“Rosa e a cidade”

Por Vicente Golfeto em 22/05/2017

Em tempo de crise como a que vivemos atualmente – marcada por perigosa recessão – podemos notar realidade escondida através de combinação do mercado de locação com o mercado de construção de edifícios. É preciso estar atento porque a realidade desta combinação esconde mais do que mostra. E, como dizia Guimarães Rosa, “Deus está nos detalhes”. Imóveis vazios – tanto residenciais como comerciais embora mais estes – indicam, quando concentrados, regiões da cidade que estão decadentes. Tradicionais corredores comerciais têm muitos imóveis à espera de locação há muito tempo. E – como incentivo – locadores oferecem bonificação de aluguéis em vez de cobrarem luva, como sempre foi praxe. Outros corredores, entretanto – caso da avenida Pedro I, para exemplificarmos – exibem sua dinâmica com poucos imóveis comerciais vazios. Mesmo em plena crise.
Já o setor da construção – que sofre crise que nós conhecemos e sentimos – exibe a dinâmica de continuar aprovando planta para construção de edifícios em setores que têm a marca de continuarem com terrenos tão valorizados que, para viabilizarem a formação de condominio, têm que verticalizar a construção para que o preço da unidade caiba no bolso do adquirente. Por outro lado, há setores inteiros em que a oferta de unidades vazias se acentua não sendo difícil encontrar edifícios inteiros vagos. Outrora eram disputados. Hoje não precisam nem pagar aluguel mas somente o condomínio, para facilitar o encontro de interessados.
O urbanismo tem segredos que, para serem desvendados, exigem muita atenção e acuidade de análise. A crise atual – por exemplo – é a oportunidade perfeita.

“Sinais do tempo”

Por Vicente Golfeto em 18/05/2017

É preciso decodificar os sinais do tempo. Enquanto a História nos manda ter este cuidado, o texto sagrado – a Bíblia – praticamente nos impõe. É preciso, igualmente, estar atento ao que representam, na atualidade, os ecos do passado. Vamos a um exemplo. Depois de Atenas ter condenado Sócrates à morte, obrigando-o a beber veneno, cicuta; depois da derrota dos atenienses para Esparta – lembram-se da guerra do Peloponeso? – Platão considerou a democracia um regime degenerado porque entrega a cidade, a polis, às paixões irracionais do povo. A polis, como consequência, precisa – através de seus dirigentes – saber equilibrar as paixões do povo com os interesses das elites. O que não é absolutamente nada fácil. Pelo contrário.
Pessoas em quantidade variável – em certos momentos em maior quantidade e, em certos momentos, em menor quantidade – ecoam, não raras vezes, o pensamento conclusivo de Platão após os fatos acima descritos. E condenam a democracia praticamente em termos definitivos. Não se pode dizer, entretanto, que elas estejam em má companhia. Estão – em meu modesto entendimento – erradas. Mas não em termos conclusivos. Definitivos. Foi Anízio Teixeira quem enfatizou, de modo oportuno, que “democracia é essencialmente educação”. E educação entendida tanto em termos de transmissão de valores como de transmissão de conhecimento, junto com aprimoramento dos sentidos. Estabelece-se uma sequência segundo a qual ter-se-á tanto melhor nível de democracia quanto melhor for o nível de educação do eleitorado. Portanto, do povo. E aí está o primeiro problema político. Outros existem que analisaremos em oportunidade futura.

“Avanços”

Por Vicente Golfeto em 15/05/2017

A História Econômica – como área maior de todo conhecimento da ciência da escassez – tem como fração menor a História do Pensamento Econômico. Quando queremos rastrear o caminho do desenvolvimento, que nos trouxe ao estágio atual, temos que percorrer o itinerário a partir do passado. Provérbio chinês diz: “toda semente do presente encontra raízes no passado”. O engenho de pinga, de rapadura e de açúcar batido virou usina. Que também estava em estágio mais antigo do que a atual. A olaria do passado transformou-se em cerâmica enquanto as forjas e as fundições tornaram-se as oficinas mecânicas de hoje. Que também, como aconteceu com as mencionadas anteriormente, evoluíram com a incorporação de novas tecnologias.
Estas alterações, notadas na indústria de uma maneira geral, continuam ocorrendo também – às vezes, de maneira mais acentuada – na agricultura, na pecuária, no comércio e em diversos segmentos do amplo leque dos serviços. Começa haver dinâmica, com velocidade quase similar, no setor de ensino. Mas no início foi muito lentamente. Nós estamos falando de realidades diferentes que, por conseguinte, têm que ser tratadas de maneira diferente. Mas esta diferença não pode fazer das salas de aula um local que apenas homenageia o passado, enquecendo-se de adaptá-las aos tempos de hoje. Afinal – como eu já disse há algum tempo – a escola parece estar no século XIX, os programas das disciplinas estão com pés no século XX e os alunos já estão no século XXI.
Seria bem útil lembrarmo-nos do que falou o filósofo Hegel: “toda nova tecnologia é uma nova filosofia”. Que talvez esteja faltando na escola do século XXI.

“Simplicidade”

Por Vicente Golfeto em 11/05/2017

Tenho procurado refletir sobre o que é ser simples e, ao mesmo tempo, o que é ter senso de humor. A verdadeira simplicidade é das pessoas mais profundas. Já o melhor senso de humor é de quem é verdadeiramente bem sério. Humor – quando certas pessoas têm – é prova da graça de Deus. Graça, em grego, é caris, termo incorporado a vocábulos da lingua portuguesa como carisma – dom da graça divina, conforme dizem os melhores dicionários – e eucaristia, o veículo da graça. Graça, em minha opinião, é a soma de amor com humor. E é estigma dos escolhidos. A desafetação intelectual, por exemplo, é de poucos porque é própria dos que sabem perfeitamente bem do que estão falando.

Depois de se chegar ou de já se ter nascido marcado pela simplicidade, o passo deve ser atingir-se a humildade. Ela é erigida – não por acaso – como a primeira das bem-aventuranças, conforme evangelho de são Mateus: “bem aventurados os humildes porque deles é o reino dos céus.” Em grego, bem-aventurado é makarius que também significa feliz. Humildade é termo que vem do latim, humus, que quer dizer terra boa, terra fértil. Nela pode-se lançar semente que, fatalmente, dará frutos. Cheguei à etimologia para ficar claro que, de humus – além de humildade – vem humor. O melhor humor não é aquele que nos faz rir. É aquele que nos faz pensar.

Mas, voltando ao começo, é necessário que nos lembremos de que é mister muito trabalho interior para que nos tornemos simples. Simplicidade – quanto não é algo inato, genético, que surge como dom do Criador – é algo que só podemos atingir com muito esforço e muita renúncia. É o caminho da profundidade a que me referi.

“Lideranças”

Por Vicente Golfeto em 08/05/2017

Segundo Políbio – que se inspirou na República de Platão e na Política de Aristóteles – aristocracia, monarquia e democracia podem ser corrompidas a partir do próprio povo. E geram, então, tirania, oligarquia e demagogia, respectivamente. No nosso caso, estamos acompanhando o desgaste que se verifica tanto dos políticos quanto dos partidos políticos que têm função institucional de aproximar a sociedade civil – o povo – da sociedade política, do estado.
Embora saibamos que harmonia, em política, nasce do atrito – sempre mais comum do que normal – estamos notando uma perigosa volta ao passado. Que começou no seio da sociedade e está chegando ao aparelho do estado. Este deve ser laico – como em toda democracia que se preze – para que a sociedade possa, livremente, ter a religião que quiser. As igrejas, entretanto – que já são supermercados de esperança – estão virando partidos políticos, uns claramente, outros não declaradamente. Como consequência, não apenas se tem bancada de deputados que se autointitulam de determinados credos mas que, em cada pleito que passa, tem número em constante crescimento.
O Brasil, historicamente, desligou a Igreja Católica – na época, com a república de 1 889 – através da constituição de 1 891. Mas, pelo que se tem notado, estamos fazendo o caminho de volta num momento em que a sociedade pretende somar esforços para aprimorar tanto sua frágil democracia como sua incipiente república. Falta de líderes expressivos seria a causa principal. Afinal, líder é sempre aquele que aponta caminhos e está faltando um que conscientize a população sobre a importância de se atingir os objetivos colimados.

“Cock tail é rabo de galo, uma bebida”

Por Vicente Golfeto em 02/05/2017

No idioma inglês, cock é galo. E tail é rabo. A junção de ambas palavras produz coquetel. No caso da bebida – que existe em muitos países – é composta de mistura de bebidas diferentes, que varia de país para país. Temos nosso rabo-de-galo.
Junto desta introdução, é preciso dizer que inovação é a invenção que o mercado aceita. Pode ser também – além de uma mercadoria – um processo, um modo de fazer marketing ou uma etapa na busca de produtividade. A cultura da inovação – que caracteriza o Vale do Silício – é um coquetel que une competição e colaboração entre as empresas, interação com universidades e capitalistas dispostos a assumir riscos, valorizando idéias que desafiam o status quo. Fica claro que esta soma de componentes do coquetel não é facil de se encontrar. Mas ela representa um fato que, com a constância que se conhece pelo farto noticiário inserido na mídia, uma das razões de os Estados Unidos, mesmo tendo sua liderança ameaçada, permanecer em primeiro lugar no mundo e, inclusive, começando a ganhar distância do segundo lugar ocupado pela China.
Uma das pesquisas que tem sido muito comentada nos principais centro de pensamento e de inovação no mundo é a que busca começar – pelo menos – a palmilhar o caminho do que se denomina de medicina de precisão. Ela tem como ponto de partido a identificação do mapa genético do ser humano, conforme rapidamente já comentei neste espaço. A partir daí, a medicação a ser aplicada – conhecido o diagnóstico do paciente – deve ser individualizada, conforme as características genéticas da pessoa.
O homem continua querendo imitar Prometeu, tentando conhecer os segredos dos deuses.

“A competição desperta o que há de melhor nos produtos e o que há de pior nas pessoas”.

Por Vicente Golfeto em 24/04/2017

Eu estava meditando sobre afirmação de George Orwell – afirmação, aliás, muito polêmica e também muito contestada – sobre a qual “quem controla o passado, controla o futuro. E quem controla o presente também controla o passado”. Então, detive-me no fato de estar pensando na variável, extremamente movediça, do tempo. Em algumas empresas – aliás – a visão de que, a cultura empresarial é conservar valores do passado, está sendo contestada. Hoje, os negócios devem ser orientados para o futuro. A cultura de resultados – a que é majoritariamente vitoriosa – é um conjunto de elementos através dos quais se define os comportamentos para se obter as metas propostas. Meta é palavra grega que quer dizer além de. Neste contexto, é útil entender a importância da compliance – respeito a lei e a regras éticas – porque avulta inclusive para se desmentir a afirmação segundo a qual “a competição desperta o que há de melhor nos produtos e o que há de pior nas pessoas”.
A meritocracia é um modelo de resultados nos termos acima relacionados. Mas, sozinha, ela não é suficiente, embora seja necessária. É preciso também pensar nas aspirações das pessoas em um sentido mais amplo do que simplesmente na boa remuneração. A meritocracia traz bom desempenho e a gestão de pessoas traz comprometimento com a empresa.
Os consumidores chegam a perceber – pelo menos os mais atentos – quando a empresa cultiva bons valores e mira o futuro. O nome, então, da ética é expresso no binômio qualidade e atendimento. A qualidade do produto vendido e a maneira como o consumidor é atendido são sempre convites para sua fidelização. Quase uma certeza disso.

“Atrás de toda grande fortuna há, pelo menos, um crime”

Por Vicente Golfeto em 17/04/2017

Riqueza econômica e financeira deveria ser a maneira como a sociedade premia inovação, talento e esforço. Mas nem sempre é assim. Grandes riquezas podem ser fruto de corrupção, de monopólios, de outros crimes contra a economia popular e até – como sói acontecer – de notáveis ilícitos penais. Também – como tem sido comum – mais graças ao estado do que ao mercado. Vendo – ainda que apenas um ângulo destas anomalias – W. Goethe, filósofo alemão, sintetizou com felicidade que: “atrás de toda grande fortuna há, pelo menos, um crime”. Ou um pecado, para dilargarmos o âmbito de análise que se faz.
Queiramos ou não, em muitos dos casos relacionados ao enriquecimento há – no mínimo – uma omissão vergonhosa dos segmentos mais organizados da sociedade, mesmo quando não são beneficiados. Então, nós temos mais uma oportunidade de confirmar que democracia não é regime apenas de maioria. É sobretudo – na verdade – regime de minorias organizadas. Que detêm o poder ainda que, aparentemente, nem sempre detenham o governo. Por isso, assim como existem cartéis do crime, é necessário formar cartéis de integridade que reúnam aqueles que tenham um plano de bem comum para mobilizar a população e obter o seu respaldo. É inaceitável usar o poder para conquistar o ter ou usar o ter para conquistar o poder. É o método de usar o dinheiro e – até gastá-lo – para chegar ao poder. E ganhar muito dinheiro depois de tê-lo conquistado. Este é, em boa parte, o itinerário da corrupção. Que os latino americanos tanto conhecem.
Na mitologia romana, Fortuna é a sorte. Na nossa cultura, fortuna é também a sorte mas aparece sempre com a cara do dinheiro.

“A loucura de hoje é a razão do futuro”

Por Vicente Golfeto em 10/04/2017

Quando me debrucei sobre biografia de Albert Einstein, passei ter certeza de que existe uma dimensão espiritual na ciência na medida em que ela induz o estudioso ter relação mais íntima e mais profunda com a natureza. Associando esta conclusão – atrevida de minha parte – com leitura de obras de Carl Sagan, anotei, à margem do livro, pensamento em que ele afirma que “ciência não é um conjunto de conhecimentos”, como invariavelmente se pensa, mas “é um modo de pensar”.
É por isso que, mais do que nunca, tenho absoluta certeza de que nem toda verdade é para todos os ouvidos. Porque a loucura de hoje é – quase sempre – a razão do futuro. Afinal, a verdade também é filha do tempo.
Junto com estas deduções – sempre provisórias – voltei ao pai da medicina, “Hipócrates”, aquele que começou a demonstrar que as moléstias são problemas do corpo e não podem ser entendidas como castigo de Deus, como a religião sempre fez pensar. Apontando para a individualidade, o pai da medicina enuncia postulado da ciência médica: “não há doenças. Há doentes”. É nesta direção – pelo que tenho notado – que caminha a medicina de precisão, segundo informes que nos chegam de pesquisadores do Vale do Silício. Medicina de precisão nada mais é do que a inferência inevitável de se produzir remédios para cada indivíduo através de seu código genético. A doença é conforme o doente. Para tanto, é preciso haver conformidade com o remédio. Mas também na medicação, a parte é mais importante do que o todo. É como acontece na moda. Não se faz roupa em série. Esta é da era da revolução industrial. A medicação também deve ser sob medida, individualizada.

O iter criminis saiu da transpiração e foi para a inspiração

Por Vicente Golfeto em 03/04/2017

O caminho do crime no ser humano – o conhecido iter criminis, estudado no âmbito do direito penal – deslocou-se das mãos para a cabeça, em que está localizado como útero de onde nasce em termos principais, mas não únicos. Em linguagem comparativa, ele foi da transpiração para a inspiração, sendo a transformação ocorrida mais atribuível à força dos neurônios – nos dias de hoje – do que à força física, como era no passado, embora os dois modos existam.
Numa sociedade marcada por constantes mudanças – como é aquela em que nós vivemos nos dias de hoje – governantes locais devem gerenciar as tranformações para não perderem o bonde das mudanças que, afinal, ocorrem. Uma destas mudanças nos mostra que o delinquente do futuro é – e tem como singular modelo – o estelionatário de hoje. Stelio, em latim, quer dizer lagarto. O estelionatário é praticante de delito que tem comportamento de lagarto, enganando a vítima. Para tanto, ele não se vale de força física mas de expedientes baseados em atitudes que o tornam – enquanto criminoso – quem se utiliza muito mais de neurônios do que de músculos. Como sói ser o crime predominante de hoje, pelo menos em sua maioria. Ou que está tendente a ser.
Esta realidade evidencia a importância da informação de qualidade e prévia para se combater o crime. Quanto melhor for a qualidade da informação que os órgãos de segurança têm, menos a polícia mata e menos policiais morrem. É neste patamar que devem ser localizadas as ações dos órgãos de segurança nos dias de hoje, sob pena de o estado tornar-se refém das quadrilhas – sobretudo as do crime organizado – para sua completa desmoralização.