Que tal usar o dinheiro do IPTU para fazer com que a população escolha onde quer que ele seja gasto?

Por José Manuel Lourenço em 21/05/2017

Programa-melhor-bairro

Qual a melhor forma de se gerir uma cidade? Provavelmente, não há uma receita pronta. Mas, parece ser algo evidente que, se esse processo envolver o maior número de pessoas, tudo fica mais fácil.

Um dos melhores exemplos da criação de mecanismos que aumentem a participação popular na gestão de uma cidade – e nos atos de uma administração pública – ocorreu a partir do final da década passada, em Canoas. O município de cerca de 350 mil habitantes, localizado na Grande Porto Alegre, criou uma série de ferramentas destinadas a fazer com que o processo de tomada de decisões se tornasse mais democrático.

Uma delas chama-se Bairro Melhor e é absurdamente simples. A base de tudo são projetos elaborados por entidades locais (podem ser associações de bairro, ONGs, etc.), que buscam melhorias para áreas específicas, como a aquisição de mais camas hospitalares, construção de um centro cultural ou a revitalização de uma praça.

Programa-melhor-bairro1

A partir daí, os contribuintes do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), que pagarem a cota única podem direcionar até 50% do valor para qualquer um dos projetos que forem selecionados por uma comissão técnica. Em contrapartida, o contribuinte recebe um desconto no pagamento do imposto.

A metodologia do Bairro Melhor funciona da seguinte maneira:

  • a prefeitura lança um editar para a seleção dos projetos que, necessariamente, terão de ser de interesse público e de uso coletivo. Além disso, as ideias têm de estar vinculadas a alguma entidade, de maneira a que possam ser feitos convênios com a administração municipal;
  • os projetos são selecionados por uma comissão, integrada por representantes da prefeitura, sociedade civil e submetidos a votações feitas pela internet; os mais votados – geralmente entre oito e dez – são os escolhidos;

De acordo com o portal Cidades Sustentáveis, em 2015, 23 entidades de Canoas apresentaram projetos para o Bairro Melhor. Desses, oito foram selecionados.

Outro programas

O Bairro Melhor é um dos treze programas criados durante a gestão do prefeito Jairo Jorge da Silva (PT/2009-2012/2013-2016). O Sistema de Participação Popular Cidadã, como foi chamado o conjunto de programas, foi dividido em cinco grandes áreas, cada uma formada por uma ou mais ferramentas: colaborativas (Ágora em Rede), elaboração estratégica (Congresso da Cidade, Plano Plurianual e Planos Setoriais), concertação (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social e Casa dos Conselhos), demandas coletivas (Polígonos Empresariais, Orçamento Participativo, Plenárias de Serviços Públicos e Bairro Melhor) e, finalmente, demandas individuais (Prefeito na Estação, Prefeitura nas Ruas e Audiência Pública).

Clicando aqui, você pode ter acesso à descrição detalhada de cada uma dessas ferramentas.

Governos locais e a valorização dos espaços públicos

Por José Manuel Lourenço em 07/05/2017

Placemaking-02

“O que define o caráter de uma cidade é o seu espaço público, não o privado. O que define o valor dos bens privados nesses espaços não são os os bens em si, mas os que são comuns, públicos. O valor desses ativos públicos, desses bens públicos, afeta o valor dos bens privados. Nós precisamos deixar claro, todos os dias, que os bens públicos são um ativo para as cidades” (Joan Clos i Matheu, diretora-executiva da Habitat, das Nações Unidas)

Na semana passada, falamos sobre um artigo velhinho velhinho (2012), publicado pelo arquiteto Eduardo Souza no  ArchDaily Brasil,  e que apontava dez dicas para melhorar os espaços públicos das cidades. O foco, no texto que publicamos neste Uma Ideia de Cidade, foi a importância do papel das lideranças locais como forma de se melhorar a vida nas cidades.

O texto do ArchDaily Brasil teve como base um trabalho da ONG norte-americana PPS (Projects for Public Spaces), na época ainda em forma de rascunho, chamado “Placemaking and the Future of Cities”. Você pode descarregá-lo aqui, em inglês, no formato PDF.

É um texto que vale a pena ser lido com alguma atenção, porque coloca questões interessantes e que poderiam ser utilizadas como pano de fundo para discutirmos de que forma algumas poderiam ser aplicadas em Ribeirão Preto. É, sobretudo, um manifesto em defesa do uso dos espaços públicos como forma de se tornar a vida nas cidades mais agradável e, ao mesmo tempo, reforçar o senso de comunidade.

Por que o espaço público é importante?

Isso fica claro desde a Introdução, chamada “Por que o espaço público é importante”.  Abaixo, seguem alguns trechos dela:

  • Criar cidades saudáveis, inclusivas, funcionais e produtivas talvez seja o maior desafio a ser enfrentado atualmente pela humanidade. Não existem soluções fáceis e uma parte importante desse quebra-cabeça está no coração das áreas urbanas: os espaços públicos.
  • Espaços públicos saudáveis são o trampolim para a revitalizar comunidades, não importa onde estejam ou que formato assumam.
  • Espaços públicos são um ingrediente vital para qualquer cidade que se pretenda bem-sucedida. Eles ajudam a criar um senso de comunidade, identidade cívica e cultura. Espaços públicos tornam mais fácil o surgimento do capital social, desenvolvimento econômico e a revitalização de uma determinada comunidade.
  • Todas as comunidade têm espaços públicos, mesmo que isso não seja percebido em um primeiro momento. Às vezes são bastante óbvios, como um parque, um boulevard circundado por calçadas ou um grande praça central cercada por edifícios públicos. Mas espaços públicos também são os que encontramos entre áreas privadas e nem sempre reconhecidos ou tidos como espaços públicos. Becos, pátios e escadarias podem escapar à nossa percepção. Não obstante, eles estão entre os bens mais subutilizados de uma cidade e um dos potencialmente mais valiosos. Pelo fato de pertencerem a todos, eles são vistos como sendo de ninguém. Mas, se forem apropriados e trabalhados podem ser instrumentos importantes para fortalecer e enriquecer as comunidades.

Grande parte das afirmações deixa subentendido o papel que o poder público municipal tem na valorização dos espaços públicos e, mais ainda, na necessidade de transformá-lo em locais de convívio social e das diferenças. No entanto, não basta criar  tais espaços, mas fazer com que, desde a sua criação, durante o seu processo de planejamento, tenham uma finalidade.

O que nos leva à dica nº 10 da publicação do PPS, que fala sobre os governos locais.

Talvez o principal ponto a ser mudado esteja na própria estrutura dos governos. Infelizmente, os governos não estão estruturados para dar algum tipo de suporte aos espaços públicos. Raramente existe alguém, na estrutura oficial de poder, que esteja ativamente engajado na criação de um espaço público bem-sucedido. Não somente não existem indivíduos ou secretarias focados nos espaços públicos, como o governo, como um todo, não busca, de forma explícita e como um fim, espaços públicos bem-sucedidos. Na verdade, segundo o estufo da ONG norte-americana, a estrutura da maioria das secretarias municipais e a burocracia existente acabam sendo verdadeiros empecilhos à criação de espaços públicos de sucesso. As secretarias de Transportes vêem a sua missão em termos puramente de tráfego; os departamentos de parques estão lá para criar e administrar áreas verdes; agências de desenvolvimento comunitário estão focadas no desenvolvimento de projetos, não no espaço entre eles.

Se o fim último de um governo é criar locais, comunidades e regiões mais prósperas, civilizadas e atrativas para as pessoas, então os processos precisam mudar parta refletir essa meta. Isso exige que a construção da cidade seja feita de maneiras mais consensuais e que as consultas feitas pelos cidadãos e as reformas institucionais ocorram de maneira a fortalecer a cidadania e a inclusão.

Efetivamente concebidos e administrados, os espaços públicos demandam o envolvimento de parceiros da sociedade civil, como as ONGs. Mas, enquanto a melhorias desses espaços públicos pode ir ao encontro dos objetivos das ONGs e fundações, a própria sociedade civil precisa encontrar formas de colaborar de maneira mais efetiva com o governo.

Ou seja, a mudança passa pelos governos locais. Mas, ao mesmo tempo. é importante que a sociedade seja não apenas fiscal dessas ações mas que trabalhe, ao mesmo tempo, como parceira e corresponsável  dessas mesmas ações.

O papel das lideranças locais em projetos de ocupação dos espaços públicos

Por José Manuel Lourenço em 30/04/2017

EspacosPublicos

Esta semana, procurando alguma coisa interessante para publicar no blogue, dei de cara com um texto antigo do ArchDaily Brasil, que tem tudo a ver com o espírito deste espaço.

Publicado em 2012, o artigo foi escrito pelo arquiteto urbanista Eduardo Souza e tem um título autoexplicativo: Dez Dicas para Melhorar os Espaços Públicos.

O texto de Souza fala, por exemplo, de conversão de ruas em calçadões, construção de economias locais através de políticas de incentivos a mercados urbanos, uso integrado de edifícios com os seus entornos e o uso de ideias pequenas, simples e baratas como exemplos de fortalecimento do sentimento comunitário e de relações mais sólidas com a cidade.

Uma delas me chamou a atenção – e foi difícil não lê-la tendo em vista a realidade de Ribeirão Preto: a necessidade de as organizações comunitárias se reinventarem. Leia, a íntegra de cada dica:

No momento de projetar certos setores das cidades, é vital levar em conta as aspirações de quem fará parte dela – os moradores locais. Por isto é necessário capacitar os membros das organizações civis ensinando-lhes a importância histórica dos lugares que habitam, as funções que deveriam cumprir para satisfazer certas necessidades e como reconhecer quando um lugar é atrativo para as pessoas. Com isto, gerar-se-ia um sentido de pertencimento nos membros das organizações, que se beneficiariam de novas motivações para apresentar suas propostas para as instituições governamentais envolvidas, como atores sociais relevantes (grifo meu). Cabe mencionar que os espaços públicos devem ter a capacidade de evoluir com o tempo, tendo em mente as aspirações da comunidade, para que se torne um grande destino.

Duas palavrinhas apontam o caminho para que a ocupação dos espaços públicos possa se tornar um dos elementos mais importantes para a transformação positiva das cidades: capacitação de cidadãos-chave e a criação de um sentimento de pertencimento do morador com a sua comunidade. Sobretudo, a forma como uma leva à outra.

Lideranças locais

A importância desses membros das organizações civis é maior do que se pode supor. São líderes locais que têm a capacidade de, com as suas ações, transformar o local ou as áreas específicas em que atuam.

O problema é que, na prática, isso raramente ocorre. Isso porque, em alguns casos, o poder público não lhes permite (direta ou indiretamente) a ocupação de espaços para que possam atuar; em outros, porque essas lideranças acabam por adotar práticas clientelistas, que têm muito mais a ver com a satisfação de interesses particulares, específicos, do que com os anseios da comunidade que representam.

Ribeirão Preto

Curiosamente, em Ribeirão Preto, não se pode reclamar da inexistência de espaços institucionais para a atuação de lideranças comunitárias. Afinal, o que não falta à cidade são conselhos municipais. No entanto, em grande parte, são apenas figuras decorativas, que têm parte da sua estrutura dominada por integrantes do poder público, o que por si só já põe em xeque a legitimidade das suas ações.

Além disso, um dos pré-requisitos para o seu bom funcionamento – a exposição pública do trabalhos, poucas vezes é atingida. Este ano, uma matéria do jornalista Cristiano Pavini, do jornal A Cidade, mostrou que os conselhos municipais são tudo, menos transparentes.

Entender, fortalecer e fiscalizar os trabalhos dessas lideranças locais é uma condição fundamental para que os próprios conselhos retomem a função para a qual foram originalmente criados: trabalhar em conjunto com o poder público na detecção de problemas da cidade e, sobretudo, apontar caminhos que levem à solução dessas questões.

Project for Public Spaces

O texto de Eduardo Souza para o ArchDaily Brasil tem como base um rascunho feito pela organização não-governamental e sem fins lucrativos, “Project for Public Spaces”. O objetivo dessa ONG norte-americana, fundada em 1975, é auxiliar as pessoas a criar e manter espaços públicos de maneira a fortalecer as comunidades.

No item “Reinventado o Planejamento Comunitário”, o texto da ONG explica que, quem mora em uma diversa área, é quem conhece melhor os problemas e desafios do local. Por isso, a organização sustenta que o ponto de partida para o desenvolvimento de qualquer agenda ligada ao espaço público deveria ser a identificação dos talentos dentro de uma comunidade. Ou seja, pessoas que possam fornecer uma perspectiva histórica e dar dicas a respeito de como as coisas funcionam e do que é realmente importante para a comunidade onde estão inseridos.

Para a ONG, a identificação de lideranças locais no início desse processo vai auxiliar na criação de um sentimento de pertencimento e de ligação com o projeto, o que pode garantir o seu sucesso por vários anos.

Parcerias

Além da identificação dessas lideranças locais, o texto da Project for Public Spaces destaca as parcerias como algo vital para o sucesso de qualquer projeto de melhoramento de espaços públicos. Entre os grupos citados estão instituições locais, museus, escolas, associações formais ou informais de moradores, associações de classe e de lojistas.

Isso pode ser feito em Ribeirão Preto? Pode. Mas, na minha opinião, seria extremamente importante que isso acontecesse, em um primeiro momento, à margem do poder público. A relação com a administração municipal deve ocorrer da forma mais horizontal possível e isso só pode acontecer se quem estiver do outro lado tiver poder suficiente para poder negociar.

Não é o caso de se excluir o poder público desses projetos, longe disso, porque ele é, ao mesmo tempo, parte do problema e da solução. Mas é importante que fique claro que ele é uma das partes.

Como disse acima, isso pode acontecer em Ribeirão Preto. Vai acontecer? Só se essa comunidade conseguir se unir para ter força suficiente para poder negociar com o poder público. Até hoje, não me lembro de que algo desse tipo tenha acontecido.

O que você vai ler na próxima semana

O texto de Eduardo Souza, que teve como base o trabalho do Projec for Public Spaces, traz dicas muito interessantes para serem conhecidas e discutidas. Na próxima semana, a minha ideia é apresentar uma das sugestões mais importantes que o trabalho apresenta, que a necessidade de se reestruturar a administração local de forma de se garantir o sucesso de projetos ligados aos espaços públicos. Espero que vocês gostem. Até lá.

Desenhando um Manual de Planejamento para os jovens de Chicago*

Por José Manuel Lourenço em 23/04/2017

Ilustração do livro No Small Plans

Ilustração do livro No Small Plans

Um projeto criado pela Fundação de Arquitetura de Chicago quer desenvolver o espírito de participação de estudantes no processo de planejamento da cidade. O modo utilizado para se conseguir viabilizar a ideia foi um livro de três volumes, em quadrinhos, onde cada um deles relata as experiências de um ou mais jovens em determinados períodos da história da cidade (1928, 2017 e 2211).

A autora da ideia foi a vice-presidente de Educação da entidade, Gabrielle Lyon, a partir de um livro escrito em 1911, chamado Manual de Wacker. O texto teve como base uma espécie de plano diretor da cidade, escrito em 1909 por Daniel Burnham e Edward H. Bennett.

Plano de Chicago

Plano de Chicago, elaborado em 1909 por Burnham e Bennet

O Manual Wacker vem sendo utilizado como texto de leitura para os alunos da 8ª série nas escolas de Chicago e, com o passar dos tempos, foi sendo atualizado. Mas o manual também é um dos livros usados pela Fundação de Arquitetura local em diversas discussões sobre planejamento urbano, que envolvem estudantes convidados a participar de conversas e projetos com arquitetos, planejadores urbanos e designers, em geral.

Dessas conversas, surgiu a pergunta, feita pelos alunos: por que não existe uma versão atualizada do Manual Wacker, que também esteja voltada para os jovens da cidade?

A resposta a essa questão foi um texto dirigido por Gabrielle Lyon, chamado No Small Problems. A novidade é o formato em quadrinhos e a reunião de três visões sobre o planejamento da cidade em três momentos: na primeira parte do livro, passada em 1928, três amigos de diferentes raças e classes sociais convivem com a discriminação, por parte dos demais moradores, quando planejam passar uma tarde juntos no Centro; a segunda parte, passada em 2017, discute questões como gentrificação e disponibilidade de moradia, ao contar a história de uma menina cuja família está para ser despejada; por fim, na última seção, passada em 2211, cinco alunos são convidados a participar do Conselho de Planejamento da cidade e a apresentar propostas que envolvam as relações de vizinhança. Para que essas propostas se tornem possíveis, eles percebem que o melhor caminho é se envolver pessoalmente na comunidade para descobrir quais são as suas reais necessidades.

Um dos pontos destacados por Gabrielle Lyon tem a ver com um problema comum nos Estados Unidos. Segundo ela, a compreensão sobre quem está por trás do planejamento da cidade é particularmente importante para os alunos de cor, assim como aqueles que vêm de famílias pobres ou as que têm no inglês a segunda língua.

Para Gabrielle, esses adolescentes, geralmente, estão em escolas que trabalham com poucos recursos e pouquíssimas oportunidades para interagir com representantes do poder público ou participarem da vida cívica. Como adultos, eles estariam menos propensos a votar, entrar em contato com os eleitos ou se envolver no ativismo coletivo.

(*) Título retirado do texto original do CityLab, “Drawing Up an Urban Planning Manual for Chicago Teens”. O texto original pode ser encontrado aqui.

Envelhecer melhor e com mais qualidade de vida, em Madrid!

Por José Manuel Lourenço em 03/04/2017

Idosos e solidao

Região de Madri cria plano de moradia compartilhada para cidadãos da terceira idade

Há duas semanas, o jornal espanhol La Vanguardia informou que a Prefeitura de Madrid pretende destinar 6,8 milhões de euros (cerca de R$ 22 milhões), nos próximos quatro anos, para viabilizar um plano destinado à Terceira Idade. Chamado de “Estrategia de Atención a las Personas Mayores”, o plano tem cinco grandes eixos e 129 medidas, entre elas a criação de um programa de moradia compartilhada para que os idosos possam se ajudar mutuamente.

Segundo o governo de Madrid, a ideia principal é fazer que, com isso, seja combatido um dos maiores problemas que afetam os seniores, a solidão. Ao mesmo tempo, a criação das moradias compartilhadas também implicaria na redução de custos para os cofres públicos e daria ao poder público maior controle sobre a situação dos seus idosos.

Atualmente,a região de Madri concentra cerca de 1,1 milhão de pessoas com mais de 65 anos, dos quais um terço acima dos 80 anos. A presidente do Conselho da Região de Madri, Cristina Cienfuentes, afirmou ao La Vanguardia que esse número pode subir com o aumento da expectativa de vida dos idosos.

Os cinco eixos da Estrategia são o seguintes: promover o envelhecimento ativo e prevenir situações de dependência; medidas de atenção a seniores em situações de dificuldades sociais; criar um catálogo de serviços para pessoas em situação de dependência; melhorar a coordenação sócio-sanitária em ações que envolvam atenção à dependência; por fim, desenvolver uma organização integrada e inovadora na prestação de serviços públicos.

Moradia compartilhada

Um dos principais destaques do plano de Madrid para os idosos é a moradia compartilhada. Segundo o La Vanguardia, a casa a ser dividida deverá ser de um dos idosos interessados em participar do programa. O imóvel deve ser de propriedade do idoso, onde more, deve estar em boas condições e ter espaço suficiente para ser compartilhado.

Por sua vez, quem quiser viver em uma dessas casas não pode ser proprietário de algum imóvel – ou, se for, que esteja em condições impróprias de habitação – e deve viver na região, no mínimo, um ano antes do pedido feito para poder participar do programa.

A ideia, segundo Cristina Ciefuentes, é fazer com que os seniores encontrem companhia, mas também possam dividir serviços, como limpeza, transporte ou assistência sanitária no local).

Semáforos para viciados em celulares

Por José Manuel Lourenço em 26/03/2017

Celular na rua

Uso de celular nas ruas pode estar causando o aumento no número de mortes de pedestres

A cidade de Rosario, na Argentina, tornou-se a primeira do país a tentar resolver um problema que já começa a preocupar os gestores públicos: o crescente número de pedestres que são atropelados, após atravessarem as ruas distraídos, enquanto falam ao celular.

A solução encontrada foi criar uma série de semáforos no chão, para que os viciados em falar em telefones celulares enquanto caminham pelas ruas possam saber qual o momento mais apropriado para atravessá-las.  A novidade entrou em funcionamento esta semana. Clique aqui para ver uma reportagem da televisão argentina sobre a solução de Rosario.

O semáforo é formado por pequenos quadrados no chão, com cerca de 40×40 cm, cujas cores variam do verde ao vermelho, de acordo com a intensidade do tráfego. Eles estão conectados ao semáforos tradicionais.

Segundo a Prefeitura de Rosario, a solução foi adotada depois que as mortes de pedestres começaram a se tornar um problema sério para a cidade. De acordo com informações da administração, dos cerca de 3,7 mil acidentes de tráfego registrados em 2016, mais de 200 envolveram pedestres.

O autor do projeto, o conselheiro municipal Horacio Ghirardi, disse que a cidade já começa a se preocupar com a quantidade de usuários de celulares, distraídos nas ruas. “O uso constante de telefones enquanto se caminha pelas vias públicas se transformou em um hábito, seja para ler textos ou escrever mensagens, o que em determinadas circunstâncias, como cruzar uma rua, pode ser um risco”, disse Ghirardi ao portal latino  Infobae.

De acordo com o portal CityLab Latino, autor da notícia, Rosario não é a única cidade a ter de conviver com esse tipo de situação. De acordo com um estudo de 2015, diversas cidades dos Estados Unidos também registram aumento do número de mortes de pedestres, depois de décadas de queda. O mesmo estudo apontou que o uso crescente de celulares pode ser o motivo que explica esse aumento.

O trabalho foi desenvolvido pela Governors Highway Safety Association, mas já não está disponível no site da associação. No entanto, um texto sobre ele pode ser encontrado no site da ABC News

A distância entre Lisboa e São Paulo

Por José Manuel Lourenço em 24/01/2017

São Paulo é uma cidade brasileira com cerca de 12 milhões de habitantes, localizada a pouco mais de 300 quilômetros de Ribeirão Preto. É também a capital do estado mais importante do país e uma das referências culturais nacionais e das américas.

Lisboa é uma cidade portuguesa, com cerca de 600 mil habitantes (2,8 milhões na área metropolitana), localizada a 13 horas de avião de Ribeirão Preto. É, também, a capital do país e uma das referências culturais europeias.

Mas, afinal, o que São Paulo e Lisboa têm em comum, além do óbvio uso comum da língua portuguesa? Muita coisa. No entanto, desde a última semana ficou claro que cada uma tem visões não apenas distintas, mas opostas, de como a cidade pode ser ocupada pela sociedade, de como os espaços públicos podem se tornar locais privilegiados para tornar a cidade mais viva, alegre e com uma ligação mais profunda com a comunidade.

Pois bem, essa introdução serve para dizer que nunca São Paulo e Lisboa estiveram tão distantes. Esta semana, o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB, sigla para Partido da Social Democracia Brasileira) tomou uma decisão inusitada, envolvendo justamente a inserção do cidadão na sua cidade. Doria mandou apagar um conjunto de grafites existentes na área central de São Paulo, criado em 2015 na gestão do petista Fernando Haddad e definido por ele como “o maior maior mural de grafite a céu aberto da América Latina”. Leia mais aqui. O próprio Doria tratou de apagar alguns trabalhos feitos em trechos da avenida 23 de Maio.

ProjetoLata65_01

Logotipo do projeto Lata 65; imagem cedida pelos autores do projeto

Curiosamente, esta semana acabei conhecendo um trabalho chamado Lata 65, feito em Portugal pela ONG Coworklisboa, em parceria com o Wool – Festival de Arte Urbana da Covilhã. Sabe qual é a ideia deles? Incentivar idosos a criarem grafites em vários locais da capital portuguesa, como forma de reforçar os laços com a cidade e, ao mesmo tempo, combater um dos males que acompanham a população sênior: a solidão.

Criado em 2012, o Lata 65 se assume como um projeto que pretende “aproximar os menos jovens a uma forma de expressão habitualmente associada aos mais novos; provar que conceitos como envelhecimento activo e solidariedade entre gerações fazem a cada dia mais sentido; demonstrar que a arte urbana tem o poder de fomentar, promover e valorizar a democratização do acesso à arte contemporânea, pela simplicidade e naturalidade com que atinge as mais variadas faixas etárias; demonstrar que a idade é (apenas) um número.”

ProjetoLata65_02

Sêniores grafitando? Em Lisboa é possível.(Fotos cedidas pelo projeto Lata 65)

Um matéria publicada pela Folha de São Paulo esta semana dá a exata dimensão do que significa o projeto para quem participa.

Salvo o crochê, Maria Cruz, 62, não tinha contato algum com as artes. Mas, há dois anos, ela trocou as agulhas pelas latinhas de spray e pintou um muro em Lisboa. Cruz participava de uma oficina de grafite voltada a idosos portugueses. O projeto, chamado Lata 65, tem crescido em Portugal e já respinga no Brasil. Houve uma edição no Sesc Santana, em setembro de 2015. Ela conta à Folha que, à época, vinha reclamando de sua saúde. ‘Eu estava me sentindo longe de tudo, um bocadinho depressiva’, afirma, mas alegrou-se ao dedicar-se ao desafio de cortar moldes e grafitar a cidade. ‘É complicado, porque eu estava trabalhando em um território desconhecido. Mas logo veio o entusiasmo e foi muito compensador’, diz.

ProjetoLata65_03

Contra o cinza, as cores de um projeto inovador

Veja um vídeo do Lata 65 sobre o projeto com os idosos lisboetas

Outros exemplos

A experiência de Lisboa com grafites é repetida em diversos locais do mundo, com os mais variados formatos. Por exemplo, no Rio de Janeiro, a favela de Santa Marta foi alvo de diversas intervenções feitas pela dupla holandesa Haas & Hahn, com o Favela Painting. A ideia, como disseram ao site Mistura Urbana, era trazer “obras de arte ultrajantes para lugares inesperados”.

Mais recentemente, um grupo de moradores criou o projeto Tudo de Cor pra Você, “que reuniu moradores, voluntários e artistas para renovarem as fachadas de casas, muros e escadarias da comunidade por meio de pinceladas de cores”. De acordo com o site, “desde o fim de 2012, mais de 270 imóveis foram pintados pelo projeto e diversos espaços, passaram por revitalização.”

santa-marta2

México

Mexico-01

O uso de cores e de grafites para tornar humana a relação do homem com a cidade tem como um dos melhores exemplos um trabalho feito na cidade mexicana de Pachuca. Ali, um grupo de artistas revitalizou a comunidade de Las Palmitas inteira tendo como ferramentas sprays de tinta e muita criatividade. O objetivo era tirar a imagem negativa do local, mas o que se viu foi além disso: na nova comunidade, os índices de criminalidade também baixaram após a implantação do projeto.

Mexico-02

A ‘árvore da bondade’ de Minu Pauline

Por José Manuel Lourenço em 05/01/2017

Minu-Pauline-Public-Fridge
Minu Pauline ao lado da ´árvore da bondade’, uma geladeira pública que é usada para que moradores de rua possam retirar comida de graça

No ano passado, já perto de encerrar o expediente, a dona de um restaurante popular na cidade indiana de Kochi, Minu Pauline, viu uma mulher mexer no lixo produzido pelo estabelecimento, em busca de comida. Ao observar a moradora de rua, Minu percebeu que ela provavelmente tinha sido acordada pela fome.

Ela ficou especialmente triste porque, naquele dia e, praticamente, em todos os dias, o seu restaurante produziu quilos e mais quilos de alimentos, cujas sobras poderiam ter sido utilizadas para minimizar a fome daquela mulher.

Foi então que teve a ideia de utilizar as sobras do estabelecimento e torná-las alimento para essa moradora e para centenas de pessoas na mesma situação.

“O dinheiro é de vocês mas os recursos pertencem à sociedade. Essa é a mensagem que gostaria de passar a todos. Se você está gastando o seu dinheiro, é o seu dinheiro, mas você está desperdiçando recursos da sociedade. Assim, não desperdice esse recursos, não desperdice comida”

O resultado foi a “ávore da bondade”, uma geladeira onde são guardadas sobras de alimentos do restaurante e usadas para consumo de moradores de rua. Mas, com um detalhe bastante significativo: o equipamento fica na rua, em frente ao restaurante Pappadavada, e qualquer pessoa pode pegar as porções de comida – que são ambaladas – sem pagar nada. Por dia, segundo ela, entre 75 e 80 porções são retiradas “árvore da bondade” por pessoas sem condições de comprar comida. “Houve dias em que em cheguei a colocar cem porções. Não há limite”, afirmou em entrevista à publicação eletrônica norte-americana, Huffington Post.

A maior parte das porções vem do que sobra do processo de elaboração dos pratos do restaurante. No entanto, Minu disse que conversou com clientes para deixarem que as sobras dos seus pratos sejam transformadas em marmitas para os moradores de rua. Grande partes deles concordou.

Ela fez dois pedidos aos clientes: em primeiro lugar, que pusessem a data de consumo nas marmitas, para que os moradores de rua pudesse saber se o alimento ainda estava em condições de ser consumido. Depois, que não comprassem comida para colocá-la no refrigerador. “Eu prefiro que as pessoas ponham ali as suas sobras de comida [em vez de comprar uma marmita], em vez de jogá-las na lata do lixo”, disse.

Ela disse que o ponto principal da “árvore da bondade”, além de ajudar a quem precisa, é fazer com que, nesse processo, possa ser evitado o desperdício de comida. “O dinheiro é de vocês mas os recursos pertencem à sociedade. Essa é a mensagem que gostaria de passar a todos. Se você está gastando o seu dinheiro, é o seu dinheiro, mas você está desperdiçando recursos da sociedade. Assim, não desperdice esse recursos, não desperdice comida”, completou na entrevista ao Huffington Post.

O texto original do Huffington Post pode ser acessado aqui.

Arquitetos da Justiça

Por José Manuel Lourenço em 22/11/2016

Biblioteca SEED em uma escola de educação fundamental da África do Sul

A ideia de cidade desta semana vem da África do Sul, do trabalho de um grupo de arquitetos que resolveram transformar contêiners em espaços de educação e cultura.

A história começa com um escritório de arquitetura, chamado Architects of Justice, localizado na província de Gauteng, onde ficam a capital da África do Sul, Pretória, e a sua cidade mais importante, Johannesburg. A empresa foi contratada pela MAL Foundation para desenvolver um projeto pioneiro de biblioteca, que pudesse ser replicado, mais tarde, em outras partes do país. O local escolhido para aplicar essa ideia foi a MC Weiler Primary School, em Alexandra, Joahannesburg.

A ideia incluía um espaço para biblioteca, com livros, áudiolivros, espaços de estudo/salas de aulas, um centro multimídia, anfiteatros internos e externos e locais agradáveis para onde os leitores simplesmente pudessem escapar para ler alguma coisa. Em resumo, a ideia era criar um espaço que pudesse ser, ao mesmo tempo, interessante e estimulante para as crianças.

Falta de fundos

O problema é que, em uma determinada altura do projeto não havia fundos suficientes para cobrir os gastos com o projeto e a construção dessa biblioteca-piloto. A alternativa foi apelar para uma versão light do projeto original que, em vez de tijolos, usaria apenas dois contêiners. A ideia foi aprovada pela fundação e foi aplicada na escola de Joahannesburg.

“As bibliotecas SEED devem ser vistas como protótipos. Elas só alcançam a sua finalidade se puderem ser replicadas muitas outras vezes em vários lugares”

Uma das coisas legais desse projeto, além da simplicidade, é que se assume como um ponto de partida, nunca como algo que pode substituir os espaços originais. “Essa pequena construção não foi feita com a intenção de substituir a original. Mas, se for levada de uma escola para a outra, pode ser usada como um espécie de maquete, para que os responsáveis possam testar até que ponto a escola seria capaz de administrar uma construção maior, antes de tê-la que construir”, dizem os arquitetos do AOJ no seu site.

Imagem de Amostra do You Tube

Ao contrário do projeto original, as bibliotecas SEED (semente, em inglês), como foram chamadas, têm o básico de uma biblioteca: um lugar para ter acesso a informação e para ler e fazer os deveres de casa. Por isso, segundo eles, os contêiners são instalados de forma perpendicular, de forma a separar os dois espaços.

“As bibliotecas SEED devem ser vistas como protótipos. Elas só alcançam a sua finalidade se puderem ser replicadas muitas outras vezes em vários lugares, porque, infelizmente, existem muitos locais de ensino na África do Sul que são tristes e deprimentes. Construções como estas poderiam agir como símbolos – e contribuir – para um futuro material melhor”.

No site do Architects of Justice você pode encontrar várias informações sobre esse projeto, assim como os prêmios recebidos pela ideia. Uma dessas informações, que é um resumo do projeto, pode ser acessada no Issuu. Vale a pena a leitura.

Um abraço e até a próxima semana, quando vamos falar de moda (é isso, mesmo, moda). Uma experiência bem legal que está acontecendo em Ribeirão Preto. Até lá.

Etapas da construção

Histórias de gentrificação

Por José Manuel Lourenço em 10/11/2016

Lisboa

Centro histórico de Lisboa, um dos locais afetados pelo processo de gentrificação (Foto: Alamy)

No mês passado, o jornal inglês The Guardian publicou uma matéria bem legal sobre gentrificação. Basicamente, esse termo significa o processo de requalificação de uma área degradada da cidade (geralmente histórica e na região central), com a implantação de diversas melhorias, mas às custas do afastamento da população original, geralmente moradores idosos e/ou de baixa renda. É bom ter em mente o seguinte: a origem da palavra vem do inglês gentry, que designa basicamente pessoas ricas, ligadas à nobreza.

Pois bem, o que a matéria do Guardian tem de interessante é que foi feita a partir de depoimentos de moradores de diversas cidades, como Lisboa, Amsterdam, Montreal, Chicago e Buenos Aires. Em todas, além do fato óbvio de a gentrificação ser um processo de consequências sociais terríveis,  há, pelo menos, outro ponto em comum: o impacto que tem na destruição da ideia de comunidade. “Agora, tudo o que importa é conseguir dinheiro, não criar comunidades”, escreve Pieter Vooght no texto Guardian, a respeito do que acontece em Amsterdam.

O ponto que me chamou a atenção (além da ideia bem legal de se pôr leitores para falar de um processo como esse) foi:  o que se pode fazer a respeito disso? Como se pode controlar um processo como a gentrificação e, claro, torná-lo algo positivo para a cidade. É possível?

Teoricamente, gentrificação não é uma coisa ruim, uma vez que atua em um processo de requalificação de áreas degradadas da cidade, tornando-as novamente atrativas para a população. O problema é isso não é feito pelo Poder Público, mas pela iniciativa privada, que é movida pelo lucro.  Isso é ruim? Sim e não. Não me parece de todo má a ideia de empresas assumirem esse processo, sobretudo por uma histórica tradição de o Poder Público raramente o fazer. O problema é que as consequências dessas ações são terríveis em termos sociais, fazendo com que cidadãos (neste caso os de baixa renda) deixem de ter acesso pleno à cidade.

O que fazer, então? É possível controlar a gentrificação? Teoricamente, sim, e me parece que o instrumento mais evidente para isso seja o bom e velho Plano Diretor. Funciona? Claro que não. Se funcionasse, nem a própria gentrificação existiria. Mas, como defensor ferrenho desses instrumentos de planejamento urbano, acho que os planos diretores podem ser o caminho. E, fazê-los funcionar depende de um ponto que, até onde sei, usamos muito pouco: controle da sociedade sobre os seus políticos.

Me parece ser importante começarmos a pensar de que forma é possível conciliar uma ação de gentrificação (ou algo que tenha a ver com os mesmos princípios, mas com fins menos perversos), algo ligado à iniciativa privada, mas que, ao mesmo tempo, possa preservar o acesso da população original daquela área às suas referências locais. Sobretudo por causa daquilo a que o leitor de Amsterdam se referiu, que é o impacto que tem na destruição da ideia de comunidade. Isso tem maior peso, ainda, se estivermos falando de comunidades que sejam maioritariamente formadas por cidadãos idosos.

Por isso, se você conhecer alguma experiência interessante nesse sentido, entre em contato. Existe gentrificação boa? De que formas é possível falarmos desse processo e, ao mesmo tempo, evitar que uma determinada região se torne um gueto elitizado? Requalificação dos centros urbanos e habitação social são termos que podem ser usados na mesma frase? Que tipo de contrapartidas para a cidade podem existir para quem usufrui de habitação social nessas áreas? É justo a sociedade exigir essas contrapartidas? Enfim, pense a respeito e dê a sua opinião.

Na próxima semana vamos falar sobre algumas experiências interessantes que vêm acontecendo no país, que dizem respeito ao controle da população sobre os seus representantes políticos. Lembra que falamos disso acima? Pois bem, o próximo tema será Mandatos Coletivos. Quer enviar alguma experiência bem-sucedida nesse sentido?