Minha inglesa romântica preferida

Por Silvia Pereira em 21/04/2018

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Falar sobre meu primeiro modelo de heroína do cinema no último post me despertou uma vontade danada de continuar compartilhando minhas mais deliciosas descobertas proporcionadas pela sétima arte.

Em meu ranking emocional, tão importante quanto descobrir uma heroína feminista na Princesa Lea de George Lucas foi encontrar-me, através de uma adaptação cinematográfica, com a dramaturgia da escritora inglesa Jane Austen.

Após assistir a “Razão e Sensibilidade”, adaptada (pasmem!) pelo taiwanês Ang Lee para o cinema, com roteiro da inglesa (claro!) Emma Thompson (adoro!), reincorporei a persona da “viciada-em-busca-da-sensação-da-primeira-vez” que descrevi no último post. Devassei sites de literatura brasileiros atrás de romances da autora.

MAAAAS… naquela década de 1990, para minha inconsolável frustração, o único título traduzido para o português da inglesa era “Orgulho e Preconceito” e (ai de mim!) ainda não dominava bem o inglês – aliás, embora eu tenha hoje edições bilíngues de todos os seus romances publicados, ainda não me arrisco a sequer tentar ler sua prosa em inglês, que já era bastante sofisticada para o século 18.

Até “cair a ficha” de editoras brasileiras do filão que estavam perdendo sem traduzir Jane Austen – o que foi acontecer só lá pelo final da primeira década de nosso século 21 -, tive de me contentar com adaptações as mais inusitadas de seus romances. Algumas das quais eu sequer suspeitaria que tinham origem em suas obras se não tivesse lido a respeito. Ex: “As Patricinhas de Beverly Hills”(Emma), “O Diário de Bridget Jones” (Orgulho e Preconceito), “Sem Prada Nem Nada”(Razão e Sensibilidade”)…

Eu sei, citei as piores acima! Mas o cinema está cheio de versões maravilhosas, mesmo quando não tão fieis aos livros, como “Palácio das Ilusões”, versão de 1999 de “Mansfield Park” assinada pela cineasta inglesa Patricia Rozema, que sensivelmente acrescentou no roteiro referências epistolares das irmãs Austen, que se escreviam compulsivamente durante suas curtas vidas (ambas morreram jovens e solteiras).

Já citei aqui “Razão e Sensibilidade”, de Ang Lee, que saiu no mesmo ano de minha versão preferida de “Persuasão” (1995), assinada por Roger Mitchell. Com atores nada famosos, mas muito fiel à obra original, é um de meus “filmes de cabeceira”, que gosto de rever uma ou duas vezes ao ano.

E, por incrível que pareça, a versão de um diretor estreante é a que mais gosto de “Orgulho e Preconceito” para o cinema: a de 2005, de Joe Wright, que torna-se, a cada nova produção, um diretor melhor – vide “Desejo e Reparação” (2007), o originalíssimo “Anna Karenina” de 2012, e o recente “O Destino de uma Nação”, que concorreu ao Oscar de Melhor Filme e rendeu o de Melhor Ator a Gary Oldman (merecidíssimo!).

Aliás, já repararam que minhas versões preferidas de adaptações da autora são de um ano terminado no número 5?

Por esta razão esperei ansiosa por alguma nova versão de um de seus romances em 2015… mas nada!

Então vou me contentando com adaptações para TV em forma de séries e longas que volta e meia a BBC lança. Nenhuma até agora superou os títulos que citei acima, mas… valem o tempo gasto.

Ah… e se está curioso para saber o que me atrai tanto na dramaturgia da autora, dê uma lidinha neste post de meu blog de literatura: “Uma Certa Inglesa Romântica”.

Depois corra ler ou assistir um de seus romances. Isto é… se você for, como eu, uma brasileira(a) romântica(o).

 

Links relacionados:
O Cinema e a TV Adoram Jane Austen
Depois de Orgulho e Preconceito
Pequenas epifanias de (mais) uma inglesa romântica

 

A próxima história ‘Star Wars’ (mal posso esperar!)

Por Silvia Pereira em 15/04/2018

Não podia deixar de compartilhar aqui o trailer que acabei de descobrir de “Solo: Uma História Star Wars”, que me fez ficar ansiosa para sua estreia, anunciada para 24 de maio.

Ok… o personagem de Han Solo na saga não me surpreendeu como a Princesa Leia, mas combinemos que é apaixonante e irresistível… aqueles “boas-praças” que amamos por nos fazerem rir e (esta é entre eu e as meninas) na pele de Harrison Ford, com seu carisma viril e cômico ao mesmo tempo, era um colírio para os olhos!

Ao trailer:

Imagem de Amostra do You Tube

Minha primeira heroína

Por Silvia Pereira em 31/03/2018

Photo by Sunset Boulevard/Corbis via Getty Images

Carrie Fisher como a princesa Leia no set de ‘Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança’

Não lembro quantos anos tinha quando assisti ao primeiro “Star Wars” da minha vida, mas sim o impacto que me causou. Você aí, viciado em qualquer coisa, conhece a sensação: aqueeela da primeira vez que experimentou o prazer que passaria a perseguir pelo resto da vida.

Eu era muito jovem, mas já uma cinéfila presunçosa o suficiente para achar que nenhum roteiro de cinema comercial me surpreenderia mais – vivia a adivinhar os movimentos seguintes das tramas e todos os finais, de tão familiarizada que estava com as fórmulas narrativas do cinemão.

Mas sabe como é viciado… continua “usando a droga” na esperança de reencontrar-se com aquela sensação da primeira vez.

A reencontrei várias vezes assistindo à primeira trilogia. Eu sei, vocês, millennials, que já foram torpedeados por todo tipo de simulacro, filmes-homenagens, referências (ou imitações mesmo) que vieram depois, devem achar tudo muito “manjado” hoje em dia, mas acreditem: praquela época, foi uma revolução!

Fui surpreendida em muitos aspectos, mas nada me deu mais prazer do que a personagem da princesa Leia.


Leia não precisava ser feminista, pois já sentia-se,
agia e era vista como igual pelo sexo oposto


Naquela década de 1980, eu estava acostumada a assistir mocinhas chorosas e frágeis no cinema e o máximo de “girl power” a que tinha acesso na dramaturgia era a Mulher Maravilha da TV – fortona, heroína, mas derretida por seu sargento Rogers e com um uniforme de maiô decotado e botas de cano alto (alguém aí já viu algum super-herói masculino mostrando a bunda?).

A princesa Leia era REVOLUCIONÁRIA total! Como assim uma heroína guerreira vestida até o pescoço, que nunca chorava ou pulava no primeiro colo masculino ante uma ameaça?

Leia não precisava ser feminista, pois já sentia-se, agia e era vista como igual pelo sexo oposto.

E o que foi aquela despedida dela de seu apaixonado Han Solo, prestes a ser congelado em carbonita e talvez morrer no processo!?! … Nenhuma gota de lágrima, nenhum lamento… E aquele “Eu Te Amo” … originalíssimo… sem a trilha sonora melosa de fundo ou o manjado beijo cenográfico!

E quando ela tenta salvá-lo e vira prisioneira?! … até de coleira no pescoço, acorrentada aos pés de um monstro nojento e babão, mandava pose de “fodona”!

SEN-SA-CIO-NAL!

Não foi a única inovação da franquia, claro (ainda escreverei sobre muitas outras), mas Leia foi a primeira heroína da telona que eu quis ser e – mais importante -, que me surpreendeu totalmente! E isso, meu amigo, pra cinéfilo… é ouro!

‘The Post’: registro essencial

Por Silvia Pereira em 18/02/2018

Tom Hanks e Meryl Streep (que concorre a sua 21ª indicação ao Oscar) em ‘The Post: A Guerra Secreta’

 

Nunca admirei ou tive vontades relacionadas aos Estados Unidos, mas uma inveja eu tenho desses “primos ricos” da América: a forma como sua imprensa resiste às pressões de poderosos e mantém o legado dos fundadores da Constituição para defender a liberdade de expressão – arrisco-me a dizer, o bem mais caro da democracia e sua mais eficiente ferramenta de manutenção.

Ao menos é isso o que nos fazem acreditar filmes como “Todos os Homens do Presidente” (sobre o escândalo Watergate, que culminou na renúncia do presidente Richard Nixon), “O Informante” (que desmascarou a indústria de cigarros); e agora “The Post: A Guerra Secreta”, concorrente em duas categorias do Oscar deste ano (Melhor Filme e Melhor Atriz para… adivinhe… Meryl Streep!).

Como os dois primeiros títulos citados, “The Post” narra uma história real, ambientada nos bastidores da imprensa norte-americana, que opõe um poder muito maior à liberdade de expressão de um veículo de comunicação.

A história começa com o jornal The Times publicando trechos de um relatório confidencial do governo que prova que os cinco presidentes anteriores dos Estados Unidos mentiram sobre a real situação do país na Guerra do Vietnã, que ceifou milhares de vidas de jovens americanos.

Acionado na Justiça pelo governo, sob alegação de ter atentado contra a segurança nacional, o Times é impedido de continuar publicando a história, à qual o The Post também acaba tendo acesso.

Resta à proprietária do The Post – já desacreditada por ser mulher e por ter herdado o negócio em circunstâncias nada ideais – a decisão de publicar ou não a história. Pesam sobre ela o fato de que, na mesma semana, o jornal abria seu capital na bolsa de valores para conseguir sobreviver financeiramente – o que significa que, enquanto empresa, poderia até fechar por insolvência se os bancos o considerassem um “mal negócio”.

Traduzindo: Katherine Graham (Streep) tinha a perder tudo; a ganhar, apenas um subjetivo sentimento de missão cumprida.

Todos sabemos como esta história acaba, até porque, real, está registrada em livros e jornais. Mas retratá-la em filme garante-lhe um alcance exponencial, no que reside uma das grandes missões do cinema: tornar a história verdadeira conhecida pelo maior número possível de pessoas… fazê-la exemplar, eterna.

Desta missão o diretor Steven Spielberg se desincumbe com louvor.

Como cinema, “The Post” não é assim uma obra-prima digna de prêmios, mas faz-se obrigatório de uma forma muito competente e honesta. O que não é pouco. Mais que isso: é essencial!

‘Blade Runner 2049’: uma experiência e tanto!

Por Silvia Pereira em 09/10/2017

A primeira coisa que chama a atenção sobre “Blade Runner 2049”, quando ainda se tem o primeiro filme fresco na memória, é a inesperada luz do dia nas primeiras cenas. Um dia nublado, em uma colônia agrícola fria, mas ainda “dia”.

Demora um pouco para nos reencontrarmos com a atmosfera noir futurista tão “familiar” do primeiro filme: uma Los Angeles sempre noturna, claustrofóbica, hiper adensada em suas construções de concreto e ferro e imagética porque poluída de letreiros e publicidades holográficas gigantes.

Nosso caçador de androides agora é K., um modelo Nexus 8 de replicante, pertencente a uma linhagem de última geração, que já não tem data definida para “aposentadoria” (leia-se morte) e caracterizada pela obediência. Como o Rick Deckard de Harrison Ford, sua missão é “aposentar” modelos antigos de replicantes, que tornaram-se ilegais. Mas se esta premissa é a mesma, o desenvolvimento a partir daí é bem outro, muito mais denso e elaborado que o do primeiro filme.

Na pele de K., Ryan Reynolds descobre um segredo sem precedentes sobre um certo modelo antigo, desaparecido há três décadas, e recebe de sua chefe na Polícia de Los Angeles (Robin Wright envelhecida, mas ainda uma presença forte na tela) a missão de eliminar todos os seus rastros.

O trabalho implica uma investigação que desperta a atenção de Niander Wallace, herdeiro da Tyrell Corporation, e passará pela busca por Rick Deckard, desaparecido há 30 anos.

Wallace, que ergueu um novo império baseado na agricultura sintétita, não herdou apenas o espólio da falida Tyrell, mas também a síndrome de “Deus” do antigo criador de replicantes, como descobriremos. Um deus cego, porém, o que é uma genial ironia ante toda a simbologia criada pela franquia em torno do olhar – pela pupila se desmascara um replicante, por exemplo.

 

Não é a única analogia do filme. Se o primeiro evocava o mito da criatura que se rebela contra seu criador, neste temos simbolizada em um androide um anseio humano muito característico deste novo século: a busca sobre si mesmo, suas origens.

E como romance não pode faltar, o de K. é um simulacro, que pode ser considerado uma metáfora das relações fluídas deste século de solidão coletiva forjada pelo fenômeno das redes sociais.

Há muitas outras por todo o filme, mas detalhar mais implicaria spoilers. As interpretações acima não comprometem em nada todas as surpresas que se tem ao longo de quase 3h de filme, que se passam sem nenhum tédio.

A imersão recebe uma grande ajuda da trilha sonora, que quase nem deve ser chamada assim, já que os sons que acompanham toda a história parecem-se muito pouco com música. O tempo todo ouvimos um barulho desconfortável, como de máquinas “gritando” – se máquinas pudessem fazê-lo.

O francês Dennis Villeneuve cuida muito bem do legado de Ridley Scott e entrega um filme, em minha opinião, muito superior ao original de 1982. Não só a história, mas efeitos, direção de arte – esta então bem menos confusa – também funcionam muito melhor, sem, no entanto, roubarem as cenas. A história é a estrela e isso é muito bom!

Livro policial de J. K. Rowling vira série

Por Silvia Pereira em 03/09/2017

Confesso que fiquei amedrontada quando soube que o primeiro romance policial de J. K. Rowling sob o pseudônimo de Robert Galbraith havia virado série – é que foi péssima minha experiência com a adaptação para a TV do primeiro livro adulto da autora de “Harry Potter: “Morte Súbita” teve sua cáustica história sobre a pequenez humana empobrecida pelo roteiro escrito para a telinha. Por favor, não percam tempo com “aquilo”!

Mas “The Cuckoo’s Calling” – “O Chamado do Cuco” no Brasil -, se não me entusiasmou tanto quanto o excelente livro que o inspira, ao menos se deixou assistir com grande interesse.

Com uma boa ajuda da trilha sonora, o clima dos episódios é o correto para uma dramaturgia de mistério e os atores (Tom Burke e Holliday Grainger) são OK, mas é claro que há perdas na transposição da saborosíssima e esquemática narrativa de Rowling-Galbraith para a linguagem audiovisual!

Por exemplo, os episódios não sugerem com a mesma classe e sutileza do texto do livro a dubiedade que desde o início ronda a relação do detetive-ex-herói-de-guerra Cormoran Strike com sua nova secretária, Robin Elacott. Também ignora as pistas que a autora dá de um segredo de Robin que só será revelado lá no terceiro livro e do quanto a relação do detetive com a ex-noiva egocêntrica era destrutiva.

São sutilezas que enriquecem a leitura e nos torna ao mesmo tempo cúmplices da autora e torcedores dos personagens. A moça sabe contar uma boa história!

E pensar que ela escondeu-se atrás do codinome masculino no primeiro livro dessa série policial para que sua fama como autora de Harry Potter não influenciasse o desempenho da obra… Nem precisava!

Como podem perceber, não gosto pouco da prosa de miss Rowling

A propósito, o subtítulo “The Strike Novels” da série dá a pista de que a adaptação não vai parar no primeiro livro sobre o detetive. Depois de “O Chamado do Cuco”, vêm “O Bicho-da-Seda” e “Vocação do mal”.

Tenho todos. Recomendo!

 

 

 

 

‘Dunkirk’: cinema de imersão da melhor qualidade

Por Silvia Pereira em 05/08/2017

Christopher Nolan fez de novo.

Com “Dunkirk”, drama de guerra sobre episódio real da Segunda Guerra mundial – a evacuação de mais de 300 mil soldados ingleses de praia de Dunquerque, na França, durante cerco do exército alemão -, volta a proporcionar cinema de imersão da melhor qualidade. Faz valer a pena deixarmos o conforto de nossas casas, com telas de alta definição, para nos internarmos dentro de uma sala escura de cinema por um ingresso já nada barato.

E olhe que desta vez o diretor saiu de sua, digamos, “zona de conforto” – se é que se pode chamar assim materializar na tela roteiros esquemáticos, cheio de cenas fantasiosas, como os de “A Origem” e “Batman – O Cavaleiro das Trevas”. Digo conforto referindo-me a todo o suporte de efeitos especiais e atuações memoráveis de alguns dos mais bem pagos atores da indústria, que ajudavam a “garantir o show” nos títulos citados.

Em “Dunkirk” os poucos efeitos especiais não visam criar ilusões ou sensações, mas reproduzir um episódio real com a máxima fidelidade. E o elenco, apesar de contar com medalhões aqui e ali, em papéis coadjuvantes – Kenneth Branagh como um oficial que comanda a evacuação, Tom Hardy como um piloto heroico, por exemplo -, é capitaneado mesmo por atores semi-desconhecidos e/ou estreantes. Harry Styles, da banda One Direction entre eles.

Também ao contrário das produções anteriores do diretor, “Dunkirk” não acompanha a jornada de um herói. Há vários, mas nenhum com superpoderes – bem ao contrário. Confrontados pela iminência da morte em batalha, estão todos com suas fragilidades expostas, o que dá a pequenos gestos de humanidade grandes dimensões.


Também ao contrário das produções anteriores do diretor,
“Dunkirk” não acompanha a jornada de um herói. Há vários,
mas nenhum com superpoderes – bem ao contrário.


É heroica a forma como o dono de uma das embarcações civis convocadas pelo exército inglês para buscar os soldados não hesita em levar o filho que lhe restou para uma missão com perigo de morte. Também heroicas as decisões do piloto do único avião inglês que permanece no ar tentando proteger a evacuação dos soldados por mar.

Mas também há decisões de um egoísmo desesperado entre as várias histórias contadas dentro da grande história da evacuação. – sim, também é um roteiro intrincado, com idas e voltas no tempo para mostrar diferentes pontos de vista de um mesmo momento da batalha, mas de que, novamente, Nolan se desincumbe muito bem, sem confundir (demais) o espectador atento.

E não tem como não ficar atento. O ritmo do filme hipnotiza a atenção, para o que tudo contribui: a montagem impecável, a trilha enxuta, as imagens bem cuidadas… Imersão!

Ao final, assistimos a um filme de guerra que não mostra nenhum sangue derramado, nenhuma cena de grande selvageria. O realismo de Nolan prescinde dessa crueza. É onde “Dunkirk” se encontra com os demais títulos do diretor: não precisa apelar para o óbvio.

‘O Mínimo Para Viver’: perturbador!

Por Silvia Pereira em 29/07/2017

Se você é do mesmo time das pessoas que consideram irresponsável falar sobre um problema com medo de multiplicá-lo, não leia este post.

Alerto porque, assim como ocorreu com a série “13 reasons Why” (“Os 13 Porquês” no Brasil), que trata de um suicídio motivado por bullying, já li pela internet alguns posts vociferando contra o filme “O Mínimo Para Viver” (To the Bone), da diretora estreante Marti Noxon, por considerarem que mostra a pessoas com predisposição à anorexia o “como fazer” para perder peso propositalmente.

Não discutirei este mérito, pois não sou especialista. Registrarei meu ponto de vista apenas como espectadora e ser humano, que achou de grande importância entender um pouco mais sobre as compulsões, os truques e a grande angústia que leva anoréxicos a evitarem comida, comprometendo a própria sobrevivência.

De fato, o filme é, no mínimo, perturbador!

Entendi que não trata-se apenas de uma dismorfia corporal (transtorno psicológico que faz o indivíduo se incomodar profundamente com “defeitos imaginários” ou triviais de seu corpo). Este é, antes, um do grande espectro de sintomas a convergirem para o gigantesco problema da Anorexia.

Da forma como entendemos a vida de Ellen – a protagonista, vivida por uma Lily Collins impressionantemente CADAVÉRICA -, é uma doença da alma, que leva à negação de tudo o que é vida por meio da recusa em comer e a obsessão por perder peso.

Tudo vale para alimentar essa obsessão: vomitar, correr, fazer exercícios escondido, tomar laxantes, entre outros inacreditáveis estratagemas que podem levar à morte.

No filme, acompanhamos um pedaço da vida de Ellen, 20 anos, a partir de sua expulsão da última clínica para a qual foi enviada pelo pai ausente e a madrasta preocupada-mas-bem-intencionada. Motivo: a ironia ácida de sua incontinência verbal começava a perturbar os demais pacientes.

Como último recurso, a madrasta falante tenta um especialista conhecido por seus métodos não-convencionais, interpretado por ninguém menos que Keanu Reeves (pausa para um suspiro), ainda lindo em seus 53 abençoados anos de vida.

Na casa que Ellen passa a dividir com outros recuperandos, ela tem contato com todo tipo de estratagemas para perder peso e também com o inglesinho e ex-bailarino Luke (Alex Sharp – estreante no cinema, mas já premiado por um musical da Broadway), que demonstra responder bem aos métodos do dr. Beckham.

Desenha-se um potencial romance, mas a compulsão da anorexia é mais importante, por isso a diretora atém-se a mostrar como a arte, o carinho e a atenção podem ajudar no processo de tratamento, e como um único e isolado incidente pode colocar tudo a perder.

Perto do final do filme, há uma cena tocantemente íntima entre Ellen e sua mãe bipolar, cheia de lições subliminares sobre amor, aceitação e disponibilidade, que fez eu me liquefazer em lágrimas. Para bom entendedor, dá pistas de como minar a fortaleza erguida pela doença em torno do anoréxico.

Talvez o segredo não seja tentar trazê-lo, à força, para o nosso “mundo real”, mas entrar no dele para explorar alternativas de resgate.

Dá pra entender que não existe um tratamento ou remédio milagroso, mas que cada doente demanda diferentes tentativas e que o único ingrediente indispensável é o amor.

Talvez, “O Mínimo Para Viver”, que está disponível para ser assistido na plataforma Netflix, não seja mesmo recomendável a quem já sofre com o problema, mas considero indispensável para quem deseja saber lidar com pessoas queridas acometidas por ele.

De minha parte, merece cinco estrelas.

 

 

 

‘Os 13 Porquês’: vai encarar este espelho?

Por Silvia Pereira em 04/04/2017

Uma adolescente se suicida sem deixar bilhete ou carta para os pais. Sigilosamente, porém, deixa um depositário de sua confiança incumbido de passar a 13 pessoas específicas fitas cassetes com explicações gravadas para elas. O que todas têm em comum é o fato de a jovem Hannah Baker considerar, cada uma, uma razão para ela ter tomado sua decisão extrema – os 13 porquês.

A escolha da mídia obsoleta é proposital, já que vamos descobrindo que Hannah sofreu bullying facilitado por estes tempos de internet e redes sociais. No contexto da série, porém, eles são apenas instrumentos para a prática de bullyings praticados desde sempre, como a objetificação do corpo feminino (por machistas de todos os gêneros), homofobia e outros tipos de violência bem mais graves, mas que podem amplificar exponencialmente seus raios de devastação.

Acompanhamos tudo do ponto de vista do tímido Clay Jensen, que nutriu uma paixonite por Hannah e parece ser o último dos destinatários a ouvir as fitas.


“A série é perturbadora na medida que nos obriga a também encarar esse espelho incômodo que Hannah Baker esfrega na cara de seus bullyers”


À medida que ele avança nas audições, uma teia de novos mistérios vai sendo tecida, já que nem o garoto parece saber direito qual foi sua parcela de culpa nessa história e todos os demais envolvidos mostram-se apavorados com certos acontecimentos que ele está prestes a descobrir.

Mais do que didática, a série é perturbadora na medida que nos obriga a também encarar esse espelho incômodo que Hannah Baker esfrega na cara de seus bullyers, sem poupar os omissos (saca o ditado “para o mal vencer basta os bons não fazerem nada”?).

A surpresa com que muitos deles encaram o mal que causaram diz muito sobre um “sonambulismo” endêmico que tem acometido quem posta o que quer nas redes, sem pesar – ou simplesmente ignorando mesmo – as consequências. Entre elas a de que a possibilidade de vidas serem destruídas é bem real.

E aí, vai encarar este espelho?

Nossos idosos não são mais aqueles

Por Silvia Pereira em 25/03/2017

Quando escrevi pela primeira vez sobre a série cômica “Grace & Frankie”, em 2015, achei que não houvesse mais o que explorar na história de dois casais idosos que se reconfiguram da forma mais inusitada (ou não nestes tempos “gay friendly”): os dois maridos “saem do armário” ao mesmo tempo para assumirem sua relação homo-extraconjugal, que já dura 20 anos – dos 40 que os dois casais mantinham amizade e vidas entrelaçadas.

Mas a série da Netflix chega à sua terceira temporada em grande forma, obrigada!

Embalada por um timing cômico sofisticado e, de certa forma, codificado – significa que nem todos vão entender as piadas, principalmente quem está na faixa abaixo dos 40 anos -, a série aborda com extrema verdade e inteligência os conflitos que o novo perfil de idosos têm tido de enfrentar atualmente.

Nossos idosos de hoje não são mais sombras das pessoas que foram apenas esperando para morrerem em cadeiras de balanço, camas de hospital ou quartos de asilo. Principalmente os das classes média acima, mantêm-se funcionais e lúcidos, o que, de certa forma, até os torna mais sensíveis aos tratamentos preconceituosos das novas gerações, pois eles não se sentem como os seus jovens o tratam: seres ultrapassados.


“Nossos idosos de hoje não são mais sombras das pessoas que foram apenas esperando para morrer em cadeiras de balanço”


Na segunda temporada, exibida em 2016, Grace e Frankie tiveram de lidar com o processo de despedida de uma amiga com câncer que manteve uma vida “solar”, positiva e generosa até o melancólico fim, enquanto Robert e Sal tentavam se entender após o primeiro descobrir que o segundo teve um “sexo de despedida” com a ex-mulher.

Grace e Frankie chegam ao último episódio enfrentando a triste conclusão de que são tratadas como peças inúteis no xadrez familiar, mas prometendo que darão a volta por cima iniciando um negócio próprio juntas.

A terceira temporada as encontra enfrentando as dificuldades de praxe para conseguir levantar capital para o novo negócio: fabricação de vibradores específicos para idosas, que respeitem as limitações físicas típicas da fase (artrite, por exemplo), tecido vaginal ultra-delicado e com baixa lubrificação (se você pensar bem, é um baita nicho… rs).

O problema é que nenhum banco se arrisca a conceder empréstimo com amortização de longo prazo para duas mulheres na casa dos 70 anos, a despeito delas gozarem de boa saúde, energia e de Grace ter um bem-sucedido currículo de empreendedora – afinal, ela montou do nada a empresa de produtos femininos que a filha mais velha agora administra e na qual ela não é mais bem-vinda.

Parece uma história triste – e no fundo é -, mas você não consegue chorar nesta série. Se tiver o repertório certo, vai é rir muito, mesmo que no fundo se entristeça por reconhecer que aquelas verdades temperadas com o humor inteligente da roteirista Martha Kauffman (de “Friends”) são é de chorar.

 

P.S. By the way, quero envelhecer como a Jane Fonda!