“Poder da oração”

Por Vicente Golfeto em 19/10/2017

Você já deve estar cansado de ouvir – como eu também estou – que, o que se pretende fazer de bem para uma pessoa, é bom fazer em vida porque, depois de morta, não adianta mais nada. Tem lógica no âmbito da matéria. E também no dever de cada um em relação ao próximo. Mas o texto sagrado – especificamente o que diz II Macabeus(12;46) – nos diz que “santo e salutar pensamento é este de orar pelos mortos. Eis por que ofereceu um sacrifício expiatório pelos defuntos, para que fossem livres dos seus pecados”. Nossos deveres e obrigações, em relação aos já falecidos, se estendem após a morte deles, ainda que – durante a vida – estes, finados hoje, não cressem na espiritualidade e em Deus.
Aproveito este espaço para dizer-lhes que – a cada leitura que faço da bíblia, – encontro algo de novo, embora não no que toca a este versículo de Macabeus porque, como faço anotação dos dias em que algo me chama mais atenção – tanto do Novo como do Velho Testamento – este está anotado com data de 12 de dezembro de 1 986. O que significa que o versículo já havia me despertado interesse especial. Que anoto novamente para renovar as orações que faço sobretudo aos entes queridos, aos que já se foram. Nos Lusíadas – obra clássica da língua portuguesa – Luiz Vaz de Camões nos esclarece, em termos expressivos, que “quem morre não morreu. Partiu primeiro”. E é isto. Chegaram antes por aqui e também partiram antes daqui. A oração é mesmo a força do Homem que toca o coração de Deus. Vivemos – conforme nos disse o papa Francisco – o ano da misericórdia. Por sinal, Kirie Eleison, em grego, quer dizer Senhor, tem piedade de mim.

“A água capital”

Por Vicente Golfeto em 16/10/2017

A água capital
Os artistas costumam chegar antes do que os cientistas. Não sei se chegou antes, mas chegou entre os primeiros. Falo de Mark Twain cuja sintese é a seguinte: “uisque a gente bebe. Por água a gente briga”. Por sua quantidade ser limitada pela natureza através dos ciclos hidrológicos, água é um bem que – ao mesmo tempo – tem valor, pertence ao terreno da axiologia, parte da filosofia. E também tem preço. É do mercado. Deve ser mensurado no âmbito da administração e registrado na contabilidade de custo. Postulado de economia ensina que, quando uma coisa é barata demais – ou oferecida gratuitamente – as pessoas tendem ao disperdício. Que é o antieconômico.
Há quem pense que a água é um direito, advindo dai o dever do poder público de oferecê-la gratuitamente. Outros – políticos e até juízes – pressionam as autoridades para que, para determinados grupos, sua distribuição seja subsidiada. O resultado é desperdício sem igual que poderia ser evitado. Mas não tem sido.
O problema ganha relevância quando o desperdício – o antieconômico – é patrocinado pelo próprio poder público. É que a conduta errada e condenada, mais do que contaminadora, chega ser contagiosa infectando o comportamento dos cidadãos embutidos nos munícipes. Água é um insumo fundamental nos lares e nas empresas mas também é fonte geradora de eletricidade através da energia hidroelétrica. A disputa coloca – então e em campos opostos – estado e união contra o município. Além de tudo, as mudanças climáticas aceleram os ciclos hidrológicos, aumentando a concentração de água onde ela já é abundante e agravando, em contrapartida, a aridez das regiões secas.

“Dores do parto”

Por Vicente Golfeto em 09/10/2017

É postulado de economia: “quanto mais a corrupção estiver presente nas relações humanas menos se tem livre mercado”. Em outras palavras: para se combater os crimes nas relações estado e sociedade é preciso instalar o capitalismo de mercado e sepultar o capitalismo de estado. O Brasil está grávido de um capitalismo de mercado. Que precisa apear do poder o capitalismo de estado para não matar quem deve nascer. O país já esta sentindo o que pode ser chamado de as dores do parto do nascimento do novo regime. Fui buscar em Edmund Burke – historiador da Revolução Francesa de 1 789/ 1 792 – a porta de entrada do entendimento da realidade. Ele diz: “o indivíduo é tolo. A multidão, no momento em que age, também é tola. Mas a espécie é sábia e, quando se lhe dá tempo, quase sempre age corretamente”.
O que eu entendia ser a maior dificuldade do país para alteração de comportamento da sociedade é que faltava um líder que deve ser o parteiro do nascimento da nova ordem. Para mim, o presidente Michel Temer jamais seria este homem. Mas, como o líder é sempre filho das circunstâncias, estou perplexo com a capacidade de lidar com os destinos do país do presidente Michel Temer, depois de ser guindado ao poder em decorrência de claro golpe de estado. É bom lembrar que, no mesmo texto de Edmund Burke, se lê: “raiva e frenesi destroem em meia hora o que a prudência, a deliberação e a presciência podem erigir em cem anos”. Joaquim Nabuco já havia visto risco similar: “sem os exaltados é impossível fazer revolução. Mas, com eles, é impossível governar”.
Não podemos permitir que o passado se transforme em arma de destruição do futuro.

“Linguagem”

Por Vicente Golfeto em 05/10/2017

Nos primeiros anos do curso primário, as disciplinas as quais se dava ênfase eram linguagem e aritmética. No secundário – sequência pedagógica – elas eram denominadas de português e matemática. Mas tínhamos noções de geografia e de história.
Estudávamos linguagem, de língua portuguesa. Foi aí que comecei distinguir o que era certo do que era errado, em termos gramaticais. Comparava o que a professora dizia ser correto e o que as pessoas falavam na rua. Em casa – com meu avô e com minha tia – eu era corrigido constantemente. A professora era incisiva e o resultado do aprendizado vinha nos boletins mensais – investigados por minha mãe – como aplicação. O respeito com o professor e o trato com os colegas apareciam na coluna comportamento. Minha mãe dizia que ela era avaliada através do meu comportamento. Educação vem do berço. Ela queria dizer o que – em termos pedagógicos – se chama formação. A aplicação era a avaliação do meu aprendizado. Com dez anos, encerrei o curso primário.
O que deve valer: o que os gramáticos dizem ou o que o povo fala? Afinal, língua é o órgão da fala. E ela está na boca de todos, não apenas dos acadêmicos e dos gramáticos. Isto é o que eu – no ginasial – cheguei a pensar antes, durante e depois das aulas da professora Lucy. Só pensei porque não me atrevi a falar para ela. Dona Júlia, moradora dos Campos Elísios – há tempo falecida – dizia, por exemplo, que não houve reunião da Câmara Municipal por falta de cloro. Ela queria dizer quorum… Certa vez, uma neta dela não pode ir à aula porque estava sinfônica. Não afônica. Não seria melhor ouvir só o povo? Se não é correto, pelo menos é divertido.

“Ajustes fiscais”

Por Vicente Golfeto em 02/10/2017

A crise que o Brasil vive nos dias de hoje parece-me totalmente diferente das crises anteriores. E parece também ter gravidade diferente mas não sei se é maior ou menor em intensidade. A verdade é que não temos crise de solvência dos bancos, nem dos públicos e nem dos privados. Não há susto quanto à solvência dos estabelecimentos de crédito como aconteceu no primeiro governo do presidente Fernando Henrique, quando foi necessário criar um programa específico de socorro financeiro, programa este – vocês se lembram, acredito – denominado de Proer. Não temos também nenhum problema de balança comercial inserida como fração do balanço de pagamentos. Aliás, o Brasil tem até um colchão de segurança de mais de US$ 370 bilhões de reservas cambiais. A situação, portanto, é confortável.
Ao lado destes itens favoráveis, nós estamos vendo também a inflação declinar, tendo tudo para voltar à meta. O que é altamente favorável embora se saiba que o que tem derrubado o ímpeto dos preços seja uma cruel recessão. O que temos é uma crise fiscal motivada inclusive pela gastança dos governos dos três níveis, situação esta levada ao paroxismo pela redução do PIB, em mais de 10%, nos dois últimos anos. Daí a necessidade de ajustamentos fiscais. E da união, dos estados – que inclusive estão carecendo de socorro tal a penúria de alguns – e de muitos municípios. É bom lembrar sempre de que, ajustamentos fiscais baseados em cortes de gastos, têm custos menores do que os baseados em aumento de impostos, independentemente de se iniciarem ou não durante a recessão.
A receita é aplicável também aos governos locais, inclusive ao de Ribeirão Preto.

“Símbolo do poder”

Por Vicente Golfeto em 28/09/2017

Tenho notado insistentemente, embora possa estar bastante enganado quanto à minha percepção, que os mais jovens estão menos interessados do que minha geração esteve – e que outras, do passado, também estiveram – em ter automóveis e propriedades imobiliárias como hedge, como garantia para momentos de insegurança na vida. Automóvel foi símbolo de poder nos Estados Unidos. Como símbolo de poder, foi também sinônimo de potência, de falo duro. Só que era também símbolo de falo pequeno e modesto. O outro símbolo de potência nos Estados Unidos – ambos projetando o capitalismo norte-americano até algumas décadas atrás – era o edifício. Só que este era um falo projetando-se para o alto. Erecto e bem grande. O automóvel era também símbolo de liberdade, de desejo de ir para onde se quisesse. Atualmente, o capitalismo norte-americano projeta-se menos na jogatina – portanto, em Las Vegas – e muito mais em Wall Street, na grana.
A geração está sendo produzida – digamos assim – com outros objetivos. Não está interessada tanto em acumular imóveis e carros. Também deseja mobilidade urbana mas não quer carro. Prefere uber. Mandar e.mails e, deste modo, assim não ter que se preocupar com estacionamento é mais fácil. Assim, o automóvel – como transporte individual – é cada vez mais problema para a mobilidade urbana em vez de solução, como esta geração deseja. A consequência imediata é ela, aos poucos, ter que encontrar outros símbolos para a liberdade – cada vez mais desejada – e até iniciar, sem querer alteração da própria arquitetura residencial, tão modificada em virtude da necessidade de espaço para garagem de veículos.

“Metropolitanos”

Por Vicente Golfeto em 25/09/2017

A sina da política é dividir. A da economia é somar enquanto a da cultura é de consolidar a soma feita pela economia – que deve – explicar a criação de quase todos municípios de nossa região. Já a geração de uma região metropolitana ocorreu em linha contrária à separação feita pela política. Região metropolitana é sempre um artifício jurídico que tenta transformar os municípios de área de um estado – quando somados – em praticamente bairros de uma metrópole, a tal de região metropolitana. Mantem-se, então, a autonomia politica de cada um dos municípios. Eles continuam elegendo os dirigentes – vereadores e prefeitos – mas passam a ter integração política que ocorre antes de haver uma integração economica. Seria, em termos grosseiros, uma unidade de direito público interno situada acima do município e abaixo do estado. Portanto, uma posição intermediária. Tanto que o governo do estado é que reconhece determinado grupo de municípios como constituindo uma região metropolitana. A integração pode ser territorial – portanto, física – econômica ou ambas, ao mesmo tempo.
A realidade, é que mais do que nunca, os governantes municipais é que devem dirigir a cidade de tal maneira que ela se transforme numa incubadora de cidadania. Cidadão – em termos de vocábulo – é quem reside na cidade. À medida que os municípios de uma região vão consolidando a metrópole, o cidadão habita uma metrópole, termo quem vem da soma de dois termos de origem grega. São eles: meter, mãe e polis, cidade. Portanto, metrópole é cidade-mãe. Mas ela pode ser uma cidade-mãe sem ser, ao mesmo tempo, aglutinação de várias cidades próximas territorialmente.

“DNA político”

Por Vicente Golfeto em 21/09/2017

Partidos políticos são pontes que ligam a sociedade civil – os cidadãos – ao estado, à sociedade política. Nasce, então, a sociedade organizada. E organizada conforme vontade dos partidos políticos. Eles agem de acordo com os votos recebidos e com as instituições, mais as políticas do que as econômicas. Mesmo essenciais para funcionamento da democracia representativa, os partidos políticos são organizações de natureza privada. Não são órgãos públicos e nem estatais.
Esta introdução nos leva aos seguintes questionamentos. O primeiro é de onde devem vir os recursos para manter os partidos políticos. O segundo é quem são componentes dos partidos políticos. A primeira questão pode ser assim explicada: como organizações privadas – de direito privado – os partidos não deveriam poder receber recursos públicos porque eles são sacados do erário da administração direta. Podem, então, ser financiados por pessoas. Pessoas: físicas ou jurídicas? Por pessoas físicas porque pessoas jurídicas – empresas – não devem financiar partidos. Ou não deveriam financiar. Como é da natureza das pessoas jurídicas, elas fazem investimento. Logo, esperam retorno. As consequências são as que nós conhecemos e estamos vendo. Quem deve financiar os partidos políticos – aliás, mais podem do que devem – são as pessoas físicas. A segunda questão é que as pessoas são filiadas a partidos. Portanto, são irmãs nas idéias e nos propósitos. Numa palavra: devem ter o mesmo DNA. Como são os DNAS de irmãos. Assim – creio – politica deixará de ser a arte de transformar dinheiro em voto, até chegar ao poder. E, depois, transformar voto em dinheiro, no exercício do poder.

“Desde Epitácio”

Por Vicente Golfeto em 18/09/2017

Os dois problemas são antigos em nossas paisagens política e econômica. São eles a inflação monetária e a dívida pública. A inflação é mais antiga ainda. O primeiro chefe de governo que a colocou como questão de estado – levando-a à alçada das instituições – foi Epitácio Pessoa, na República Velha. Ele sancionou a norma que criou o código de contabilidade pública, a primeira lei que tentou combater nossa cultura patrimonialista, aquela que faz com que recursos públicos sejam misturados – num blend antirrepublicano – com recursos privados. Referido código estabeleceu que a inflação de um exercício financeiro deve ser contabilizada como parte da carga tributária. Portanto, é modalidade cruel de imposto. E imposto muito injusto.
A divida pública somente começou a se acentuar depois que as finanças internacionais – inclusive todo sistema financeiro mundial – foram objeto de preocupação dos países vencedores da segunda guerra mundial. Então foi criado, dentre outros organismos, o F. M. I. – o Fundo Monetário Internacional – quando as nações começaram a se endividar perigosamente. Como os fatos históricos demonstram. Pois bem – e aí vem a questão – se o estado tributa os mais pobres através da inflação e as crianças, além das que ainda não nasceram, através de um endividamento irresponsável, como o estado pretende se apresentar como defensor da moralidade?
Estas são as questões que devem ser colocadas para debate no momento em que se pretende instituir – começando – uma nova etapa da história do Brasil. É tarefa para se começar logo. E envolve mais do que uma geração em termos de obra a ser enfrentada e executada.

“Espaço urbano”

Por Vicente Golfeto em 11/09/2017

Nas cidades brasileiras, as cheias sempre viram enchentes. As causas destas anomalias – digamos assim, muito comuns – estão na maneira equivocada como, sobretudo no passado, aconteceu a atividade de ocupação do espaço urbano, pontilhado por desrespeitos aos elementos naturais como córregos, nascentes de água e várzeas, dentre outros. A impermeabilização das várzeas é a principal causa das enchentes. Fácil entender: várzea é local para onde se dirige a chuva que não cabe na calha, dos cursos de água, sejam córregos, sejam rios maiores. Como – se não fosse impermeabilizado o solo – o excesso de água penetraria na camada geológica em busca dos lençóis naturais, o fenômeno se quedaria apenas como cheia. Conforme, portanto, a natureza. Virando enchente – com a várzea sendo pavimentada – as cidades passam a ter problemas mais graves. Como temos.
Aliás, os equívocos do passado continuam sendo repetidos conforme se dá a ocupação do espaço urbano. Novos loteamentos aprovados – e até os clandestinos, que não são aprovados – contêm os mesmos erros, todos se constituindo em verdadeiras hipotecas a serem quitadas no futuro pelas gerações que ainda não estão neste mundo. O poder público municipal tem dispendido muitos recursos orçamentários – e também muitos recursos federais – como reforço para solução de problema que, repetido, mostra que não se tem sido bom aluno da escola da vida. Erros, até os repetidos, deixam de ser matéria prima da experiência.
Projetar a ocupação de bairros de uma cidade é também isto: prever como será a cidade do futuro. Afinal, o prefixo latino pró quer dizer avante, para frente. Marcha pró é adiante.