realidade da vida e da existência. É por isso que – na minha opinião – muitas vezes a educação deseduca. Eu dou razão inteira – pelo menos no que toca a muitos casos, em nosso país – a Mark Twain que disse: “nunca permiti que a escola atrapalhasse a minha educação.”

“Democracias”

Por Vicente Golfeto em 03/08/2017

É assustador que democracia de massa compartilhe, com as ditaduras, a necessidade de espetáculo. A prova de que – no tempo dos césares – Roma nem de longe foi uma democracia, é dada pelo lema de alguns segundo o qual panis et circensis é o que a massa quer. E, na escolha, é preciso dar mais circo do que pão. O regime é mais garantido e mais seguro – em termos de estabilidade – mais com circo do que com pão, embora ambos, somados sejam imbatíveis.
Mas – democracia sem complemento restritivo e sem adjetivo – não se vale de espetáculo para se sustentar. Ela passou ter necessidade quando foi transformada em democracia de massa. Que elimina o povo. Este, em fragmentos, transforma-se em súcia, malta, horda, corja e em bando, dentre outras denominações. Quando em maior quantidade, vira multidão. Sören Kierkegaard diz que “a multidão é a mentira”. Mas a massa – o povo perde a identidade – age por instinto. Nela, o que restou do cidadão – se ele já existiu – esconde-se, vai para o anonimato.
Nos dias de hoje, o apelo às massas tem modificado para pior as democracias. E há analistas que chegam a afirmar que ela já se encontra em funeral. Nos Estados Unidos, o regime está virando plutocracia, dos mais ricos financeira e economicamente. Em outras democracias a mutilação tem começo na eliminação do marketing político, sepultado pelo marketing eleitoral. É quando o candidato é vendido como mercadoria. O eleitor vira cliente e o político, eleito, tem clientela e não correligionários. Ambos – como no crime – são cúmplices. Então, muitas vezes, os advogados de criminosos, em vez de serem defensores, transformam-se em comparsas.

“Oratória do poder”

Por Vicente Golfeto em 31/07/2017

Eu sempre achei que arquitetura – arte – é a oratória do poder. Quem quiser saber, por exemplo, com quem estava o poder – em determinada época e em determinada cidade – basta identificar as edificações mais valiosas e anotar a data da construção. Com seus proprietários estava o poder. Foi por isso que concluí que as catedrais estão para a Idade Média como os cassinos estiveram para todo o século vinte e os shoppings centers – templos de jogatina e de consumo, respectivamente – estão para o século XX e para o começo do século XXI. Símbolos do poder dos Estados Unidos, Wall Street e las Vegas mostram a cara do capitalismo em fase posterior – na sequência – ao que foi o binômio Detroit e Manhattan, símbolos fálicos do automóvel e do edifício.
A clientela que frequentava – e ainda continua frequentar – os cassinos está envelhecendo e os jovens não parecem interessados em ocupar o seu lugar. Pessoas na casa dos vinte a trinta anos, que cresceram jogando videogames em consoles, computadores ou smartphones, não migraram, como se esperava, para nenhuma modalidade da indústria do jogo. Os cassinos – em las Vegas – já sentiram menos a queda no faturamento e mais o fato de os mais jovens não estarem se interessando tanto pela jogatina. A rigor, estes moços não estão se interessando absolutamente em nada abrindo, com isso, uma perspectiva pouco favorável quanto ao futuro dos jogos, exatamente na época em que, no Brasil, tenta-se legalizar o jogo, depois de o presidente Eurico Gaspar Dutra, ainda nos anos quarentas do século passado, ter tornado a atividade totalmente ilícita. A consequência foi o fechamento dos cassinos.

“Síntese essencial”

Por Vicente Golfeto em 27/07/2017

Simetria, simplicidade, beleza e verdade parecem andar de mãos dadas no estudo da história das ciências. E – pelo que tenho notado – quase todas, inclusive as que são chamadas de ciências sociais, as Humanidades. Estudos de psicólogos da Universidade de Harvard definem como uma das principais habilidades contemporâneas a capacidade de síntese. Que é a mesma tese com utilização – com dispêndio – de menos tempo. Fustel de Coulanges, autor da obra A Cidade Antiga, diz que “para se fazer vinte segundos de síntese são necessários pelo menos vinte anos de análise”. Análise é termo que, na língua portuguesa, nasce da soma de dois: um é anal, de anos – denota tempo – o outro, do grego, lyse, que significa quebrar, separar. Análise, portanto, pressupõe separar por tempo. Já síntese é economia de tempo. Ambas – análise e síntese – são técnicas enquanto essência é pensamento.
A capacidade de fazer síntese indica necessidade de chegarmos à essência, substantivo que vem, indiretamente, do verbo essere, do latim, que quer dizer ser. A essência, portanto, provém do ser. É do ser. A capacidade de síntese, a que se referem os psicólogos da Universidade de Harvard citados acima, na verdade nos permite dizer e concluir que “se existem duas explicações para um mesmo fenômeno – o que, em ciência, se denomina de hipóteses, alternativas através das quais se pretende chegar à tese – a mais simples deve ser a verdadeira. Chega-se a ela pelo pensamento e não por meio de técnicas. Indo até à escola, podemos concluir – então – que bom professor é aquele que é, sempre, um gerenciador, um gestor de curiosidades dos alunos.

“Hábito cultural”

Por Vicente Golfeto em 24/07/2017

Não se trata apenas de comportamento isolado dos municípios. Nem dos administradores dos municípios. É coisa do Brasil como um todo porque já faz parte de nossa cultura. E – como toda cultura – ela é feita de hábitos. A união, os estados, como também os municípios, têm tido ao longo dos tempos, o mesmo comportamento. É que, no curso da história do Brasil, não faltam exemplos de que, em nosso país, se alguma coisa não for urgente – mesmo que seja bastante importante – acaba sempre ficando para depois. Só quando o problema se torna crítico – quase insolúvel, mesmo – é que a solução ganha prioridade. E assume características de inadiável e, assim mesmo, a solução vem a conta-gotas, aos poucos. Isto quando vem. Há problemas que podem ser resolvidos a vista – de imediato – e, no entanto, em obediência à nossa tradição, apresentam solução muito demorada. É a prática de se empurrar tudo com a barriga como se costuma dizer comumente. Não se trata apenas do Brasil. Fatiado vemos claramente o comportamento dos próprios brasileiros.
Atualmente nós estamos com duas questões prementes que já deveriam ter sido equacionadas ainda que não totalmente resolvidas. Ante os problemas atuais não discutimos, no que seria oportuno, a questão da previdência social – tanto do setor público como do setor privado – e agora somos chamados a discuti-las às pressas, quase no que se chama de bacia das almas. A outra questão é o deficit fiscal que, como elemento fundamental das finanças públicas, é o grande responsável pelo gênesis da dívida pública e, também, pelo seu aumento constante e seguido.
Assim deste jeito, somos quase todos nós.

“Intuição”

Por Vicente Golfeto em 20/07/2017

É importante quando o artista fala, mas é muito mais importante quando ele fala através de suas obras. A obra fala pelo artista. Pablo Picasso, por exemplo, interrogado sobre a razão pela qual as pessoas pintadas por ele tinham membros não postos nos devidos lugares – como colocar olhos ao lado da boca – ele respondeu: “por que a pintura tem que se submeter à anatomia?”. E arrematou: “não pinto o que vejo. Pinto o que penso”.
Intuição, para muitos conhecedores da inteligência do ser humano, é algo ligado ao instinto e não ao cérebro. E gera efeitos superiores aos da razão. Chega-se à verdade – em ciência e em arte – mais pela intuição do que pela razão. Não é outro o mistério de Edgar Degas, extraordinário pintor francês. Ele disse certa vez: “se você não sabe pintar, a pintura é a coisa mais fácil que existe. É só pegar uma tela, um pincel e tinta. E pintar. Mas se você sabe pintar, é praticamente impossível”. No fundo, pelo que li, ele diz que é necessário abrir as portas da intuição e permitir que ela dirija os movimentos do artista na confecção da obra, seja qual for. Seria uma mistura de cérebro – imaginação – com instinto animal do qual a intuição é uma das mais nobres manifestações. Lia Luft, escritora brasileira, disse e repetiu que: “a missão primeira da arte é incomodar”. Nada mais. Não é por outra a razão que a arte precede a ciência em termos de se chegar à verdade que, para Karl Popper, é sempre provisória. Na obra A Vida da Razão, o escritor norte-americano de ascendência espanhola, Georges Santayanna, já tocava neste assunto ainda que de maneira oblíqua. A razão, quando é outra, gera outra verdade.

“Setor público”

Por Vicente Golfeto em 17/07/2017

Nas favelas, que se multiplicam por todo país, se encontram – hoje – barracos devidamente equipados com geladeiras, com eletrodomésticos, com televisores modernos e, às vezes, até com carros populares e com outros objetos de consumo. Mas, quando saem a rua, as pessoas não encontram escolas, postos de saúde e hospitais decentes. Nem transporte público eficiente e barato e nem segurança minimamente adequada. Por que este verdadeiro descompasso? A verdade é que, de um lado, o favelado fez a sua revolução do jeito que podia. Estamos falando do consumo, cujos produtos arrolamos acima. A empresa privada também fez a sua parte, oferecendo oportunidades de trabalho e de emprego, somando ao próprio favelado, quando tem capacidade e competência para se tornar até um micro-empreendedor.
O que está faltando – então – é o setor público, ou melhor, o setor estatal porque, pelo que se vê, não se tem setor público no país. E setor público dos três níveis, isto é, da União, do Estado e do Município.
Há algum tempo focalizamos a situação da vila Elisa, loteamento inserido na Vila Carvalho, na sequência territorial dos Campos Elísios, em Ribeirão Preto. O presidente Epitácio Pessoa inaugurou uma metalúrgica em 1 922. Mas os equipamentos urbanos – saneamento, esgotamento sanitário, pavimentação de ruas, e iluminação pública, dentre outros melhoramentos – só terminaram de chegar nos anos oitentas, quase sessenta anos depois da construção da Vila Elisa. Este descompasso precisa ser corrigido. Porque – queiramos ou não – perdura até os dias de hoje, nos mais diversos pontos de Ribeirão Preto. É a realidade de todas as cidades brasileiras.

“Aquífero Guarani”

Por Vicente Golfeto em 10/07/2017

O aquífero Guarani é do tamanho da África do Sul. A natureza é tão exuberante que o metro com que nós a medimos deveria ser o do espanto. Mas não é. Ele pode abastecer 400 milhões de pessoas de forma sustentável. Sem super exploração nem contaminação com agrotóxicos, o abastecimento pode durar milênios. Importante ter a dimensão do aquífero, um mar subterrâneo partilhado pelo Brasil (71%), pela Argentina (19%), pelo Uruguai (4%) e pelo Paraguai (6%) A recarga ocorre em poucas áreas. Por isto, é importante ter-se em mente que o aferidor do volume não baixe de modo perigoso.
Além dos pontos de recarga, deve-se considerar que nossa água é de chuva. Inexistem geleiras. Para tanto, as cidades existentes sobre o aquífero – em grego, foro quer dizer que contém e aqua, em latim, é água – podem se transformar, se corretamente urbanizadas, em pontos de recarga. Basta que o solo não seja totalmente impermeabilizado e permita infiltração. Assim, a água de chuva não correrá na superfície e chegará aos lençóis, freático e hartesiano.
É importante – por isso – que os municípios tenham, não apenas plano diretor de superfície mas plano diretor subterrâneo, onde serão monitoradas a infraestutura de saneamento básico e as galerias de águas pluviais. Estas devem drenar as águas de chuva para os rios que compõem a bacia hidrográfica. A unidade de planejamento local – mas sobretudo regional – é a bacia hidriográfica, confirmando que geografia é destino.
O aquífero Guarani não pode ser comparado com o petróleo do pré-sal – como se costuma fazer – porque seu valor estratégico do presente rumo ao futuro é significativamente maior.