Uma calçada (finalmente) acessível: o exemplo de Goiânia

Por José Manuel Lourenço em 10/09/2017

Caminhar pelas calçadas de Ribeirão Preto pode ser uma aventura cheia de surpresas. No entanto, para aqueles que são portadores de necessidades especiais que obriguem ao uso de cadeiras de rodas, deficientes visuais ou idosos, exercer o uso do direito de mobilidade pela cidade é algo diariamente negado.

Com raras exceções das ruas centrais, sobretudo na área do Calçadão, a cidade nega a cadeirantes, deficientes visuais e idosos o direito de caminhar pelas calçadas sem sustos.

“Saiu do Centro, já não tem mais nada”, afirmou Jonathan Fernandes  Carvalho, presidente da Adad (Associação de Amigos dos Deficientes de Ribeirão Preto). “Mesmo perto da Catedral, não existem rampas adequadas. A rua – por causa das várias camadas de asfalto – cria um degrau junto ao meio fio e, ali, as cadeiras travam. Os atletas cadeirantes que jogam basquete e têm um nível de força maior conseguem se virar bem, mas para um cadeirante mais simples ou uma pessoa idosa, que não têm uma mobilidade tão grande, acabam caindo e se machucando”, completou.

A situação de Ribeirão Preto não é única nem no Estado ou no País. No entanto, em Goiânia (GO), um projeto-piloto desenvolvido por uma construtora aponta uma alternativa interessante para o uso democrático das calçadas.

A ideia surgiu em 2009, durante um Fórum de Engenharia, quando foi apresentada uma proposta para a construção de um calçada exemplar em um trecho da cidade. A “Calçada Consciente”, como ficou conhecida, foi realizada em um quarteirão onde estavam diversos lotes da construtora.
“O processo envolveu diagnóstico da situação da calçada, desenvolvimento de projetos técnicos individuais para cada lote, envolvimento e anuência dos proprietários de lotes (que não participaram de qualquer custo, apenas concordaram com a reforma e se responsabilizaram pela manutenção conforme os padrões estabelecidos), desenvolvimento de projeto de arborização e mobiliário urbano, até chegar à execução das obras. As diretrizes foram: permeabilidade do solo, reciclagem do entulho, acessibilidade e arborização”, informa um documento disponibilizado no portal Soluções para Cidades. (Você pode fazer o download desse documento, no portal. Faça aqui o download do documento.
Ao longo dos 25 lotes e 550m que compõem a quadra, foram identificados desníveis de calçada, trechos quebrados, rampas com inclinação excessiva, pisos inadequados, instalação de lixeiras e árvores impedindo a circulação de pedestres, alagamentos
e outros problemas.
A Calçada Consciente gerou uma pista de caminhada de alta qualidade, executada com rampas de acesso em inclinação adequada, nenhum desnível entre lotes ao longo do perímetro, respeitando inclinação máxima da faixa de circulação e utilizou
sinalização para pessoas com deficiência visual. Para organizar o uso da calçada, ela foi dividida em três faixas:
  • faixa de serviço: mais próxima do meio fio, destinada à colocação de equipamentos e mobiliário urbano;
  • faixa livre: parte central da calçada, destinada exclusivamente à circulação de pedestres;
  • faixa de acesso: porção da calçada situada junto ao imóvel, mais interna e permeável (com exceção de regiões de acesso de veículos e pedestres – portas, garagens).

A ideia da Calçada Consciente ou Sustentável já é aplicada em cerca de 23 mil metros quadrados de calçadas na capital de Goiás. Mais do que isso, ela já chegou ao Poder Legislativo e gerou um projeto de lei que concede isenção do IPTU a construtoras que adotarem a mesma ideia.

Como se vê, ideias existem e, algumas delas, bem interessantes e factíveis. Que tal fazer a mesma coisa em Ribeirão Preto, mesmo que de modo experimental, em uma área definida pelos principais prejudicados pelo péssimo estado de conservação das nossas calçadas: cadeirantes. deficientes visuais e idosos.

 

 

Leticia Gasca e o Instituto do Fracasso

Por José Manuel Lourenço em 13/08/2017

A jornalista mexicana Leticia Gasca (foto) é uma das poucas pessoas do mundo que utilizaram o fracasso para chegar ao sucesso.  Em 2012, ela criou, na Cidade do México, o Fuck Up Nigts, algo que poderia ser traduzido, com alguma benevolência, como Noited do Fracasso. É uma espécie de reunião de empreendedores – realizada em lugares bastante informais, como bares – para falar sobre como as suas tentativas de criar negócios falharam.

A ideia é bastante simples e, ao mesmo tempo, inovadora. Em cada sessão, dois ou três empresários ‘mal-sucedidos’ são convidados a expor para uma plateia de cem a cento e cinquenta pessoas as suas experiências, os caminhos percorridos e as lições que tiraram disso. Cada um tem sete minutos e dez imagens para fazer a sua apresentação. Ao fim das apresentações, há um espaço de perguntas e respostas com a plateia.

 

Instituto do Fracasso

Na sequência da criação da Fuck Up Nights, Leticia criou o Instituto do Fracasso, o primeiro centro de pesquisas no mundo que tem por meta estudar o assunto. De acordo com informações presentes no site da organização, o instituto “leva a cabo investigações acadêmicas rigorosas sobre o fracasso empresarial e as razões que estão por trás dele”. Inicialmente, são estudados casos de empresas e iniciativas mexicanas e colombianas.

Se compartilhas o teu fracasso, compartilhas o que aprendeste. A inteligência coletiva se estimula ao aprender com os fracassos de outros. Ou seja, ao compartilhar os teus fracassos, evitas que outros incorram nos mesmos erros.

Parte das iniciativas e dos trabalhos do Instituto foi resumida em uma publicação gratuita, chamada O Livro do Fracasso, que pode ser descarregado gratuitamente. Se não conseguir diretamente, o endereço é http://ide.itesm.mx/archivos/libro_del_fracaso.pdf

Imagem de Amostra do You Tube

Falar do fracasso ajuda a perder o medo. O medo do fracasso sempre vai estar presente e simplesmente temos de aceitar a viver com ele

 

Exemplo

A criação do Fuck Up Night e do Instituto do Fracasso veio anos depois de Leticia ter fracassado como empresária.  Em 2006, quando aind estudava na Universidade Marista, do México, ela criou uma empresa social, com o objetivo de ajudar as mulheres indígenas de Sierra Negra de Puebla a comerc ializar os seus bordados. A empresa fracassou. Segundo ela, o mais difícil foi contar às mulheres que o projeto não tinha dado certo. “Apesar de a ideia ter sido premiada pelo Banco Mundial e pelo governo mexicano, a empresa teve de ser fechada. Aceitar esse fracasso me levou meses. Depois de assimilar essa ideia e de ser capaz de dizer a mim mesma ‘Leti, a tua empresa é um fracasso’, foi mais fácil contar isso para o resto do mundo”, disse.

Um cartão postal para um desconhecido

Por José Manuel Lourenço em 27/07/2017

Hunter Franks é um artista norte-americano, cujos trabalhos são ligeiramente diferentes daqueles a que estamos acostumados. Ele “cria arte que intervém na paisagem física e social dos nossos espaços urbanos”.

A ideia por trás disso é, ao mesmo tempo, simples e poderosa: quebrar barreiras e ajudar as pessoas a repensarem os seus relacionamentos entre si, com os vizinhos e, claro, com as cidades onde vivem.

Hunter Franks, artista norte-americano, que trabalha com intervenções em espaços urbanos

Entre os projetos que criou estão, por exemplo, um jantar para mais de 500 pessoas em uma autoestrada, na região de São Francisco – onde mora -, um grande painel público onde qualquer um pode contar a história do seu primeiro amor ou a utilização de um armazém vazio e abandonado como espaço de integração comunitária. (Neste link (http://www.hunterfranks.com/#/street-art/), você pode conhecer alguns desses projetos).

Uma das ideias mais interessantes de Franks chama-se Neighborhood Postcard Project (Projeto Cartões Postais da Vizinhança).

Imagem de Amostra do You Tube

A coisa toda começou em 2013, a partir do contato que teve com alguns jovens da região Bayview, em São Francisco. Na ocasião, o local enfrentava  desafios bastante sérios em termos de criminalidade, desemprego e uso de drogas. No entanto, a mensagem que os jovens queriam passar para Franks tinha a ver com a necessidade de mudar a percepção que os demais moradores de São Francisco tinham de Bayview.

O que impressionou o artista foi que, mesmo tendo a oportunidade de tentar parar a onda de violência naquela região, o que os jovens locais queriam, de fato, era que as pessoas não os vissem – e aos demais moradores de Bayview – como pobres e perigosos, só por morarem naquela região da cidade.

Entre uma conversa e outra, a saída encontrada por Hunter Franks e esse grupo de jovens foi a criação do projeto Cartões Postais da Vizinhança. A ideia é fazer com que moradores de diversos pontos da cidade contem histórias positivas das regiões onde moram (como são, fisicamente, esses locais, que tipo de música escutam, que livros estão lendo, atividades que desenvolvem etc.) e, em seguida, enviem esses cartões para moradores de outros bairros, escolhidos aleatoriamente.

O detalhe é que, preferencialmente, o destinatário do cartão seja alguém que more em uma região cultural e etnicamente distinta daquela em que vive quem enviou o cartão. O objetivo, segundo Franks, é acabar com os estereótipos e, ao mesmo tempo, fortalecer os laços de comunidade.

“Nós pedimos às pessoas de uma determinada região da cidade que escrevam sobre o seu dia a dia no verso de um cartão postal, que nós providenciamos. Vamos dizer, por exemplo, que estejamos em Bayview, onde os moradores têm uma situação financeira menos favorecida e onde a diversidade étnica é maior do que em outras região da cidade. Então, nós encorajamos essas pessoas a escreverem sobre a suas vidas em um cartão postal e o enviamos para moradores de outra região, como Pacific Heights, que é uma das mais ricas de São Francisco. Às vezes, o destinatário do cartão postal entra em contato conosco para marcar um encontro com quem o enviou, algo que nós encorajamos e procuramos fazer o meio de campo. Em muitos casos, o que se percebe é que essas duas pessoas descobrem muitas coisas em comum, como estarem lendo o mesmo livro ou algo assim”, disse em entrevista ao Los Angeles Times, em 2014.

Abaixo, você pode assistir a um vídeo onde Frank sobre o projeto. (Ligue a opção legendas, na parte inferior do vídeo para acompanhar a palestra com a descrição em inglês)

Imagem de Amostra do You Tube

Atualmente, o Neighborhood Postcard Project já se estendeu a diversas cidades dos Estados Unidos e a cidades em outros países, como Santiago (Chile) e Chennai (Índia). É uma ideia simples, de custo baixíssimo, mas que pode ser bastante eficiente para o fortalecimento dos laços comunitários. Em uma cidade socialmente desigual, como Ribeirão Preto, poderia ser uma boa iniciativa para fazer com que os dois extremos da cidade pudessem ter uma visão menos preconceituosa um do outro.

Por que não adotá-lo por aqui?

Bom, bonito e barato

Por José Manuel Lourenço em 18/06/2017

Em comemoração pelos 161 anos de Ribeirão Preto, a edição impressa de hoje (19/6) do jornal A Cidade tem um caderno especial com algumas soluções – simples e baratas – que podem ser adotadas pela administração municipal. A ideia é mostrar que é possível tornar uma cidade mais agradável e e funcional sem que se gastem milhões. No fundo, tudo se resume à seguinte dúvida: temos gestores públicos que sabem da importância do uso de políticas inovadores e criativas em tempos de crise?

Essa introdução tem a ver com um texto publicado há um ano no portal Citylab, a respeito de uma solução simples e fantástica utilizada no metrô de Nova York. Nas três paradas da estação da Segunda Avenida, todo o espaço interno do local foi decorado com obras de arte, entre eles um mural do artista brasileiro Vik Muniz e uma imagem maravilhosa do genial músico e compositor, Lou Reed (1942-2013). Afinal, existe algo mais novaiorquino do que Reed e as estações de metrô? Cerca de 200 mil pessoas por dia passam pela estação diariamente.

O artista brasileiro Vik Muniz, ao lado do mural exposto na estação da Segunda Avenida, em NY

O artista brasileiro Vik Muniz, ao lado do mural exposto na estação da Segunda Avenida, em NY

As obras de arte no metrô da Segunda Avenida se tornaram a primeira exposição permanente desse tipo na história do estado norte-americano. A declaração do governador Andrew Cuomo diz muito a respeito da visão de um homem público sobre a importância da cultura para uma comunidade. “A estação de metrô na Segunda Avenida dá ao novaiorquinos um museu subterrâneo e, ao mesmo tempo, homenageia o nosso legado de construir maravilhas da engenharia que elevam a experiência humana”, disse em entrevista ao Citylab.

Mural com imagem do músico e compositor Lou Reed

Mural com imagem do músico e compositor Lou Reed

Um dos murais presentes na estação de metrô da Segunda Avenida

Um dos murais presentes na estação de metrô da Segunda Avenida

A exposição no metrô de Nova York mostra que é, no mínimo, razoável, a ideia de se divulgar arte no cotidiano das pessoas em uma cidade. Uma caminhada pelas diversas estações de Lisboa, por exemplo, equivale a uma verdadeira aula sobre a cultura e a história do país. Na estação Aeroporto, por exemplo, murais com caricaturas de personalidades como Fernando Pessoa, Amália Rodrigues, Eusébio e a poetisa Sophia de Sophia de Mello Breyner recebem os visitantes.

Afinal, por que não se usar espaços desse tipo em Ribeirão Preto, para divulgar a produção e artistas locais consagrados, como Francisco Amêndola ou Odila Mestriner? Aliás, indo até mais longe, porque não usar espaços como o próprio aeroporto, terminais e pontos de ônibus, praças, prédios públicos, ruas (sim, o asfalto pode ser um ótimo local de exposição de uma obra de arte), calçadas, muros, árvores, postes de iluminação elétrica, entre outros locais, para divulgar o trabalho de pintores, escritores, músicos – sim, músicos – poetas ribeirão-pretanos? E se cada ponto de ônibus tivesse trechos de livros de acadêmicos locais a respeito da história de Ribeirão Preto? E se, do lado externo de cada prédio tombado pelo patrimônio municipal houvesse cartazes, desenhos, fotografias sobre a história desse prédio?

Concordo que existem algumas iniciativas interessantes, como o trabalho de Bassano Vaccarini no Mercado Municipal ou em um restaurante do Centro de Ribeirão. Mas é pouco.

Sinceramente, não me parece que sejam ideias de difícil execução ou que levem à bancarrota as contas do município. Por que isso não é feito? Bem, talvez faltem vontade para executá-las ou uma visão diferente dos nossos homens públicos em perceber que a cultura traz vida à cidade, instiga os seus moradores e, em muitos casos, traça o caminhos que fortalecem a nossa própria identidade. Talvez nós, comunidade, tenhamos uma certa preguiça de tomar a iniciativa e comodamente deixar tudo nas mãos do poder público e, do conforto dos nossos lares, nos restrinjamos a criticar, sem oferecer alternativas. Pode ser. Mas, é preciso que a cidade comece a ser pensada de forma diferente, por nós e por aqueles que elegemos para torná-la melhor.

Que tal usar o dinheiro do IPTU para fazer com que a população escolha onde quer que ele seja gasto?

Por José Manuel Lourenço em 21/05/2017

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Qual a melhor forma de se gerir uma cidade? Provavelmente, não há uma receita pronta. Mas, parece ser algo evidente que, se esse processo envolver o maior número de pessoas, tudo fica mais fácil.

Um dos melhores exemplos da criação de mecanismos que aumentem a participação popular na gestão de uma cidade – e nos atos de uma administração pública – ocorreu a partir do final da década passada, em Canoas. O município de cerca de 350 mil habitantes, localizado na Grande Porto Alegre, criou uma série de ferramentas destinadas a fazer com que o processo de tomada de decisões se tornasse mais democrático.

Uma delas chama-se Bairro Melhor e é absurdamente simples. A base de tudo são projetos elaborados por entidades locais (podem ser associações de bairro, ONGs, etc.), que buscam melhorias para áreas específicas, como a aquisição de mais camas hospitalares, construção de um centro cultural ou a revitalização de uma praça.

Programa-melhor-bairro1

A partir daí, os contribuintes do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), que pagarem a cota única podem direcionar até 50% do valor para qualquer um dos projetos que forem selecionados por uma comissão técnica. Em contrapartida, o contribuinte recebe um desconto no pagamento do imposto.

A metodologia do Bairro Melhor funciona da seguinte maneira:

  • a prefeitura lança um editar para a seleção dos projetos que, necessariamente, terão de ser de interesse público e de uso coletivo. Além disso, as ideias têm de estar vinculadas a alguma entidade, de maneira a que possam ser feitos convênios com a administração municipal;
  • os projetos são selecionados por uma comissão, integrada por representantes da prefeitura, sociedade civil e submetidos a votações feitas pela internet; os mais votados – geralmente entre oito e dez – são os escolhidos;

De acordo com o portal Cidades Sustentáveis, em 2015, 23 entidades de Canoas apresentaram projetos para o Bairro Melhor. Desses, oito foram selecionados.

Outro programas

O Bairro Melhor é um dos treze programas criados durante a gestão do prefeito Jairo Jorge da Silva (PT/2009-2012/2013-2016). O Sistema de Participação Popular Cidadã, como foi chamado o conjunto de programas, foi dividido em cinco grandes áreas, cada uma formada por uma ou mais ferramentas: colaborativas (Ágora em Rede), elaboração estratégica (Congresso da Cidade, Plano Plurianual e Planos Setoriais), concertação (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social e Casa dos Conselhos), demandas coletivas (Polígonos Empresariais, Orçamento Participativo, Plenárias de Serviços Públicos e Bairro Melhor) e, finalmente, demandas individuais (Prefeito na Estação, Prefeitura nas Ruas e Audiência Pública).

Clicando aqui, você pode ter acesso à descrição detalhada de cada uma dessas ferramentas.

Governos locais e a valorização dos espaços públicos

Por José Manuel Lourenço em 07/05/2017

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“O que define o caráter de uma cidade é o seu espaço público, não o privado. O que define o valor dos bens privados nesses espaços não são os os bens em si, mas os que são comuns, públicos. O valor desses ativos públicos, desses bens públicos, afeta o valor dos bens privados. Nós precisamos deixar claro, todos os dias, que os bens públicos são um ativo para as cidades” (Joan Clos i Matheu, diretora-executiva da Habitat, das Nações Unidas)

Na semana passada, falamos sobre um artigo velhinho velhinho (2012), publicado pelo arquiteto Eduardo Souza no  ArchDaily Brasil,  e que apontava dez dicas para melhorar os espaços públicos das cidades. O foco, no texto que publicamos neste Uma Ideia de Cidade, foi a importância do papel das lideranças locais como forma de se melhorar a vida nas cidades.

O texto do ArchDaily Brasil teve como base um trabalho da ONG norte-americana PPS (Projects for Public Spaces), na época ainda em forma de rascunho, chamado “Placemaking and the Future of Cities”. Você pode descarregá-lo aqui, em inglês, no formato PDF.

É um texto que vale a pena ser lido com alguma atenção, porque coloca questões interessantes e que poderiam ser utilizadas como pano de fundo para discutirmos de que forma algumas poderiam ser aplicadas em Ribeirão Preto. É, sobretudo, um manifesto em defesa do uso dos espaços públicos como forma de se tornar a vida nas cidades mais agradável e, ao mesmo tempo, reforçar o senso de comunidade.

Por que o espaço público é importante?

Isso fica claro desde a Introdução, chamada “Por que o espaço público é importante”.  Abaixo, seguem alguns trechos dela:

  • Criar cidades saudáveis, inclusivas, funcionais e produtivas talvez seja o maior desafio a ser enfrentado atualmente pela humanidade. Não existem soluções fáceis e uma parte importante desse quebra-cabeça está no coração das áreas urbanas: os espaços públicos.
  • Espaços públicos saudáveis são o trampolim para a revitalizar comunidades, não importa onde estejam ou que formato assumam.
  • Espaços públicos são um ingrediente vital para qualquer cidade que se pretenda bem-sucedida. Eles ajudam a criar um senso de comunidade, identidade cívica e cultura. Espaços públicos tornam mais fácil o surgimento do capital social, desenvolvimento econômico e a revitalização de uma determinada comunidade.
  • Todas as comunidade têm espaços públicos, mesmo que isso não seja percebido em um primeiro momento. Às vezes são bastante óbvios, como um parque, um boulevard circundado por calçadas ou um grande praça central cercada por edifícios públicos. Mas espaços públicos também são os que encontramos entre áreas privadas e nem sempre reconhecidos ou tidos como espaços públicos. Becos, pátios e escadarias podem escapar à nossa percepção. Não obstante, eles estão entre os bens mais subutilizados de uma cidade e um dos potencialmente mais valiosos. Pelo fato de pertencerem a todos, eles são vistos como sendo de ninguém. Mas, se forem apropriados e trabalhados podem ser instrumentos importantes para fortalecer e enriquecer as comunidades.

Grande parte das afirmações deixa subentendido o papel que o poder público municipal tem na valorização dos espaços públicos e, mais ainda, na necessidade de transformá-lo em locais de convívio social e das diferenças. No entanto, não basta criar  tais espaços, mas fazer com que, desde a sua criação, durante o seu processo de planejamento, tenham uma finalidade.

O que nos leva à dica nº 10 da publicação do PPS, que fala sobre os governos locais.

Talvez o principal ponto a ser mudado esteja na própria estrutura dos governos. Infelizmente, os governos não estão estruturados para dar algum tipo de suporte aos espaços públicos. Raramente existe alguém, na estrutura oficial de poder, que esteja ativamente engajado na criação de um espaço público bem-sucedido. Não somente não existem indivíduos ou secretarias focados nos espaços públicos, como o governo, como um todo, não busca, de forma explícita e como um fim, espaços públicos bem-sucedidos. Na verdade, segundo o estufo da ONG norte-americana, a estrutura da maioria das secretarias municipais e a burocracia existente acabam sendo verdadeiros empecilhos à criação de espaços públicos de sucesso. As secretarias de Transportes vêem a sua missão em termos puramente de tráfego; os departamentos de parques estão lá para criar e administrar áreas verdes; agências de desenvolvimento comunitário estão focadas no desenvolvimento de projetos, não no espaço entre eles.

Se o fim último de um governo é criar locais, comunidades e regiões mais prósperas, civilizadas e atrativas para as pessoas, então os processos precisam mudar parta refletir essa meta. Isso exige que a construção da cidade seja feita de maneiras mais consensuais e que as consultas feitas pelos cidadãos e as reformas institucionais ocorram de maneira a fortalecer a cidadania e a inclusão.

Efetivamente concebidos e administrados, os espaços públicos demandam o envolvimento de parceiros da sociedade civil, como as ONGs. Mas, enquanto a melhorias desses espaços públicos pode ir ao encontro dos objetivos das ONGs e fundações, a própria sociedade civil precisa encontrar formas de colaborar de maneira mais efetiva com o governo.

Ou seja, a mudança passa pelos governos locais. Mas, ao mesmo tempo. é importante que a sociedade seja não apenas fiscal dessas ações mas que trabalhe, ao mesmo tempo, como parceira e corresponsável  dessas mesmas ações.

O papel das lideranças locais em projetos de ocupação dos espaços públicos

Por José Manuel Lourenço em 30/04/2017

EspacosPublicos

Esta semana, procurando alguma coisa interessante para publicar no blogue, dei de cara com um texto antigo do ArchDaily Brasil, que tem tudo a ver com o espírito deste espaço.

Publicado em 2012, o artigo foi escrito pelo arquiteto urbanista Eduardo Souza e tem um título autoexplicativo: Dez Dicas para Melhorar os Espaços Públicos.

O texto de Souza fala, por exemplo, de conversão de ruas em calçadões, construção de economias locais através de políticas de incentivos a mercados urbanos, uso integrado de edifícios com os seus entornos e o uso de ideias pequenas, simples e baratas como exemplos de fortalecimento do sentimento comunitário e de relações mais sólidas com a cidade.

Uma delas me chamou a atenção – e foi difícil não lê-la tendo em vista a realidade de Ribeirão Preto: a necessidade de as organizações comunitárias se reinventarem. Leia, a íntegra de cada dica:

No momento de projetar certos setores das cidades, é vital levar em conta as aspirações de quem fará parte dela – os moradores locais. Por isto é necessário capacitar os membros das organizações civis ensinando-lhes a importância histórica dos lugares que habitam, as funções que deveriam cumprir para satisfazer certas necessidades e como reconhecer quando um lugar é atrativo para as pessoas. Com isto, gerar-se-ia um sentido de pertencimento nos membros das organizações, que se beneficiariam de novas motivações para apresentar suas propostas para as instituições governamentais envolvidas, como atores sociais relevantes (grifo meu). Cabe mencionar que os espaços públicos devem ter a capacidade de evoluir com o tempo, tendo em mente as aspirações da comunidade, para que se torne um grande destino.

Duas palavrinhas apontam o caminho para que a ocupação dos espaços públicos possa se tornar um dos elementos mais importantes para a transformação positiva das cidades: capacitação de cidadãos-chave e a criação de um sentimento de pertencimento do morador com a sua comunidade. Sobretudo, a forma como uma leva à outra.

Lideranças locais

A importância desses membros das organizações civis é maior do que se pode supor. São líderes locais que têm a capacidade de, com as suas ações, transformar o local ou as áreas específicas em que atuam.

O problema é que, na prática, isso raramente ocorre. Isso porque, em alguns casos, o poder público não lhes permite (direta ou indiretamente) a ocupação de espaços para que possam atuar; em outros, porque essas lideranças acabam por adotar práticas clientelistas, que têm muito mais a ver com a satisfação de interesses particulares, específicos, do que com os anseios da comunidade que representam.

Ribeirão Preto

Curiosamente, em Ribeirão Preto, não se pode reclamar da inexistência de espaços institucionais para a atuação de lideranças comunitárias. Afinal, o que não falta à cidade são conselhos municipais. No entanto, em grande parte, são apenas figuras decorativas, que têm parte da sua estrutura dominada por integrantes do poder público, o que por si só já põe em xeque a legitimidade das suas ações.

Além disso, um dos pré-requisitos para o seu bom funcionamento – a exposição pública do trabalhos, poucas vezes é atingida. Este ano, uma matéria do jornalista Cristiano Pavini, do jornal A Cidade, mostrou que os conselhos municipais são tudo, menos transparentes.

Entender, fortalecer e fiscalizar os trabalhos dessas lideranças locais é uma condição fundamental para que os próprios conselhos retomem a função para a qual foram originalmente criados: trabalhar em conjunto com o poder público na detecção de problemas da cidade e, sobretudo, apontar caminhos que levem à solução dessas questões.

Project for Public Spaces

O texto de Eduardo Souza para o ArchDaily Brasil tem como base um rascunho feito pela organização não-governamental e sem fins lucrativos, “Project for Public Spaces”. O objetivo dessa ONG norte-americana, fundada em 1975, é auxiliar as pessoas a criar e manter espaços públicos de maneira a fortalecer as comunidades.

No item “Reinventado o Planejamento Comunitário”, o texto da ONG explica que, quem mora em uma diversa área, é quem conhece melhor os problemas e desafios do local. Por isso, a organização sustenta que o ponto de partida para o desenvolvimento de qualquer agenda ligada ao espaço público deveria ser a identificação dos talentos dentro de uma comunidade. Ou seja, pessoas que possam fornecer uma perspectiva histórica e dar dicas a respeito de como as coisas funcionam e do que é realmente importante para a comunidade onde estão inseridos.

Para a ONG, a identificação de lideranças locais no início desse processo vai auxiliar na criação de um sentimento de pertencimento e de ligação com o projeto, o que pode garantir o seu sucesso por vários anos.

Parcerias

Além da identificação dessas lideranças locais, o texto da Project for Public Spaces destaca as parcerias como algo vital para o sucesso de qualquer projeto de melhoramento de espaços públicos. Entre os grupos citados estão instituições locais, museus, escolas, associações formais ou informais de moradores, associações de classe e de lojistas.

Isso pode ser feito em Ribeirão Preto? Pode. Mas, na minha opinião, seria extremamente importante que isso acontecesse, em um primeiro momento, à margem do poder público. A relação com a administração municipal deve ocorrer da forma mais horizontal possível e isso só pode acontecer se quem estiver do outro lado tiver poder suficiente para poder negociar.

Não é o caso de se excluir o poder público desses projetos, longe disso, porque ele é, ao mesmo tempo, parte do problema e da solução. Mas é importante que fique claro que ele é uma das partes.

Como disse acima, isso pode acontecer em Ribeirão Preto. Vai acontecer? Só se essa comunidade conseguir se unir para ter força suficiente para poder negociar com o poder público. Até hoje, não me lembro de que algo desse tipo tenha acontecido.

O que você vai ler na próxima semana

O texto de Eduardo Souza, que teve como base o trabalho do Projec for Public Spaces, traz dicas muito interessantes para serem conhecidas e discutidas. Na próxima semana, a minha ideia é apresentar uma das sugestões mais importantes que o trabalho apresenta, que a necessidade de se reestruturar a administração local de forma de se garantir o sucesso de projetos ligados aos espaços públicos. Espero que vocês gostem. Até lá.

Desenhando um Manual de Planejamento para os jovens de Chicago*

Por José Manuel Lourenço em 23/04/2017

Ilustração do livro No Small Plans

Ilustração do livro No Small Plans

Um projeto criado pela Fundação de Arquitetura de Chicago quer desenvolver o espírito de participação de estudantes no processo de planejamento da cidade. O modo utilizado para se conseguir viabilizar a ideia foi um livro de três volumes, em quadrinhos, onde cada um deles relata as experiências de um ou mais jovens em determinados períodos da história da cidade (1928, 2017 e 2211).

A autora da ideia foi a vice-presidente de Educação da entidade, Gabrielle Lyon, a partir de um livro escrito em 1911, chamado Manual de Wacker. O texto teve como base uma espécie de plano diretor da cidade, escrito em 1909 por Daniel Burnham e Edward H. Bennett.

Plano de Chicago

Plano de Chicago, elaborado em 1909 por Burnham e Bennet

O Manual Wacker vem sendo utilizado como texto de leitura para os alunos da 8ª série nas escolas de Chicago e, com o passar dos tempos, foi sendo atualizado. Mas o manual também é um dos livros usados pela Fundação de Arquitetura local em diversas discussões sobre planejamento urbano, que envolvem estudantes convidados a participar de conversas e projetos com arquitetos, planejadores urbanos e designers, em geral.

Dessas conversas, surgiu a pergunta, feita pelos alunos: por que não existe uma versão atualizada do Manual Wacker, que também esteja voltada para os jovens da cidade?

A resposta a essa questão foi um texto dirigido por Gabrielle Lyon, chamado No Small Problems. A novidade é o formato em quadrinhos e a reunião de três visões sobre o planejamento da cidade em três momentos: na primeira parte do livro, passada em 1928, três amigos de diferentes raças e classes sociais convivem com a discriminação, por parte dos demais moradores, quando planejam passar uma tarde juntos no Centro; a segunda parte, passada em 2017, discute questões como gentrificação e disponibilidade de moradia, ao contar a história de uma menina cuja família está para ser despejada; por fim, na última seção, passada em 2211, cinco alunos são convidados a participar do Conselho de Planejamento da cidade e a apresentar propostas que envolvam as relações de vizinhança. Para que essas propostas se tornem possíveis, eles percebem que o melhor caminho é se envolver pessoalmente na comunidade para descobrir quais são as suas reais necessidades.

Um dos pontos destacados por Gabrielle Lyon tem a ver com um problema comum nos Estados Unidos. Segundo ela, a compreensão sobre quem está por trás do planejamento da cidade é particularmente importante para os alunos de cor, assim como aqueles que vêm de famílias pobres ou as que têm no inglês a segunda língua.

Para Gabrielle, esses adolescentes, geralmente, estão em escolas que trabalham com poucos recursos e pouquíssimas oportunidades para interagir com representantes do poder público ou participarem da vida cívica. Como adultos, eles estariam menos propensos a votar, entrar em contato com os eleitos ou se envolver no ativismo coletivo.

(*) Título retirado do texto original do CityLab, “Drawing Up an Urban Planning Manual for Chicago Teens”. O texto original pode ser encontrado aqui.

Envelhecer melhor e com mais qualidade de vida, em Madrid!

Por José Manuel Lourenço em 03/04/2017

Idosos e solidao

Região de Madri cria plano de moradia compartilhada para cidadãos da terceira idade

Há duas semanas, o jornal espanhol La Vanguardia informou que a Prefeitura de Madrid pretende destinar 6,8 milhões de euros (cerca de R$ 22 milhões), nos próximos quatro anos, para viabilizar um plano destinado à Terceira Idade. Chamado de “Estrategia de Atención a las Personas Mayores”, o plano tem cinco grandes eixos e 129 medidas, entre elas a criação de um programa de moradia compartilhada para que os idosos possam se ajudar mutuamente.

Segundo o governo de Madrid, a ideia principal é fazer que, com isso, seja combatido um dos maiores problemas que afetam os seniores, a solidão. Ao mesmo tempo, a criação das moradias compartilhadas também implicaria na redução de custos para os cofres públicos e daria ao poder público maior controle sobre a situação dos seus idosos.

Atualmente,a região de Madri concentra cerca de 1,1 milhão de pessoas com mais de 65 anos, dos quais um terço acima dos 80 anos. A presidente do Conselho da Região de Madri, Cristina Cienfuentes, afirmou ao La Vanguardia que esse número pode subir com o aumento da expectativa de vida dos idosos.

Os cinco eixos da Estrategia são o seguintes: promover o envelhecimento ativo e prevenir situações de dependência; medidas de atenção a seniores em situações de dificuldades sociais; criar um catálogo de serviços para pessoas em situação de dependência; melhorar a coordenação sócio-sanitária em ações que envolvam atenção à dependência; por fim, desenvolver uma organização integrada e inovadora na prestação de serviços públicos.

Moradia compartilhada

Um dos principais destaques do plano de Madrid para os idosos é a moradia compartilhada. Segundo o La Vanguardia, a casa a ser dividida deverá ser de um dos idosos interessados em participar do programa. O imóvel deve ser de propriedade do idoso, onde more, deve estar em boas condições e ter espaço suficiente para ser compartilhado.

Por sua vez, quem quiser viver em uma dessas casas não pode ser proprietário de algum imóvel – ou, se for, que esteja em condições impróprias de habitação – e deve viver na região, no mínimo, um ano antes do pedido feito para poder participar do programa.

A ideia, segundo Cristina Ciefuentes, é fazer com que os seniores encontrem companhia, mas também possam dividir serviços, como limpeza, transporte ou assistência sanitária no local).

Semáforos para viciados em celulares

Por José Manuel Lourenço em 26/03/2017

Celular na rua

Uso de celular nas ruas pode estar causando o aumento no número de mortes de pedestres

A cidade de Rosario, na Argentina, tornou-se a primeira do país a tentar resolver um problema que já começa a preocupar os gestores públicos: o crescente número de pedestres que são atropelados, após atravessarem as ruas distraídos, enquanto falam ao celular.

A solução encontrada foi criar uma série de semáforos no chão, para que os viciados em falar em telefones celulares enquanto caminham pelas ruas possam saber qual o momento mais apropriado para atravessá-las.  A novidade entrou em funcionamento esta semana. Clique aqui para ver uma reportagem da televisão argentina sobre a solução de Rosario.

O semáforo é formado por pequenos quadrados no chão, com cerca de 40×40 cm, cujas cores variam do verde ao vermelho, de acordo com a intensidade do tráfego. Eles estão conectados ao semáforos tradicionais.

Segundo a Prefeitura de Rosario, a solução foi adotada depois que as mortes de pedestres começaram a se tornar um problema sério para a cidade. De acordo com informações da administração, dos cerca de 3,7 mil acidentes de tráfego registrados em 2016, mais de 200 envolveram pedestres.

O autor do projeto, o conselheiro municipal Horacio Ghirardi, disse que a cidade já começa a se preocupar com a quantidade de usuários de celulares, distraídos nas ruas. “O uso constante de telefones enquanto se caminha pelas vias públicas se transformou em um hábito, seja para ler textos ou escrever mensagens, o que em determinadas circunstâncias, como cruzar uma rua, pode ser um risco”, disse Ghirardi ao portal latino  Infobae.

De acordo com o portal CityLab Latino, autor da notícia, Rosario não é a única cidade a ter de conviver com esse tipo de situação. De acordo com um estudo de 2015, diversas cidades dos Estados Unidos também registram aumento do número de mortes de pedestres, depois de décadas de queda. O mesmo estudo apontou que o uso crescente de celulares pode ser o motivo que explica esse aumento.

O trabalho foi desenvolvido pela Governors Highway Safety Association, mas já não está disponível no site da associação. No entanto, um texto sobre ele pode ser encontrado no site da ABC News