“Reciclagem”

Por Vicente Golfeto em 14/08/2018

Está provado. Pelo menos até os dias de hoje – tanto a população da Terra quanto seus níveis de consumo – têm crescido muito mais rapidamente do que ocorre com a regeneração dos sistemas naturais. É a partir desta constatação que se pode começar a aferir a importância da reciclagem que faz voltar ao ciclo produtivo o que foi consumido e, depois, se tornou resíduo. A coleta seletiva do lixo, assim, é feita para a reciclagem. Então, estaremos apenas no ínicio do processo de reciclagem que culmina quando se atingir o que se denomina de sustentabilidade, um ciclo perfeito onde não existe desperdício e tudo é usado de forma bem consciente. O pré-requisito da sustentabilidade portanto, é uma sólida educação ambiental.
Há dificuldades. A primeira é na linha de se conciliar desenvolvimento econômico com proteção ambiental, travada pela necessidade de se executar grandes obras de infraestrutura. E então verifica-se a previsão do historiador Jules Michelet: “cada época sonha com o que virá a seguir, criando-a – primeiro – em sonho”. Quem sonha melhor é mais capaz de projetar o futuro. O futuro melhor é o que vê antes que economia não se opõe a ecologia. Ambas se complementam. A marca de todo otimista é acreditar sempre no futuro embora seja necessário que nos acautelemos de que, metas muito ambiciosas são garantia de frustrações. É o que nos mostra a História Econômica, um repositório de experiências que deveriam ser fonte de inspiração para o traçado da política econômica necessária. Veríamos, então, que o Brasil não tem problemas. Só tem soluções adiadas.
As soluções políticas de ontem são os problemas econômicos de hoje.

“Fonte de energia”

Por Vicente Golfeto em 06/08/2018

A pergunta decisiva que se faz em economia é quanto custa. E é essa a pergunta que atualmente fazemos, buscando uma resposta a respeito de qual fonte de energia, na sequência, substituirá o petróleo, hidrocarboneto que veio substituir o carvão, passando a ser a primeira fonte de energia a suprir as necessidades do mercado. Antes do carvão – sabe-se através da história – o domínio era da lenha.
No atual momento histórico – em que há transição do petróleo para a próxima energia – o cálculo de custo sofrerá mudança significativa. Tradicionalmente, este cálculo era sempre na linha de se considerar o custo econômico apenas. Somente alguns iluminados anteviam a necessidade de se pensar em custo ecológico. Agora – por imposição do meio-ambiente – a verdade é que, somando-se a este custo, deve-se considerar também o custo ambiental. A soma de ambos – custo econômico e custo ambiental – é que deve determinar qual será o sucessor do petróleo, caso se tenha apenas uma modalidade dentre as que geram energia limpa. Solar, biomassa e eólica são algumas das fontes de energia limpa que têm possibilidade de vencer esta competição. E a decisão precisa ser rápida porque os prazos não são políticos e nem eleitorais: são impostos pela natureza. Que costuma não esperar.
Para a solução – ou, pelo menos, para se ter um equacionamento do problema – é preciso que se tenha uma definição da matriz energética nacional onde deverão se situar tanto as energias limpas como as não limpas. E – bem assim – o tempo durante o qual elas serão utilizadas. Por quanto tempo ainda os hidrocarbonetos agredirão a natureza sem que possamos reagir à altura?

“Segurança”

Por Vicente Golfeto em 31/07/2018

Tenho procurado entender pelo menos a introdução do assunto relativo à segurança e – especificamente, embora à distância – o que tem ocorrido há tempo com nosso querido Rio de Janeiro. Por isso, estou chegando a conclusão de que não estamos diante de algo que se assemelha ao que denominamos comumente de segurança pública. Parece muito mais – tenho a impressão – alguma coisa inerente à segurança nacional. Uma coisa é segurança pública. Outra coisa – bem diferente – é segurança nacional. Se as armas – exército, sobretudo – não tiverem sucesso com a intervenção que está se processando, como fica a situação do país? Segurança pública é tarefa principalmente das policias estaduais, tanto a civil como a militar. Já segurança nacional é responsabilidade própria das armas: exército, marinha e aeronáutica. Estamos vendo que o problema todo afigura-se mais grave do que se supunha principalmente pela quantidade de comunidades que o crime organizado já controla, pelo total de espaço territorial dominado pelas milícias – que disputam espaço com os traficantes – e pela qualidade e a força das armas, num paralelo que se faça entre o poder de fogo do crime e do Estado.
Além deste quadro inicial – que nos chega através dos meios de comunicação – vemos, comparando, não apenas a situação de tempos atrás com a situação atual. A atual nos remete à situação financeira e de segurança de outras unidades da federação que inclusive chegaram a pensar em solicitar que a União – através de atitude semelhante do presidente da república – procedesse intervenção federal, também.
Parece que o Brasil tem muita coisa que aprender com a Colômbia.

“Mobilidade”

Por Vicente Golfeto em 23/07/2018

O plano diretor estratégico é imposição do Estatuto das Cidades a todo município que ultrapassa vinte mil habitantes. Uma das peças importantes é a da mobilidade urbana. Aliás, esta peça é tão importante que tem lei federal à parte da lei que deu corpo ao Estatuto das Cidades. De sua análise, podemos inferir que mobilidade urbana não é apenas uma questão de trânsito. É muito mais do que isto. Mobilidade urbana é a forma de ocupar e de usar o espaço público. Então, a ocupação – antes do uso, portanto – envolve a primeira peça do plano diretor. Estamos falando da lei de uso e ocupação do solo.
A partir desta constatação, vem-nos à mente o rigor que deve anteceder a análise e a aprovação dos projetos referentes a condomínios fechados. Que nada mais são do que a privatização do espaço público, reduzindo-o. Pelo que sabemos, são poucas as cidades que articulam o uso e a ocupação do solo – a peça que trata do assunto é a de loteamento – com a peça que disciplina a mobilidade urbana. Esta deve começar tendo o pedestre como o protagonista mais importante, preocupação que, na verdade, nunca foi devidamente considerada. Daí pode-se explicar, pelo menos, parte dos problemas das cidades nos dias de hoje. Mas eles podem ser entendidos a partir do que Fustel de Coulanges, na sua obra clássica A Cidade Antiga, focalizou claramente. Lewis Munford, mais recentemente, sintetizou o que era a cidade do passado comparando-a com a que estamos construindo nos dias de hoje, através do epigrama: “antigamente, a cidade era um mundo. Hoje, o mundo é uma cidade”. É a antevisão do processo de metropolização que começa com a conurbação.

“Revoluções”

Por Vicente Golfeto em 16/07/2018

Não eram poucos os adolescentes da minha geração que – ainda estudantes – já gostavam das atividades políticas e por elas se interessavam, a começar pela cidade em que morávamos. Intuíamos então, que Leon Tolstoi, escritor russo, já nos oferecia o caminho correto a ser seguido porque ele nos mostrava o todo numa parte apenas. Ele dizia: “pinta a tua aldeia e serás universal”. Isto não quer dizer que todo conceito impregnado em nossa mente estava correto. Pelo contrário. Os conservadores – neste grupo incluídos não poucos integralistas, a começar pelo processualista Alfredo Buzaid – insistiam que os comunistas queriam subverter a ordem estabelecida sepultando a moral social. Prestando atenção nos fatos – eu e muitos – concluímos que os comunistas, no que toca aos costumes, chegavam a ser tão conservadores quanto os intregalistas e os membros do que era considerado de direita.
O motor da desconstrução dos valores racionais – vimos isto algum tempo depois – foi o capitalismo moderno mais do que o de estado. Karl Marx dizia que o capitalismo era a revolução permanente. E tal assertiva é tão correta que uma empresa que não inova o tempo todo está fadada a morrer. Joseph Schumpeter, austríaco, sintetiza o que denomina de destruição criadora, fato que confirma quase um século depois, o que Marx disse no século dezenove. A destruição atinge apenas os produtos, na vertente das mercadorias. Destrói os costumes quando estes permitem aflorar os valores, estudados na axiologia, parte da filosofia. O relax – relaxamento – dos costumes fica evidente. É a confluência de Marx com Wilhelm Reich: “não há revolução sem liberação sexual”.

“Preços nos postos”

Por Vicente Golfeto em 10/07/2018

De vez em quando somos assustados com notícia de aumento dos preços de derivados de petróleo. Embora não seja derivado de petróleo, o álcool – que chamamos também de etanol – igualmente assusta. E incomoda.
Cada litro de gasolina ou de óleo diesel vendido em nosso país tem seu preço composto por cinco parcelas distintas. São elas: o preço da aquisição do produto; os tributos; a logística (nesta parcela são incluídos todos os fretes, a armazenagem e o manuseio); a remuneração dos distribuidores e a remuneração dos revendedores. O custo do petróleo é de 35% do total e os tributos são 50% também do total. A margem das distribuidoras, somada à margem das revendas, perfazem os restantes 15%. Verifica-se – desta maneira e de pronto – que a diferença que se nota na ponta do preço final, cobrado pelos postos, não pode ser muito diferente de uma unidade de venda para outra. Quando isto ocorre, é interessante e oportuno que o consumidor tome providências e acione, se tiver interesse, inclusive os órgãos de defesa do consumidor e até o ministério público indo, se tiver condições, às causas primeiras que podem se localizar na logística e na remuneração dos distribuidores. É bom lembrarmos de que George Washington dizia – na qualidade de primeiro presidente da república dos Estados Unidos – que “um homem que não defende os seus direitos não os merece”.
Direito é algo para ser exercitado. Se alguém tem um direito e não o exercita, é porque ele é – no mínimo – indigno dele. É a partir de constatações como esta que podemos saber se a cidadania – consciência de direitos e de deveres – está para nascer ou se no Brasil é natimorta.

“Estado e Justiça”

Por Vicente Golfeto em 02/07/2018

Sociologia, em última instância, não se caracteriza apenas como sendo a crítica da política mas – até e sobretudo – como a crítica das instituições políticas. É por isso que – pesquisas têm comprovado abundantemente – quando a sociedade acerta contas com uma pessoa, através do Judiciário, este fato não reduz a criminalidade. E reduz tanto menos quanto mais lento for o tempo do Judiciário. Como já se disse, “justiça tardia é injustiça absoluta”. Já quando o justiçamento – não podemos falar em justiça – é feito pela bandidagem, há redução da criminalidade porque a punição é imediata.
No âmbito da polícia civil, não são poucos os crimes que não são solucionados. Continuam por muito tempo inconclusos, aumentando a sensação de impunidade, que alimenta a criminalidade. É que impunidade – sabemos – é o crime continuado.
Porque tradicionalmente o Estado brasileiro quer estar presente em tudo, ele acaba não fazendo corretamente nada. Qualquer reforma que se pretenda seja feita – por necessidade absoluta – no Brasil de hoje, ela deve começar pelo Estado, enorme e ineficiente. A metáfora que me vem à mente no presente momento é a da pessoa que se empanturra com leitura de diversas obras mas, na verdade, nunca se nutre de conhecimento algum. Quem se enche de todo tipo de comida, no final come mas não se alimenta. Assim é nosso estado federal que comete injustiças apesar de lhe competir a gestão da Justiça.
As facções do crime organizado – e o crime é tanto mais organizado quanto mais desorganizado for o Estado – tem a plena consciência que o Estado não tem: a de que o domínio da cadeia também significa o domínio das ruas.

“Reformas”

Por Vicente Golfeto em 25/06/2018

O Brasil – os historiadores sabem mais do que nós – não é um país revolucionário. É um país – aliás, tem sido sempre – reformista. E as reformas – quando ocorrem – acontecem sempre e a partir de trincos que são notados em suas elites dirigentes, nunca na base da demografia. Reformas podem mudar governo. Revoluções mudam regime.
Uma das causas da opção por reforma foi detectada por Joaquim Nabuco, ainda no tempo do segundo império, através do seguinte epigrama: “o brasileiro costuma perdoar aqueles que se parecem com ele”. Outra causa é que uma das marcas que distingue nossas elites é que elas são conciliadoras por excelência. Conciliar é termo derivado de cílios que são proteção de nossos olhos e que também formam a mata ciliar. Ela protege os cursos d’água. Portanto, as elites – mesmo quando estão em choque entre seus segmentos – protegem-se reciprocamente.
Atualmente – já de modo bem tardio – o Brasil está carecendo de reformas, tanto macroeconômicas como microeconômicas. Para ficar claro, vamos elencar quais reformas macroeconômicas são necessárias. São elas a trabalhista – já realizada – a tributária e a previdenciária. Esta última – a previdenciária – parece que foi adiada para o próximo governo. A tributária é a mais perigosa porque – historicamente está provado – toda vez que o Brasil implementou uma reforma tributária, ele a fez para aumentar a carga e a sobrecarga fiscais. Já as reformas microeconômicas são as que reduzem os spreads bancários, baixem os riscos regulatórios e facilitem o uso de capitais privados na infraestrutura econômica pelos três níveis de governo, a partir dos governos locais.

“Democracia”

Por Vicente Golfeto em 20/06/2018

O Brasil está aperfeiçoando, cada vez mais, sua democracia conforme se tem dito? Temos, é verdade, instituições democráticas. Neste particular, nossas instituições democráticas são tanto as formais quanto as informais. Uma vez encetadas, as instituições delimitam o campo de escolha das organizações e incentivam-nas numa certa direção, que não tem sido necessariamente eficiente para a economia, pelo menos ao longo das últimas gerações. Mas, se por um lado nós temos instituições democráticas, nós ainda não temos – e estamos longe disto – uma sociedade que possa ser considerada democrática.
Democracia se faz ouvindo respeitosamente o argumento do outro, este considerado intelocutor. Não adianta todos poderem falar se ninguém os ouve. Ou se ninguém quer ouví-los. É que democracia – nós, muitas vezes, nos esquecemos disto, lamentavelmente – baseia-se muito mais em saber ouvir do que em saber falar. Aliás, saber ouvir é até muito mais difícil do que saber falar. Pelo menos para muitos.
Certa vez, o cardeal-arcebispo de Paris recebeu reclamação de padres da igreja de Notre Dame. É que somente o frei Vincent de Paul recebia pedidos de católicos e de católicas que desejavam se confessar. O confessionário dele ficava lotado e até com fila, enquanto os outros confessionários ficavam vazios não havendo confessores interessados. O cardeal-arcebispo notou que – na reclamação – havia ponta de inveja. E perguntou ao frei Vicente de Paulo qual a razão que movia os católicos. Humildemente o frade, pensando, lhe respondeu: “é que eu sei ouvir”. Pronto. As pessoas querem desabafar. É o exercício da prática democrática.

“Passado”

Por Vicente Golfeto em 11/06/2018

A visão que temos do passado transforma-se na medida em que nós também nos transformamos. Para nos ajudar no entendimento deste assunto – que é móvel, portanto – precisamos de referências fixas. Uma delas é o conjunto de museus, termo do português que é originário do grego – musa – que significa inspiração. Podemos, por exemplo, contar a história das ciências através dos instrumentos científicos utilizados. Certa vez, Miguel de Unamuno – então reitor da universidade de Salamanca – fez a seguinte exigência à literatura: “encontrar o universal nas entranhas do local e, no circunscrito e no limitado, o que é eterno”. Abre-se, então e de maneira nítida, a importância da micro-história que deve ser inserida no campo amplo da história maior – a macro-história – que é a ciência que estuda o tempo passado. Vê-se então que os museus conservam a memória cultural da sociedade em inúmeras esferas, principalmente na artística mas não apenas nela. Entende-se, então, a razão pela qual um dos propósitos da vida é viver-se o presente construindo o futuro.
A partir daí – e de imediato – veio-me à mente um fato incontestável: como Ribeirão Preto tem tratado mal seus museus! Lembro-me do MIS – Museu de Imagem e Som – e do museu do Café, se não quisermos arrolar mais o MARP, Museu de Artes de Ribeirão Preto, que funciona onde foi instalada, em passado não tão distante, a Câmara Municipal. Sua importância no rol dos equipamentos culturais é decisivo para nós conhecermos ângulos da história da cidade. Santo Agostinho vem-me, então, em meu socorro quando diz que “a sede da alma está na memória”. De uma cidade e de um povo também.