Einar não mora mais aqui…

Por Silvia Pereira em 07/06/2016

A Garota DinamarquesaHá um momento, entre o fim de uma linda história e o resto de tudo em que só um silêncio contrito cabe dentro da gente. Encontro-me, enquanto escrevo este texto, em suspensão, dentro deste limbo benigno de encantamento que só as lindas obras conseguem evocar.

Vamos lá tentar encontrar as palavras certas para exprimir a delicadeza e a toda a curva emocional de “A Garota Dinamarquesa” (The Danish Girl), de Tom Hooper – mesmo diretor de “Os Miseráveis” e “O Discurso do Rei”.

Por que não foi indicado a Melhor Filme? – pergunto-me. Em que a historinha insossa e comum de “Brooklin”, por exemplo, é superior a esta outra tão linda de gente querendo encontrar seu lugar em um mundo cheio de modelos pré-estabelecidos?

Esperava de “A Garota Dinamarquesa” uma história linear e documental sobre o primeiro transgênero a realizar uma operação de mudança de sexo na longínqua década de 1920, mas é mais – muito mais – que isso.

É um filme sobre amor – puro, genuíno, incondicional, para além de tudo… de gêneros, estereótipos, sexo.

alicia vikander em The Danish GirlEsqueça a indicação de Melhor Ator para Eddie Redmayne – ele é quase só um pretexto aqui para a interpretação arrebatadora da sueca Alicia Vikander. Testemunhar as milimétricas nuances de emoções que ela consegue expressar em cada cena me faz considerar aviltante, incompreensível e injusta sua premiação como atriz coadjuvante.

Merecia o Oscar, sim, mas na categoria de atriz principal. O filme é todo dela! (que entrega! que inteligência emocional!).

A história é sobre Einar Weneger, mas o tempo todo é com o sofrimento resignado de Gerda que nos identificamos. É ela quem faz Lili emergir de dentro de Einar, movida por uma intuição primal.

No começo, Einar e Gerda são pintores e se amam. Eles se dão perfeitamente bem na cama e em todo o resto. Um dia, ela pede que ele sobreponha um traje de bailarina sobre as vestes masculinas e pose para que ela possa terminar um quadro encomendado.

Lili começa a emergir.

Numa noite posterior, Gerda descobre sua camisola por baixo das vestes masculinas de Einar. Surge a ideia de um jogo de casal. Gerda traveste Einar. Eles vão juntos a uma festa. Um homem rouba um beijo de Lili/Einar, que “menstrua” pelo nariz – o fluxo nasal passa a ser mensal.

Gerda sente e expressa, através de sua arte – que, ironia!, finalmente desabrocha – a chegada de Lili.

Einar desaparece, mas o amor de Gerda permanece. Transfere-se para Lili. Não sem dor, não sem luto (por Einar)… mas constante.

Muitas dúvidas, muitos médicos e diagnósticos equivocados interpõem-se à busca por entendimento e identidade, mas o amor de Gerda e Einar está lá o tempo todo.

Embalando toda essa barafunda emocional uma fotografia primorosa – cada cena um quadro com toques renascentistas -, mas a história é tão forte que o visual fica em segundo plano.

Tocante!

Cópia mal feita

Por Silvia Pereira em 11/04/2016

olhos da justiçaAcabo de assistir a “Olhos da Justiça” (Secret in their eyes, 2015), de Billy Ray, supostamente a refilmagem hollywoodiana do argentino “O Segredo dos Seus Olhos” (El Secreto de Sus Ojos, 2009), de Juan José Campanella, que tenho como um dos filmes mais completos já realizados na história recente do cinema mundial.

Sério, como já disse em um post da época, o vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2011 reúne vários gêneros em um só roteiro – romance, comédia, suspense, terror psicológico e crítica política, tudo muito bem alinhavado e equilibrado – e atuações sensacionais de Ricardo Darin, Guillermo Francella e Soledad Villamil.

Já “Olhos da Justiça”, que dó! Salvo duas ou três frases-chave que manteve do primeiro e a espinha dorsal do argumento – ambos pauperrimamente mal aproveitados -, não sobrou nada da grande história da investigação de um estupro violento seguido de assassinato, que corria paralelamente à de um amor inconfesso, desembocando em uma trama de impunidade e suspense psicológico.

Hollywood não é uma indústria à toa. Toda indústria possui uma linha de montagem destinada a produzir em série um mesmo tipo de produto, ainda que com penduricalhos de cores diferentes em cada exemplar para passar a ilusão de exclusividade, tal como as bonecas que saem de uma linha de produção, com o mesmo corpo e rosto, mas cabelos e roupinhas diferentes entre si.

Daí que, no caso específico desta joia de roteiro, o processo foi de desmontagem de uma história cheia de subtextos e referências cruzadas para encaixá-la ao padrão hollywoodiano de produção. Assim, o título não guarda mais a dupla interpretação – os olhos apaixonados de Irene e os de terror da vítima de um crime -; o amor inconfesso de Irene e Benjamin torna-se um flerte frígido; a malha política que permitiu a impunidade e a perseguição dos mocinhos simplesmente desaparece; e os diálogos – ah, os diálogos, a maior perda – espirituosos e esquemáticos do original tornam-se frívolos e comuns.

Enfim, tudo se apequena na refilmagem hollywoodiana. E isso vale para as atuações também de Nicole Kidman e Julia Roberts, que se deixa enfeiar – mais – para o papel, mas nem por isso nos arrebata.

O andamento da história resulta tão previsível que sequer a surpresa do final chega a chocar de verdade, de tão “mastigada” que a trama é entregue ao espectador – pobre espectador ainda julgado limitado por sua indústria de cinema, mesmo após Christopher Nolan ter provado que um roteiro intrincado e inteligente não é impeditivo para um filme vendável!

Enfim, fica a dica: se assistiu a “O Segredo de seus olhos”, não o desonre comparando-o a “Olhos da Justiça” e, se não viu, nem perca tempo com seu arremedo americano.

Vá direto ao original. Garanto que não vai se arrepender.

Sobre ‘Creed’e o legado de ‘Rocky’

Por Silvia Pereira em 17/01/2016

CreedSou uma espectadora de cinema de gosto específico (sei que já disse isso),  do tipo que adora chorar com um bom drama, refletir com uma história densa ou derreter-se com uma comédia romântica inteligente, mas que boceja de tédio quando começa uma cena de tiroteio ou perseguição e fica procurando rachaduras na parede quando os diálogos ganham doses extras de testosterona ou violência gratuita.

Dito isso, não pense que já não me perguntei por que diabos consigo me sentar para assistir a um filme como “Creed: Nascido para Lutar” (Creed, 2015), que, vejamos, tem cena de violência (check), sangue (check) e diálogos banhados em testosterona (check)….

A resposta não é curta e começa assim: pelo mesmo motivo pelo qual sentei para assistir todos os “Rocky”… e também amei: não são apenas sobre lutas.

Aliás, “Rocky” não virou clássico à toa. Há um ponto em que todos os filmes da saga transcendem os clichês do gênero e tornam-se universais, falando a homens, mulheres, jovens, crianças…

E não é diferente em “Creed”.

As lutas são o veículo, o motor a impulsionar personagens arquetípicos dos “loosers”- como os norte-americanos gostam de rotular pessoas fadadas ao fracasso – a erguerem-se acima das limitadas oportunidades que uma vida à sombra lhes oferece.

Rocky e Adonis têm origens na massa de excluídos sociais – mesmo tendo sido adotado pela madrasta rica, Adonis Creed teve lá sua infância abandonada em casas de correção -, mas não se resignam ao roteiro previsível de seus pares. Pegam a raiva dentro de si e a purgam no ringue, onde apanham, sangram, caem, levantam, caem de novo e levantam de novo até o momento em que sairão vitoriosos.

Fica implícito que não é pelo dinheiro ou pela glória – não só – que submetem-se a perseguir o que parece impossível ao começo de cada filme. Mas suas motivações – o amor pelos seus, a amizade, a honra – os aureolam e nos fazem torcer por eles. Daí que o sangue, a desfiguração dos seus rostos, que em outros filmes tanto me repugnam, têm razão de ser. Não são gratuitos. Estão à serviço de uma história maior. Uma história de gente como a gente (assim nos sentimos, pelo menos).

A história de “Creed” não chega a ser mais forte que às de Rocky, mas nem precisa. Sozinho, o personagem de Rocky preenche todas as lacunas.

Sylvester Stallone está adorável, estupendo emprestando uma maturidade terna e pacífica ao ex-boxeador idoso que aceita treinar o filho de um grande amigo morto. Nada de heroísmo ou exibicionismo machão na terceira idade. O Rocky Balboa de “Creed” aceita sua velhice e as vulnerabilidades que vêm com ela. Ensina o que sabe sobre luta e sobre perdoar e seguir em frente. É sim um tio querido, como o personagem de Adonis o chama por todo o filme.

Como cinema, “Creed” não resulta uma obra-prima, mas faz uma homenagem à altura do legado de “Rocky”, coroando a carreira de Stallone com honras.

Not bad it all, Sly… “Not bad it all” in deed!

Estupro coletivo e criminalização da vítima: filme antigo

Por Silvia Pereira em 16/01/2016

Acusados PARAMOUNT PICTURES 2

Desde que começou toda a polêmica sobre o estupro coletivo no Rio de Janeiro tenho me lembrado cada dia mais do filme “Acusados” (The Accused), de Jonathan Kaplan. Por ter sido dirigido lá pelos idos de 1988, ingenuamente acreditei, no começo de todo o processo no Brasil, que estávamos muito à frente dos exemplos de sexismo e preconceito abordados naquele filme.

Só que não.

A Sarah Tobias que Jodie Foster interpreta em “Acusados” é uma sensual jovem de classe média baixa na casa de seus 30 anos, que vai a um bar se divertir para esquecer a briga com o “namorido”. Acaba estuprada por um grupo de homens sobre uma mesa de bilhar. E, para seu horror, ela não passa pela experiência desacordada como a jovem brasileira filmada com suas partes íntimas sendo manipuladas e expostas para uma câmera de vídeo.

Acusados PARAMOUNT PICTURESO filme começa na cena em que um jovem liga para a polícia de um orelhão para denunciar a “curra” (gíria para o estupro coletivo) no exato momento em que a vítima consegue sair correndo do bar, machucada e em choque. Daí até assistirmos à cena crucial de que trata todo o filme, demora quase o filme todo.

Parece enfadonho, mas acredite, não é.

A escolha do diretor por uma narrativa fragmentada obedece ao nobre propósito de municiar o espectador com os pontos de vistas de todos os envolvidos no fato, para que possamos refletir sobre as motivações tanto dos acusados quanto da vítima. O expediente, que acaba por humanizar – não confundir com “isentar” – os acusados, evita pra nós a armadilha fácil de escolher um lado logo de cara.

Acusados PARAMOUNT PICTURES 1

No julgamento, a acusação faz o comportamento extrovertido de Sarah – que após alguns goles de álcool dança sensualmente para a plateia masculina, valorizando as curvas que a roupa provocante já evidenciava – parecer um incentivo e um indício de que ela queria o que aconteceu a seguir. Em certos momentos até parece que é ela a julgada.

Entendemos que tentar criminalizar Sarah não é só uma estratégia dos acusados, mas um senso comum de que uma mulher que dança e flerta em um bar está “pedindo” para ser estuprada.

O primeiro julgamento parece anunciar o final do filme, mas então assistimos a Sarah enfrentar o escárnio e desrespeito da sociedade em seu dia a dia. Isso faz a advogada decidir comprar mais uma briga, desta vez contra quem apenas estava no bar e aplaudiu o estupro, incentivou e até quem simplesmente estava lá e nada fez para impedir.

O recado de “Acusados” é claro: absolver e até aprovar o estupro sob pretexto de que a vítima “o provocou” tem o mesmo peso de praticá-lo, pois se está incentivando o crime. Desse ponto de vista, condenar os acusados não é apenas fazer justiça, mas também tem o peso de mostrar à sociedade que é errado, que é CRIME SIM fazer sexo sem o consentimento do outro, independente do que ele aparente.

Acho que tão importante quanto saber o resultado do segundo julgamento do filme é ouvir os argumentos de defesa e acusação, novamente incentivando-nos a refletir e a nos questionar: a qual grupo pertenceríamos naquele julgamento se também tivéssemos estado naquele bar?

Não vale dizer júri. Já temos juízes demais, como têm escancarado as redes sociais.

‘Labirinto de Mentiras’ traz história de alemão que caçou nazistas

Por Silvia Pereira em 11/01/2016

Labirinto de Mentiras MARES FILMES 4O drama alemão “Labirinto de Mentiras” (Im Labyrinth des Schweigens, 2014), de Giulio Ricciarelli, é inspirado em fatos reais.

Na Alemanha de 1958 – portanto mais de uma década após a derrota de Hitler na 2ª Guerra Mundial -, um jovem promotor de Frankfurt decide dar ouvidos a um ativista solenemente ignorado pelos colegas que pedia a investigação de crimes de guerra.

Da primeira entrevista com um judeu sobrevivente de um campo de concentração nazista, Johann Radmann (Alexander Fehling) e sua secretária saem incrédulos e chocados. Mal sabem que o relato era apenas o primeiro de muitos – milhares – que desnudariam uma rotina de tortura e desumanidades praticadas pelo regime de Hitler e que a sociedade alemã estava feliz em ignorar àquela altura. Mas Radmann não deixa por menos e começa não só a investigar como a caçar as principais autoridades responsáveis pelos crimes relatados – Josef Mengele entre eles. Claro que enfrenta a chacota de seus pares e muitas dificuldades impostas pela ordem vigente, que acha muito conveniente deixar tudo no passado.

Mas não é o isolamento e nem as forças contrárias que chegam a abalar a determinação de Radmann, mas a constatação de que o nazismo não foi algo que uma minoria enfiou goela abaixo dos demais alemães, mas um regime abraçado, aprovado, aceito por uma porção majoritária da sociedade e que estendeu seus tentáculos até o núcleo imaculado da família do próprio promotor.

A história não confirma a crise de identidade que chegou a levar Radmann a desistir – ainda que por um curto período de tempo – de sua cruzada, mas o conflito descrito no filme confere humanidade e, consequentemente, identificação àquela figura que começava a ganhar contornos heroicos. Salutar em um momento que tende-se a entronizar acima do bem e do mal um “Sergio Moro”, por exemplo.

Hoje sabemos que Josef Mengele, o médico-monstro que usava prisioneiros dos campos de concentração como cobaias de experimentos científicos, sobreviveu incólume à caçada de Radmann e morreu livre no Brasil, seu último esconderijo. Mas a Alemanha e o mundo todo devem ao jovem promotor a punição de muitos nazistas responsáveis pelas histórias de horror do holocausto judeu.

O longa faz jus a isso sem mergulhar no ufanismo Recomendo!

Obrigada, Paralamas!

Por Silvia Pereira em 05/07/2015

11666236_10204546545087898_4116449478605783432_n!

Chorei sim, e daí? E não foi a primeira vez em um show do Paralamas do Sucesso.

Há alguns anos, no Sesc Araraquara, era a primeira vez que via Herbert Vianna no palco após ele quase ter morrido numa queda de avião. O vocalista e guitarrista ainda não formulava bem as frases. Seu cérebro se recuperava do acidente grave que levou a mãe de seus três filhos, mas a (grande) habilidade na guitarra continuava lá, e o som do Paralamas, que por muito tempo achamos que não faria nada novo, seguia vigoroso, vivo, eletrizante! Como não se emocionar sendo fã de carteirinha?

No último sábado, em Ribeirão Preto, o show da turnê “30 Anos” não era para chorar. Bem ao contrário… uma paulada sonora, que a acústica perfeita do Centro de Eventos do RibeirãoShopping turbinou bem!

11707531_10204546548767990_5641045501447274197_nPor 1h inteira, sem paradinhas pra respirar, Herbert, Bi (no baixo) e Barone (bateria) e seus fieis escudeiros (o tecladista João Fera, o saxofonista Monteiro Jr. e o trombonista Bidu Cordeiro) encadearam alguns dos melhores exemplares do seu rock brasileiro com pegada latina: “Vulcão Dub”, “Alagados”, “Cinema Mudo”, “Ska”, “Perplexo”, “O Calibre” (rockaço!), etc, entremeados de baladas não menos empolgantes, como “Lanterna dos Afogados”, “Tendo a Lua”, “Quase um Segundo”.

O público até se manteve – visivelmente a contragosto, a julgar pelas “cadeiras dançantes” – sentado por boa parte do show, como obriga a estrutura da sala. Mas então, lá pela 10ª, 11ª sequência, “Meu Erro” explodiu do palco e pareceu uma ação combinada: não teve quem, de adolescentes imberbes a sessentões (tinha de todas as idades), não chacoalhasse os esqueletos. E seguiu assim por “A Novidade”, “Melô do Marinheiro”, “Perplexo”, “Loirinha Bombril”…

E em “Óculos”, quando Herbert editou o refrão – “por cima dessas rodas também bate um coração”-, uma ovação foi a resposta.

No Bis, mais alguns sucessos e covers de “chegados”, como Lulu Santos e Ultraje a Rigor. Pra não perder a verve de contestação que sempre os acompanhou, “Que País É Este”, do Legião, encerrou com chave de ouro.

Claro que cantei todas, dancei todas, sentada, em pé… e chorei em algumas. Novamente de gratidão. “Vi o meu passado passar por mim”: a adolescente problemática, a jovem adulta batalhadora, a mulher madura estressada… para todas o som desses caras criaram oásis de alegria e festa no meio de cotidianos difíceis. E os versos enganadoramente banais de Herbert sempre me falaram muito mais do que as palavras que eles encadeiam: “Eu hoje joguei tanta coisa fora” – a lição de desapego de “Tendo a Lua” muito menos sobre “cartas e fotografias” do que “gente que foi embora”.

Fico pensando se nossos ídolos fazem alguma ideia do quanto entram em nossas vidas e as influenciam. No caso dos Paralamas, pulsa em mim um “amor de turma” – para citar a Paula Toller – cheio de gratidão, ternura e reverência. Se eu nunca tiver a oportunidade de dizer isso pessoalmente a eles, que fique ao menos este testemunho público: obrigada, caras! Vocês trouxeram (trazem) muita alegria à minha vida.

‘Grace and Frankie’

Por Silvia Pereira em 22/06/2015

Grace and Frankie 1!

Era uma vez dois casais amigos. Uma noite, em um jantar que prometia ser parecido com todos os outros que compartilharam ao longo de 40 anos de amizade, Robert e Sol pedem o divórcio de Gracie e Frankie. A razão para terem feito o pedido juntos e ao mesmo tempo é que, aos 70 anos, eles resolveram “sair do armário”. Isso mesmo: enquanto seus filhos cresciam misturados e as duas famílias tiravam até férias juntas, os dois maridos mantinham um caso de amor secreto, cheio de idas e vindas temperadas por culpa e vergonha.

Grace and FrankieAssim começa a mais nova série original da Netflix, “Grace and Frankie”, protagonizada por quatro veteranos de respeito: Martin Sheen (The West Wing), Sam Waterston (The Newsroom), Jane Fonda (no papel de Grace, linda aos 70 e com uma bunda torneada por jeans que me fez inveja) e Lili Tomlin (ainda feia, mas igualmente engraçada no papel de Frankie).

O humor brota principalmente das confusões surgidas em situações sociais a que a nova configuração das duas famílias é exposta. Mas é um humor de classe, nada apelativo, que não precisa de interpretações caricaturais para provocar o riso.

Nos momentos tragicômicos surgem as melhores pérolas do roteiro, não por acaso co-assinado por Marta Kauffman, de “Friends”. Eles convidam à reflexão sobre a vida, o amor e a sexualidade na terceira idade.

Os personagens são críveis, claramente inspirados em um novo perfil de idosos que permanecem pró-ativos social e profissionalmente. Os de Robert e Sal representam pessoas que passaram a vida escondendo sua homossexualidade dentro de casamentos hetero – nem sempre  infelizes (o de Sol e Frankie, por exemplo, era feliz em todos os aspectos que não envolviam sexualidade).

O grande trunfo da série é mostrar os desafios que surgem a partir de uma pretensa “libertação” favorecida por estes tempos “gay friendly”. Eles são muitos, imprevisíveis e legítimos.

Suuuuper recomendo!

‘Selma’: uma reflexão

Por Silvia Pereira em 30/03/2015

la_ca_1021_selmaAssistindo emocionada ao filme “Selma”, sobre os bastidores da marcha liderada por Martin Luther King pelo direito ao voto dos negros, peguei-me melancolicamente refletindo sobre a diferenças entre aquele momento político e o nosso atual no Brasil.

Quase senti inveja daquelas pessoas que tinham como inimigos opressores muito claros – o ódio e preconceito de uma parcela da população branca e a omissão da classe política –, mas como líder o pastor Martin Luther King, que conseguiu conduzi-las através de um mar de violência e ódio de forma pacífica, embora firme.

Hoje, no Brasil, a grande maioria da população é oprimida pela privação de direitos constitucionalmente essenciais, que são educação, saúde e alimentação decentes e dignos. Mas seus algozes não são declarados como os racistas norte-americanos. São pessoas que passam por respeitáveis na estrutura social enquanto integram redes de corrupção entranhadas em todas as estruturas de poder. E não temos um líder compassivo e justo como King para nos conduzir – achamos que Lula o seria, que pena!

Enquanto em “Selma” assistimos a pessoas de todas as cores de pele, religiões e crenças solidarizando-se com os oprimidos negros, no Brasil assistimos a uma triste desunião. Uma grande parte da classe média e a maior parte da classe alta saem às ruas fazendo manifestações preconceituosas (contra nordestinos, pobres e a quem mais pensar diferente deles), desrespeitosas (xingamentos de baixo nível principalmente contra a maior autoridade do País) e (absurdo dos absurdos!) de incitação a golpes ao Estado de Direito. Tudo para defender os interesses de sua classe.

Em “Selma”, a união venceu a opressão e, por aqui, brasileiros destilam discurso de ódios contra outros brasileiros apenas por discordarem.

E assim seguimos um País enfraquecido pela cisão e a intolerância mútua.

‘Pride’: delícia de filme!

Por Silvia Pereira em 28/03/2015

PrideSabe aqueles filmes que te deixam super leve, feliz e enternecida? Chamo de epifanias, por considerar pequenos milagres de alegria no meio do cotidiano hiper real de nossa vida corrida e estressante.

E o título em questão é inspirado em fatos reais: “Pride” é a história de como um pequeno grupo de gays e lésbicas de Londres decidiu apoiar a fatídica greve dos mineiros, ocorrida no Reino Unido em 1984.

O grupo “Gays e Lésbicas apoiam os mineiros” decidiu começar a arrecadar recursos para ajudar os grevistas de uma vila do País de Gales a se manterem durante a paralisação.

Como todos os apoiadores do movimento eram recebidos na sede do sindicato da cidade apoiada, lá foram os oito amigos em um furgão conhecer os mineiros broncos e preconceituosos em seu habitat.

Claro que eles são recebidos, na primeira vez, com muitas reservas e até hostilidades. Mas, aos poucos, com sua alegria, tolerância e humanidade, o grupo vai conquistando até os mais machões.

Todos tornam-se heróis no vilarejo. A recíproca, tempos depois, foi linda, de fazer chorar mesmo.

No meio da história maior, o caso específico do jovem Joe (”Bromley” para os novos amigos), que está se descobrindo como gay e ainda se esconde da família. O filme também mostra como ele encontra o próprio caminho da aceitação.

Tudo emocionante. Quero assistir de novo sempre que minha fé na humanidade estiver em um nível precário.

‘Para Sempre Alice’: tocante

Por Silvia Pereira em 08/03/2015

Para Sempre Alice

Julianne Moore mereceu o Oscar de Melhor Atriz que ganhou este ano pelo papel de Alice

!

“Para Sempre Alice” (Still Alice) não é um filme fácil. É sobre a força do espírito humano numa luta inglória, sem chances de vitória. Julianne Moore – que super mereceu o Oscar deste ano por seu papel no filme – interpreta a linguista Alice, que recebe o diagnóstico de um tipo precoce do Mal de Alzheimer.

Assistimos ao desmantelamento gradual de sua vida, com a perda de sua cadeira numa eminente universidade, e à fragilização de suas relações familiares.

O diretor – que também assina o roteiro com Richard Glatzer – conta essa história, baseada no romance homônimo de Lisa Genova, sem apelar para os recursos fáceis do melodrama.

Mas nem é preciso. Já é triste o bastante assistir a cenas como a de Alice perdendo-se dentro da própria casa ou desconhecendo a própria filha. Não precisamos de uma trilha sonora melosa avisando que é hora de chorar.

É uma lição de vida acompanhar como Alice enfrenta com classe e sem nenhuma auto-piedade a perda de suas próprias referências de identidade – identidade que, ironicamente, construiu em torno de seu intelecto privilegiado e de sua grande capacidade de comunicação.

Entendemos que a tal luta inglória do Alzheimer é sobre agarrar-se, um dia de cada vez, aos fiapos do que ainda se reconhece de si mesmo. Porque a doença é isso: perder-se de si.

Ainda que Alice não se reconheça, conseguimos enxergar, de nosso ponto de vista, sua altivez por traz da vulnerabilidade e sua gradual regressão mental.

No fim das contas, constatamos: ainda que a luta seja inglória, o amor que fica ainda faz valer a pena.

P.S. “Deeply touched too, Luciana Segantin”