“Risco e incerteza”

Por Vicente Golfeto em 15/10/2018

Iniciar o próprio negócio envolve incertezas e riscos. Que são coisas diferentes. A incerteza é própria do mercado cujo deus – a mitologia romana já nos ensinava – é Mercúrio. Ao mesmo tempo, o âmbito dos riscos é inerente ao mercado, à concorrência, mas também há diferença. Quando se trata de paralelo que se faça com as incertezas, concluímos que os riscos podem ser planejados e, como tal, minimizados. Conhecer o mercado – como se costuma dizer na perspectiva de concorrentes, clientes e até fornecedores – importa levantar estas realidades, antes de se iniciar um negócio. Nenhum planejamento é capaz, entretanto, de blindar a iniciativa cem por cento dos riscos porque há sempre o território do imprevisível, do imponderável.
De qualquer forma, momentos em que a economia é marcada – como nos dias atuais – por profunda recessão e claro desemprego de mão-de-obra, por necessidade e por vocação há aumento da quantidade de pessoas que iniciam o próprio negócio. Mas a diferença é exatamente a incluída no binômio mencionado, isto é, por vocação e por necessidade. Por esta – muitas vezes valendo-se do patrimônio do FGTS amealhado quando empregado – a pessoa inicia o próprio negócio no desespero pessoal. No fundo, não sendo empreendedor, ela quer criar um emprego e não uma empresa. Emprego para ela mesma. E não vai bem na iniciativa, frustrando-se. Mas o que é talentoso inicia, por vocação. E acaba sendo um empreendedor vitorioso. A questão então é quando o desempregado quer iniciar o próprio negócio. Antes, ele precisa identificar se tem vocação. E o começo é sempre aferir se ele tem prazer de correr risco. Este, raras pessoas têm.

“Energia”

Por Vicente Golfeto em 08/10/2018

Não estou sendo pessimista. Estou extraindo conclusão que também pode estar equivocada. Mas – é minha opinião – não há nenhuma indicação de que, mesmo no longo prazo, a matriz energética mundial dê um peso relevante a qualquer energia alternativa. Energia solar, energia eólica, bioenergia e energia nuclear – todas elas – ajudam. Mas nenhuma delas – nem um conjunto, uma combinação de todas – parece capaz de assumir a função que hoje é do petróleo. A começar pelo preço dos derivados do hidrocarboneto, com reflexos diretos no custo da produção. Depois da lenha, da tração animal e do carvão, formou-se experiência segundo a qual a decisão final é o custo. Este – entretanto e no caso – começa a ser analisado em dois campos. São eles o custo econômico – onde o petróleo é imbatível – e o custo ambiental, onde o petróleo e derivados são realmente derrotados.
Os biocombustíveis são a aposta firme dos ambientalistas porque eles representam o uso indireto da energia solar incorporada nas plantas. A tecnologia em constante evolução – e tecnologia é sempre ciência aplicada – pode viabilizar os biocombustíveis. Mas aí, mais na condição de quem está torcendo para que tal hipótese dê certo do que na condição de quem crê que isto seja realmente viável do ponto de vista de mercado. Os biocombustíveis – do ângulo de análise dos custos ambientais – já estão na frente do petróleo e de seus derivados há muito tempo. Mas no que tange aos custos econômicos, a distância continua a perder de vista. Talvez, para não excluir a hipótese, haja concretização no muito longo prazo. Vale dizer: a perder de vista porque “ao homem nada é impossível”.

“Esquizofrenia”

Por Vicente Golfeto em 01/10/2018

O Brasil vive uma esquizofrenia, um trinco que marca sua alma. É que de um lado, rejeitamos pagar mais tributos a um poder estatal ineficiente. De outro, insistimos que o mesmo Estado deve resolver todos nossos problemas, dos maiores – os conformes sua razão-de-ser – aos menores e mais insignificantes. Esta esquizofrenia foi exposta, mais uma vez, na recente greve dos caminhoneiros. Só que – em vez de pelo menos ser equacionada – não apenas não foi resolvida como foi agravada.
Na transição da presidência de Dilma para Temer, num balanço superficial – mas que quantificou os problemas da Petrobrás, um legado que Pedro Parente começou a resolver com trabalho de ourives – o binômio incompetência e corrupção veio nitidamente à tona. Avaliou-se que Parente herdara a gestão de uma empresa estatal que sofrera prejuízos na ordem de 44 bilhões de reais, sendo cerca de 40 bilhões debitados na conta da incompetência e quatro bilhões de reais provenientes de corrupção. Fora do âmbito da estatal, a grande crise que o país sofre – que se agrava em vez de se atenuar como ocorreu com o controle da inflação, da situação relativamente tranquila das contas externas – é a fiscal.
Pois bem, a solução encontrada para se por fim à greve dos caminhoneiros foi – como sempre – mandar a conta para o contribuinte, o eterno escravo que, como já dissemos, está – mais do que ninguém e do que nunca – precisando de uma nova lei Áurea. Continuamos mantendo o capitalismo de estado e refugando a verdadeira saída, que é um flexível capitalismo onde a competição seja o diferencial situado em seu centro. Competição, sabe-se, é coisa para competente.

“Projeção e meta”

Por Vicente Golfeto em 24/09/2018

Está comprovado o seguinte fato: o Brasil está transitando – até com relativa rapidez – de um regime baseado em catadupas de intervenções estatais, marca e característica do capitalismo de Estado, para a flexibilidade natural que o capitalismo de mercado permite e enseja. Há uma diferença singular e sutil – no âmbito das ciências econômicas – entre meta e projeção. A primeira incorpora a fatal camisa-de-força – já obsoleta – do planejamento central. O Plano de Metas do governo do presidente Juscelino Kubitscheck teve a chancela deste sinete mas acabou virando um híbrido de peça conservadora com pitadas de autoritarismo. A segunda evidencia que, de modo geral, um plano – na economia de mercado em busca da qual o Brasil está se dirigindo – é sempre um exercício mirando objetivos, tanto macroeconômicos como microeconômicos. Nada, portanto, de camisa-de-força dos planejamentos centrais que as medidas autoritárias estabelecem como metas a se atingir. Projeção – portanto e assim – não é meta.
Esta realidade – porto ao qual o Brasil pretende chegar com a implantação das reformas, iniciadas com a trabalhista e que devem ter sequência, no próximo governo – fará do mercado brasileiro uma economia cada vez mais puxada pelo amplo setor de serviços. Este tem, como característica principal, o uso intensivo de mão-de-obra. Assim, os governantes podem ser mais tolerantes com uma possível desaceleração do PIB – quando ocorre – conforme é próprio da instabilidade do mercado. Esta instabilidade acentua-se cada vez mais na medida em que as fronteiras políticas ficam mais borradas e os mercados se unificam com maior velocidade.

“Leituras e crimes”

Por Vicente Golfeto em 17/09/2018

Já lhes disse que primeiro nós lemos os livros. A partir já da primeira releitura, os livros começam a nos ler. E aí, então, já nos deparamos com o que nos dizia Rainer Maria Rilke: “dê um mergulho dentro de você mesmo. A ironia não chega até lá”.
Quando termino de ler um livro, coloco a data que mostra as anotações que fiz no texto. É assim que as comparo com as leituras que faço em outras oportunidades, cada uma com a data de encerramento. É o mergulho de que nos fala Rilke. Um dos livros sobre o qual mais refleti foi o de José Ingenieros, O Homem Medíocre, seguido da biografia de Joseph Fouché, escrita por Stefan Zweig. Mas o objeto central deste texto assenta-se em Eros e Civilização, de Herbert Marcuse, um dos ideólogos de maio de 1 968, na França. Somente o li uma vez. Para mim, foi o suficiente. As elucubrações de Herbert de Marcuse – inseridas na citada obra – mostravam a criminalidade como uma variante da luta de classes. Como muitos a enxergam até hoje. No entanto, o crime é – na minha opinião e cada vez mais – corretamente visto como expressão típica da barbárie humana. Não tem nada de luta de classes, conforme pensamento de Karl Marx que, no entanto – em outro contexto – sintetizou que “a violência é a parteira da História”.
O crime sofisticou-se, constituiu-se em multinacional e exige que o setor de segurança – que compete ao Estado garantir – igualmente se organize para combatê-lo eficazmente. O compartilhamento de informações e o uso mais constante de inteligência são dois ingredientes indispensáveis para coibir que um problema de segurança pública não resvale para o âmbito da segurança nacional.

“Gostar de ler”

Por Vicente Golfeto em 11/09/2018

Foi lembrando-me da realização da Feira do Livro, na segunda quinzena do mês de maio deste ano, que procurei inspiração para este texto. Gostar de ler tem muito a ver com gostar de aprender, gostar de estudar. Aliás, o equívoco já começava quando se dizia que sempre foi importante desenvolver o hábito da leitura enquanto se está cursando o ginásio. E até antes, no aprendizado das primeiras letras. E digo equívoco porque não se trata de incutir o hábito de leitura. Como não se ter o hábito de abraçar os pais, os filhos e as pessoas queridas. É preciso que tenhamos prazer. E – principalmente – de aumentar sempre o prazer da leitura.
Nestes termos, é preciso que tenhamos em mente que há dois tipos de prazer, conforme já nos ensinavam os gregos nos tempos de seus filósofos. Há o prazer com risco e o prazer sem risco. O prazer com risco é chamado de hedonismo. Quais riscos? Dos que me lembro, posso mencionar o consumo de bebidas alcoólicas, o sexo, a mesa farta e a leitura, dentre outros. É que – conforme já nos ensinavam Francesco Petrarca, in Dez Jornadas – “há homens que devem ler. E homens que não podem ler”. É que não têm nível suficiente para absorver o conhecimento já que, completa Petrarca, “livros têm levado certos homens ao saber. Outros, à insânia”. De maneira que, quando há prazer sem risco, lembramo-nos do Epicurismo. Epicuro, filósofo grego, mais de dois mil anos depois, teve seguidor na cidade de Santos, em nosso Estado, na pessoa do poeta Martins Fontes. Em seu túmulo, como um epitáfio, há uma síntese epicurista, nestes termos: “meus filhos, como é bom ser bom”. Já o prazer com risco é perigoso, como vemos.

“Inflação médica”

Por Vicente Golfeto em 03/09/2018

Há uma satisfação inegável com a vitória que as autoridades econômico-financeiras estão tendo na luta contra a inflação pesquisada pelo I.B.G.E. e mensurada pelo I.P.C.A.. Descolada da inflação oficial, a inflação médica tem – nos últimos dez anos – subido, com índices situados ao redor de 15%, sempre muito maiores do que a inflação oficial. Para este ano de 2 018, enquanto se espera uma inflação oficial até inferior ao teto da meta – coisa ao redor de 3% – a inflação médica deverá bater os 19%. Problema sério para o governo e para a sociedade, nesta incluídos empresas e empregados. Tentando descalçar a bota de custo, os governos passam para as empresas – mediante pressão – pelo menos parte dos gastos com saúde. O funcionário menos saudável “gera maior absenteismo e baixa produtividade, o que não é bom para o negócio”.
Há algum tempo, neste mesmo espaço, tivemos oportunidade de focalizar o assunto, tratando inclusive das verbas que, mensalmente, o SUS encaminha às municipalidades para que estas, com esses recursos, arquem com os problemas de saúde. As verbas – sempre pouco maiores do que as dos anos anteriores, no entanto – não têm chegado sequer a se aproximarem dos índices de inflação médica. Um exame de ressonância magnética, por exemplo, que o SUS fixa para os hospitais, não chega R$ 40,00 (quarenta reais) e custa mais de R$ 150,00 (cento e cinquenta reais) para o hospital.
Com o envelhecimento da população – inclusive a de Ribeirão Preto, demonstrado pelos números do Seade – a prevenção, que deve começar ainda quando se é jovem, é a saída inteligente para se tentar, pelo menos de início, equacionar a questão.

“Deseducando”

Por Vicente Golfeto em 27/08/2018

Imediatamente após eu ter terminado a graduação, velho professor universitário – sacerdote católico, da universidade gregoriana de Roma, já falecido – sugeriu-me que eu fizesse pós-graduação. Mas acautelou-me: “se for no Brasil, preste atenção na ideologia de seu orientador. E nunca fique contra o que ele pensa. Discorra sua dissertação conforme as ideias dele”. Não entendi bem. Ou, melhor, entendi sim. Mas não concordei. Só que era a pura realidade. Como é nos dias de hoje. A verdade é que não há possibilidade de aprender a pensar se a verdade for apenas a do professor. Muito mais importante do que ensinar pensamentos é ensinar o estudante a pensar. Isto desde as primeiras letras, passando pelo segundo grau, chegando à graduação e, por último, à pós-graduação. Sempre cito santo Agostinho para quem “educar é ensinar a pensar.” Em matemática, mais importante do que apresentar um algoritmo – e, depois, exercícios de aplicação – é aprender a raciocinar matematicamente. E após, apresentar exercício de aplicação a respeito, ensinar a distinguir raciocínio matemático de raciocínio aritimético. E por ai vai, na sequência.
A verdade é que, quanto mais ideologias, menos ideias. E é plantando ideias que nós colhemos oportunidades. O estudante fica escravo de ideologias já mortas, sem a menor possibilidade de serem ressucitadas porque já foram sepultadas pela realidade da vida e da existência. É por isso que – na minha opinião – muitas vezes a educação deseduca. Eu dou razão inteira – pelo menos no que toca a muitos casos, em nosso país – a Mark Twain que disse: “nunca permiti que a escola atrapalhasse a minha educação.”

“Liderança”

Por Vicente Golfeto em 20/08/2018

Liderar é, mais do que qualquer outra coisa, estimular a criatividade de seus colaboradores, potencializando as competências em direção aos objetivos e aos valores cultivados pela empresa. A liderança, então, deve ser considerada como a força-motriz de uma organização e deve estar sempre alinhada ao seu direcionamento estratégico. Como hoje pretendo falar ao trabalhador que lidera pessoas, falo também – pelo que sei, mas modestamente – para ajudar as pessoas a viverem satisfeitas. E ajudá-las a viverem satisfeitas é ajudá-las a serem – também e principalmente – produtivas. Então – mais do que alinhar a razão com a emoção – é preciso alinhar o presente com o futuro. Estamos falando ao colaborador sobre o que é ter um propósito na vida profissional. Este propósito é viver o presente construindo o futuro para si mas também com efeitos positivos para a empresa onde ele trabalha.
É exatamente aí que surge – ou que desponta – o que se pode considerar, no âmbito dos recursos humanos, um bom líder, que é sempre aquele que sabe mobilizar pessoas para atingir determinados objetivos. Ele deve ter consciência de que não consegue fazer nada sem a mobilização da equipe num sentido determinado. Como nós somos do tamanho da confiança que nós despertamos, segue-se que – se talento é a matéria-prima com que se faz um craque – em qualquer área do conhecimento e da atividade humana na sequência, o que faz o diferencial, nestes tempos em que a ética entra em concordata facilmente, é a confiança que construímos e perpetuamos nas pessoas. A confiança – é a minha opinião – é mais importante, em certos casos, do que as habilidades.

“Reciclagem”

Por Vicente Golfeto em 14/08/2018

Está provado. Pelo menos até os dias de hoje – tanto a população da Terra quanto seus níveis de consumo – têm crescido muito mais rapidamente do que ocorre com a regeneração dos sistemas naturais. É a partir desta constatação que se pode começar a aferir a importância da reciclagem que faz voltar ao ciclo produtivo o que foi consumido e, depois, se tornou resíduo. A coleta seletiva do lixo, assim, é feita para a reciclagem. Então, estaremos apenas no ínicio do processo de reciclagem que culmina quando se atingir o que se denomina de sustentabilidade, um ciclo perfeito onde não existe desperdício e tudo é usado de forma bem consciente. O pré-requisito da sustentabilidade portanto, é uma sólida educação ambiental.
Há dificuldades. A primeira é na linha de se conciliar desenvolvimento econômico com proteção ambiental, travada pela necessidade de se executar grandes obras de infraestrutura. E então verifica-se a previsão do historiador Jules Michelet: “cada época sonha com o que virá a seguir, criando-a – primeiro – em sonho”. Quem sonha melhor é mais capaz de projetar o futuro. O futuro melhor é o que vê antes que economia não se opõe a ecologia. Ambas se complementam. A marca de todo otimista é acreditar sempre no futuro embora seja necessário que nos acautelemos de que, metas muito ambiciosas são garantia de frustrações. É o que nos mostra a História Econômica, um repositório de experiências que deveriam ser fonte de inspiração para o traçado da política econômica necessária. Veríamos, então, que o Brasil não tem problemas. Só tem soluções adiadas.
As soluções políticas de ontem são os problemas econômicos de hoje.