“Metáforas”

Por Vicente Golfeto em 14/12/2017

Urna e mercado são metáforas que significam política e economia, respectivamente. Elas, aliás, contracenam na tentativa de se construir o regime democrático e, também, o sistema republicano. Mas há luta – declarada ou disfarçada – entre ambos. Se o mercado se apropria da urna, o processo civilizatório entra em estagnação e até em regressão. Se – ao contrário – a urna se apropria do mercado, temos o advento do populismo, que desemboca fatalmente no autoritarismo. A concentração de renda – fenômeno notado no âmbito da economia – é resultado de omissões ocorridas no sistema político. Ações no sentido de não se tributar devidamente a renda que deveria ser tributada têm consequências e reflexos futuros. Omissões por erros ocorridos no passado – quando não foram oferecidas oportunidades iguais tanto para pobres como para ricos – produzem concentração de renda. E oportunidade vem de porta, termo da língua portuguesa que significa uma saída – exit, em inglês – porque democracia é igualdade no sentido de se dar a todos o mesmo ponto de partida e não uma tentativa de se igualizar desiguais.
Além dos riscos de se ter mercado e urna se apropriando indevidamente um do outro, ocorre mais um risco no âmbito político. Quando o poder é muito concentrado – seja nas mãos do governo, seja nas mãos do setor privado, com a existência de oligopólios que abrem para cartéis – há espaço para a ineficiência e para a corrupção, somadas. Ambas são consequência, ao mesmo tempo, de deficits democráticos, isto é, da falta de igualdade e, também, de deficit de transparência. Este é o primeiro passo – não o definitivo – para se banir a corrupção.

“Revolução”

Por Vicente Golfeto em 11/12/2017

Foi Talleyrand – ministro de estado antes, durante e depois da revolução francesa de 1 789 – quem sentenciou: “não viveu verdadeiramente quem não viveu uma revolução”. Nós, de nossa parte, também não podemos dizer que não vivemos uma revolução. A diferença é que, hoje, os acontecimentos revolucionários sucedem-se muito mais rapidamente do que os daquela época. Trata-se da revolução da tecnologia, que se sucede a conta-gotas. Um exemplo que podemos citar, para provar que vivemos tempos transformadores, é o fato de a própria ciência – a sociologia – já ser mais conhecida como antropologia. A diferença entre os dois nomes – sociologia e antropologia – põe este fato a nu. A sociologia trata muito mais do plural, da sociedade. Já a antropologia – antropos, do grego, quer dizer o Homem, o ser humano – trata do indivíduo como ente acima da sociedade. Ele é o singular que enfatiza, portanto, o seu egoísmo.
E aí está o maior problema dos dias de hoje, dos dias que vivemos. A explicação vem da seguinte síntese. À medida que nos acomodamos ao mundo em que o progresso tecnológico se tornou o objetivo central, nos esquecemos de que ele diminui a convivência, aumenta o individualismo e submete dados pessoais – primeiro no âmbito da privacidade e depois até da intimidade – ao escrutínio das instituições. Você nunca viu namorados – sentado num mesmo cômodo – não trocarem palavras com a boca mas se comunicarem pelo celular, pelo smartphone?
A revolução tecnológica tem consolidado o individualismo, o egoísmo – portanto, a antropologia – e apeado do poder o que é plural. Portanto, a sociologia. Estamos vivendo uma verdadeira revolução.

“Valor social”

Por Vicente Golfeto em 07/12/2017

Os símbolos do progresso e do desenvolvimento econômico no Brasil – ao longo dos tempos – alternaram-se como obras de engenharia, obras arquitetônicas e projetos mais baratos mas mais de interesse social do que de interesse econômico. Nós estamos diante de fatos que podem, em breve espaço de tempo, produzir pauta interessante para cursos de pós-graduação.
No regime militar – mais no do período de 1 964/1 985 – os símbolos do progresso econômico foram obras de engenharia. São exemplos notáveis a ponte Rio-Niterói e a usina hidrelétrica de Itaipu. Eurico Gaspar Dutra, embora chefe da nação em regime democrático, teve presidência marcada pela construção da rodovia Rio-São Paulo, que recebeu seu próprio nome.
Após os períodos que podem ser considerados autoritários – inclusive o Estado Novo, que englobou 1 937/1 945 – os símbolos do desenvolvimento, já em plena democracia, formaram painel de destaque para obras arquitetônicas, onde pontificaram principalmente a construção de Brasília e mesmo o parque Ibirapuera, na capital do estado de São Paulo. Durante o governo de Oréstes Quércia, em São Paulo, em plena restauração da democracia, vale notar o Memorial da América Latina, significativa obra arquitetônica.
Foi neste período – entretanto e também – que se observou a construção de obras importantes e baratas mas de valor social como os Cieps, no Rio de Janeiro e conjuntos habitacionais, na capital de São Paulo.
Obras de engenharia e obras arquitetônicas – que importaram em volumosos investimentos financeiros – e obras modestas monetariamente mas de valor social muito grande, marcaram períodos da História do Brasil.

“Estado”

Por Vicente Golfeto em 04/12/2017

Não há, na História toda, caso de país que tenha se desenvolvido plenamente sem um estado – um poder público – decente, eficaz e eficiente. Este é o diagnóstico do que tem ocorrido no Brasil, sobretudo nas últimas décadas. Tudo começou – há já muito bom tempo – quando o poder econômico capturou o poder político. Esta primeira fase foi o início de alguns sérios problemas. Mas apenas o início. Estes problemas, entretanto, se agudizaram exatamente quando o crime organizado apoderou-se de parte do poder político, deslocando até o poder econômico.
Na área municipal – e particularmente nos últimos vinte anos – as cidades, de uma maneira geral, deixaram de ser pensadas por planejadores urbanos – como arquitetos, urbanistas, geógrafos e engenheiros – e passaram a ser planejadas pelos principais atores do mundo econômico. São eles os loteadores, as construtoras, os corretores de imóveis e até os locadores de imóveis, dentre outros agentes. Eles precisam ser ouvidos, devem opinar mas, no outro lado, devem estar os técnicos também acima citados. Quem deve arbitrar – quem deve decidir – é o poder público, autor da última palavra que deve ser proferida nos termos do Estatuto das Cidades de cujo útero precisa nascer o plano diretor estratégico.
A importância do cidadão deve ser medida e avaliada devidamente pela necessidade de, paulatinamente, se construir a cidadania, status político sem o qual continuaremos tendo apenas súditos, isto é, sub dictus em latim, que significa debaixo do que foi dito. Ele mesmo não diz nada. E não diz porque não opina exatamente por não ter opinião, por não ser politizado. Por não ser cidadão.

”Metas”

Por Vicente Golfeto em 30/11/2017

Porque o Brasil – sempre que está em condições de mudar de um regime corporativo para uma economia de mercado assentada em postulados liberais – não consegue dar os passos definitivos e últimos para ver as metas concretizadas? Quem, ao longo da História, mais teve em mente o atingimento desta meta – embora, na época, ainda fosse prematura a sua concretização – foi o então presidente Jânio Quadros, eleito com maçiço apoio popular, o que o legitimava para a materialização do propósito. Ele não tinha, entretanto, estabilidade emocional para liderar a mudança de capitalismo de estado para capitalismo de mercado. Outro governo que teve noção do que deveria ser feito foi o do presidente Emílio Garrastazu Médici, no auge do regime militar. A burocracia estatal, acuada, potencializou as consequências do estado de exceção em que viviamos e demonizou a ação do chefe da nação.
Atualmente, por incrível que possa parecer, o presidente Michel Temer está demonstrando ter plena noção da importância histórica de seu governo. O passado de comprometimento com práticas pouco éticas e nada republicanas deram, aos adversários das mudanças, as condições objetivas para impedi-lo. Como, aliás, está acontecendo. A república corporativa do Brasil, de cuja vanguarda o judiciário e o ministério público são os maiores e os mais duros integrantes, têm sido os grandes adversários de qualquer proposta liberalizante.
É muito difícil acreditar que dois dos segmentos com maior número de privilégios garantidos pela constituição lutem para a extinção destes direitos adquiridos, contrários a um mínimo de igualdade que se pretenda estabelecer no país.

“Analogia”

Por Vicente Golfeto em 27/11/2017

No meu tempo de estudante de segundo grau, em instituto de educação, o assunto era chamado de analogia. Ou melhor, fazíamos analogia, na tentativa de entender o que se estudava. Depois, chamou-se o tema de interdisciplinaridade. Hoje já ouvi falar em conexão. E lembrei-me da obra de Henry Miller, Sexus, Plexus e Nexus. Will Durant sentencia que “todo conhecimento humano começa como filosofia, evolui para ciência e termina como arte”.
Que a música é uma arte matemática, sabe-se há muito tempo. Costuma-se dizer, mais especificamente, que o flamenco capta a alma da Espanha como o fado consegue corporificar – em som e em poesia – a alma de Portugal enquanto o samba mostra a do Brasil. Pelas dimensões territoriais do nosso país entretanto, é preciso que nos fixemos nos ritmos que são considerados apenas regionais para que cheguemos transitar do ritmo regional para o nacional e vice-versa. E então, o ritmo identificado como o da região da Andaluzia – o flamenco, a que nos referimos – não é apenas uma música. É também – e, às vezes até mais significativamente – uma dança. E é o produto de diferentes culturas que se misturaram ao longo dos tempos: cigana, mourisca, árabe e judaica. Por que me fixo mais no flamenco? Na infância, minha bisavó – a avó de minha mãe – era nascida na Andaluzia e, com suas castanholas, dançava seguindo o ritmo que, depois, vim saber que era o flamenco.
Friedrich Nietzsche nos alertava que “aquilo para o qual encontramos palavras é algo que já morreu em nossos corações”. Como está provado que ainda não morreu – pelo contrário, está bem vivo – desculpo-me por ter encontrado palavras tão pobres.

“Dilema”

Por Vicente Golfeto em 23/11/2017

O falso dilema entre economia e ecologia – áreas do conhecimento humano que se complementam – assume feição real perigosa quando se trata de circunscrever o assunto ao território, urbano e rural, do município. Os atores em cena são o mercado imobiliário e o urbanismo focado no meio-ambiente. O risco é ocorrer aquilo que, no Brasil, explica parte dos problemas de nossas cidades. Sabe-se – com absoluta certeza – que parte do poder político tem sido capturado pelo poder econômico. E a outra parte – a maior – tem sido capturada pelo poder burocrático. Vendo quadro semelhante na França, na época da revolução de 1 789, o abade Sièys sentenciou: “se o poder vem dos que estão em cima, a confiança – a legitimidade – vem dos que estão em baixo”.
O saneamento básico em áreas rurais também precisa ascender na escala de prioridades elaborada pelo poder público municipal. A recuperação das nascentes hídricas deve incluir estratégias como o controle da erosão, além de minimizar – se não conseguir evitar – contaminação química e biológica do solo. Para garantir a renovação das nascentes, também é necessário um combate constante ao corte das florestas nativas, das queimadas além de repudiar o mau planejamento tanto na construção de estradas como na aprovação de loteamentos.
É neste território que se dá o conflito, o mais comum dos duelos. Quem o arbitra – ou deveria arbitrá-lo – é o poder público local, isto é, o prefeito e os vereadores do município. No que toca a Ribeirão Preto, a expectativa não é pequena no sentido de se corrigir os erros do passado e de se procurar harmonizar interesses da população com os dos agentes do mercado.

“Classe média”

Por Vicente Golfeto em 20/11/2017

Quando os governos do PT – sobretudo os dois mandatos do presidente Lula da Silva através do aumento real do salário mínimo e do aprimoramento da bolsa-família – fizeram segmentos expressivos de classes sociais, com renda inferior, chegarem à classe média, comecei prestar atenção se haveria importantes consequências na área política. Vale dizer: eu queria saber a razão de a nova classe média ter ascendido ao consumo mas não ter ascendido, ao mesmo tempo, à cidadania. Porque foi isto o que realmente aconteceu. Foram criados consumidores mas não surgiram cidadãos. É que o governo federal comecou partilhar renda mas a tarefa de construir o cidadão passava – como passa – pelos governantes locais em interação com os munícipes. Lembrei-me, então, de William Shakespeare que indaga: “o que é a cidade se não o seu povo?”.
Aprender a gerenciar a complexidade da moderna sociedade urbana pode ser – pelo menos eu suponho – a definição atual de desenvolvimento político. Numa palavra: de politização. É exatamente por isto que cidadania – soma, ao mesmo tempo, de direitos e de deveres – deve ser obra prioritária, sobretudo nos dias de hoje, dos governantes locais, com ênfase especial para vereadores e para prefeitos que devem ter consciência da tarefa de todos, dado o momento singular que o país vive. O termo kriten, do grego – que dá crise, em português – na verdade significa momento de decisão e ponto culminante. Vivemos uma crise, ao mesmo tempo econômica, política, social e ética. E é exatamente neste momento de decisão – de mudança – que os governantes das cidades devem estar conscientes de qual seja sua principal tarefa.

“Cultura”

Por Vicente Golfeto em 16/11/2017

Fazer aquilo de que gosta ou aprender a gostar do que faz? Esta frase expressa o que nós chamamos de diferença entre o que é natural e o que é cultural. Cultura, aliás, pode ter como uma das definições a transformação daquilo que é natural. Conforme a natureza humana, cada pessoa – na vida em geral e nas atividades econômicas, em particular – faz aquilo de que gosta. Já aprender a gostar do que faz implica em aprendizado, numa catequese transformadora. Catequese é palavra que vem do grego – catecheo – que quer dizer instrução. Como exemplo nós podemos dizer – para ficar mais claro – que no âmbito da moda, o costureiro passa a ser chamado de estilista. O sentimento, afinal de contas, abre os poros do pensamento. Esta afirmação é um desdobramento intelectual da síntese – quase uma essência – do filósofo grego Protágoras: “o homem é a medida de todas as coisas”.
A música capta a alma do povo. No meu entendimento, ela é o melhor radar social que existe. Assim, o fado capta a alma portuguesa. O flamenco capta a alma espanhola. E o samba capta a inteireza da alma brasileira. Aliás, captava mais do que capta. Hoje, o povo da periferia das cidades principalmente, divide a criatividade musical entre o samba e o hip-hop. O que explica esta mudança? É isto que a cultura popular deve perceber. Por isto, o estado precisa oferecer os equipamentos de infraestrutura para os grupos sociais traçarem a política cultural. Mas isto não significa traçar política de estado para a cultura. Esta deve surgir do seio do próprio povo. Como todo retrato é um autorretrato, toda manifestação artística do povo é um retrato oculto do próprio povo.

“Os jansenistas”

Por Vicente Golfeto em 13/11/2017

Jansenistas eram escritores – não conheço escritores da atualidade que sejam considerados ou que se consideram jansenistas – franceses do século XVII que partilhavam uma visão da natureza humana pela qual somos todos vítimas de desejos incontroláveis. São os pecados, na linguagem da época e na concepção cristã do termo. Por isso, não conseguimos escapar desta armadilha que é interior e não social. Portanto, não é traço da sociedade – do meio em que se está inserido – mas marca do próprio ser humano. O gênese é, portanto, o pecado original. Se formos investigar o começo – a etiologia, se quisermos nos valer de linguagem médica para denotar a origem de uma moléstia – desta linha de pensamento, a raiz do pensamento mesmo, é a concepção do ser humano nascida de santo Agostinho e de sua vasta obra. Dentre elas destacam-se os Salmos que ele comentam, o Livre Arbítrio, Sermões para a Páscoa, a Cidade de Deus e sobretudo as Confissões. Pascal, Racine, la Fontaine – todos franceses, como se vê – foram influenciados por santo Agostinho. Pode-se dizer que foram jansenistas. Aliás, Blaise Pascal – nos Pensamentos e nas Provinciais – declara-se pertencente a esta corrente de pensamento.
O jansenismo facilitou meu entendimento da necessidade que nós temos de distinguir, sintetizar e de essencializar bem útil quando se busca – através de identificação do ser – a origem de uma corrente de pensamento. Essere, em latim, é ser. Essência, substantivo oriundo de essere, é portanto chegar ao âmago do ser. Sintetizar é técnica. Essencializar é pensamento. Em linguagem mais clara: síntese é mais adjetivo. Essência é mais substantivo.