Para o bem de Henri, brigadeiros!

Por Daniela Penha em 24/10/2016

Em 24 horas, Carolina vendeu 80 caixas de brigadeiro. Em 10 dias, conseguiu levar Henri para casa, depois de dois meses de hospital.

As opções eram duas – e bem delimitadas: os pais poderiam ver o dia passar em lamentos ou arregaçar as mangas.

Escolheram a segunda alternativa. E, agora, se desdobram para dar conta das tantas encomendas que chegam.

O “Brigadeiro do bem” é um empreendimento feito com amor de pai e mãe.

Tem como dar errado?

Henri é o primeiro filho de Carolina Heras, 20 anos, e Jadala Aissame Vicente, 28. O pequeno veio de surpresa, dando um susto no namoro.

Carol tinha acabado de se mudar, empreendendo na vida de morar sozinha. “Eu tinha um sofá e uma cama.”

Decidiram juntar os móveis e formar um lar, para receber o pequeno.

Souberam que Henri tem síndrome de Down quando o bebê já estava fora da barriga, na maternidade. “No nascimento, a gente passa por um período de luto. Os hospitais são totalmente despreparados e a sensação que eles nos passam é de que estamos vivendo um funeral”, a mãe diz.

O “luto” durou pouco. Bem pouco.

Henri nasceu com uma cardiopatia grave e a preocupação dos pais era em ver o filho bem. “O que me importava mesmo era se ele iria operar, ter uma vida normal, poder brincar.”

A primeira alta veio só depois de 20 dias. Mas em casa, ficou bem pouco.

Por conta da cardiopatia, Henri estava aspirando o leite. Foram duas cirurgias e mais 40 dias de hospital.

Os pais têm convênio médico e precisavam de uma fonoaudióloga que ensinasse o bebê a mamar, para que não houvesse mais riscos de aspiração.

Essa era a condição para a alta.

O pedido foi feito ao plano de saúde e, depois de 15 dias, Carol conta que não teve qualquer resposta.

- De onde nós vamos tirar dinheiro?

Era a pergunta que o casal se fazia.

Ele trabalha em shopping e ela faz bicos como vendedora. A renda dá para as despesas necessárias, mas não para o adicional.

Cada sessão com a fono iria custar R$ 100. O bebê precisou de oito.

“Nós pensamos em vender as coisas da casa… Naquela noite eu fui dormir pedindo para Deus uma alternativa.”

No outro dia, acordou com a ideia pronta. “Vou fazer brigadeiros. É o que eu faço bem”, avisou à Jadala.

A ideia inicial era vender 20 caixinhas a R$ 10, para conseguir parte do dinheiro da fonoaudióloga. Carol achava que era o máximo que conseguiria.

Decidiu colocar uma publicação na internet, contando a história do Henri.

E o post viralizou.

No grupo “Clube da Borboleta” (pelo Facebook) os compartilhamentos e comentários não paravam.

Em 24 horas, foram 80 caixas de brigadeiros. O casal não dormiu naquela noite. “Eu não sabia como fazer tantos doces!”

Agora, aprendeu. O marido vai numa panela e ela na outra. Ela faz as bolinhas e ele coloca na fôrma. No horário inverso ao trabalho, ele faz entregas.

São, pelo menos, 50 caixas vendidas por semana, ao custo de R$ 10. “Tudo que entra vai para o Henri. Cada venda é uma coisa a mais para o desenvolvimento dele”, o pai diz.

Os dois querem levar o pequeno para um consulta com um médico de São Paulo, que é referência em síndrome de Down. Também não querem que falte fisioterapia, fonoaudióloga, métodos alternativos, tudo o que vai fazer o filho independente.

“A gente fala muito sobre criar ele para a vida. Ter a maior autonomia possível. Por isso, queremos dar todo o suporte agora. Para que ele se desenvolva bem e conseguia ser independente mais para frente. Filho é assim: a gente cria para o mundo”, é a fala da mãe.

Quantos brigadeiros vai precisar enrolar para conseguir?

O número não é problema!

“Enquanto eu puder, eu vou fazer. Quem sabe logo o Henri também não está ajudando? Enrolando brigadeiros! Já pensou?”

PS: Até agora (segunda-feira, dia 24 de outubro) a Carol, o Jadala e o Henri já venderam 150 caixinhas de brigadeiro, 600 delícias.

*Quer provar o “Brigadeiro do bem”? (16) 991345801 e (16) 9 97321234 (Os dois números têm whatsapp!)

Fotos: Milena Aurea

David criou quatro filhas sozinho. Hoje, deixa saudade

Por Daniela Penha em 12/08/2016

Rachel esperava na janela. David passava pela porta todos os dias, mas ela só podia esperar duas vezes por semana. Mais que isso – a mãe dizia – poderia parecer “oferecida”.

A paquera era tímida. Foram meses de olhares até que ele tomou coragem de puxar o primeiro papo. Mais meses de conversa até virar namoro.

David Isaac Netto e Rachel Borges Isaac se casaram em 1957.

A primeira filha nasceu em 58, a segunda em 59, a terceira em 64 e Mariana em 66.

É Mariana Isaac quem conta a história, como homenagem ao Dia dos Pais. “Ele foi um paizão”, diz, mais de um vez, e explica os motivos.

David e Rachel se separaram em 1974. Não porque um ou o outro quisesse. Não tiveram escolha.

Ela teve um aneurisma fulminante e partiu aos 39 anos, em 18 de junho, dia que deveria ser de festa: David completava 40 anos.

Não houve tempo de bolo ou despedida.

A primeira filha tinha 16 anos, a segunda 15, a terceira 10 e Mariana 8.

“É inadmissível pensar que um pai possa deixar os filhos. Não imagino meu pai fazendo isso”, é Mariana quem diz.

David decidiu cuidar sozinho de quatro filhas mulheres. E o fez, até o fim.

Para as coisas que não conseguia fazer, arrumava um jeito. Era a filha mais velha quem orientava sobre menstruação e namorados. “Ele tinha vergonha”, Mariana diz.

As quatro foram aprendendo a cuidar umas das outras, pentear os cabelos, decidir a melhor roupa.

Mas ao pai cabia o amor, os cuidados, o trabalho na loja de tintas para garantir que não faltasse nada em casa. “Ele foi um paizão”, Mariana repete.

As lembranças que tem do pai são leves, como passeio no sítio. “Até soltar pipa no meio do mato a gente ia. Ele descascava a laranja no pé. É engraçado, mas faz parte da nossa história.”

David e Mariana se separaram em 1996. Não porque um outro quisesse, mas era tempo de encontrar Rachel. Ele morreu por problemas de coração, aos 63 anos.

“Meu pai amou tanto minha mãe que nunca mais achou ninguém a altura dela. Por isso nunca se casou”, Mariana não tem dúvidas.

Hoje é dia de homenagem e, para Mariana, 50 anos, de muita saudade. “Gostaria que ele pudesse estar aqui com a gente mais um pouco. A gente sempre quer um colo de pai. Ele foi um paizão em todos os momentos”, e finaliza.

Fotos: Arquivo pessoal

Foto 1: David e Rachel Isaac

Foto 2 e 3: Mariana e o pai David

Foto 4: David, seu pais, sua madrasta e as quatro filhas

Adriana entrou na creche como faxineira. Hoje, é professora

Por Daniela Penha em 08/08/2016

A matéria era sobre a possibilidade de a creche, que atende a 240 crianças na Vila Virgínia, fechar as portas por falta de verba.

Adriana foi uma das funcionárias que topou dar entrevista. Mal começou a falar e caiu no choro.

A creche tinha sido um empurrão, depois de tanto tempo.

- Entrei aqui na limpeza e vou me formar professora em alguns meses.

Adriana não podia ver fechar as portas da creche.

Adriana não queria ver fechar, mais uma vez, as portas do sonho.

Adriana Aparecida Nunes guarda, aos 37 anos, o nome da professora que mais gostava na infância. Jusselene não é nome fácil de guardar. Por isso, ela tem certeza:

- Eu queria ser professora desde pequena. Já tinha aquilo em mim.

Aos 25 anos, foi trabalhar na creche da Vila Virgínia.

Na limpeza.

A vida havia adormecido a vontade antiga.

Ela teve que deixar os estudos aos 16 anos, na sétima série, por uma gravidez inesperada.

Viveu uma paixão e, não fosse a briga, a faca, a má sorte, quem sabe teriam formado família.

O homem, que era dono de um restaurante, levou uma facada no peito tentando apartar uma confusão de clientes. Adriana, de luto, descobriu que estava grávida semanas depois.

Já se desdobrava em duas pelo trabalho e pela escola. Ficou impossível se desdobrar em três.

Aprendeu a não reclamar.

- Eu sei que tinha que passar por aquilo. A minha adolescência foi tirada de mim, mas eu tive que crescer ali e hoje sei que valeu a pena.

Anos depois, conheceu o marido, se casaram e veio o segundo filho.

Adriana, por esses tempos, já nem cogitava voltar a estudar.

Trabalhou como balconista, vendedora, atendente, até que veio a proposta da creche.

O trabalho em um empório rendia bom salário, mas ela não via os filhos crescerem.

- Eu trabalhava demais.

Quando a proposta de trabalhar na limpeza da creche surgiu, Adriana viu como uma oportunidade. Mas não imaginava tamanha chance.

- Eu resolvi aceitar porque eu poderia ficar mais tempo com os meus filhos.

Trabalhando com as crianças, ela relembrou o sonho antigo.

- Logo eu vi que, na verdade, estar ali era um presente.

A coordenadora pedagógica logo percebeu que havia na moça uma professora nata e fez o convite para que Adriana voltasse a estudar.

Foi a vez dos filhos, que já estavam grandinhos, inverterem os cuidados que haviam recebido.

- Eles me deram muito apoio.

Terminou o Ensino Fundamental e o Ensino Médio pelo supletivo e pôde finalmente entrar na faculdade de Pedagogia. A creche fez um convênio e Adriana pagava metade da mensalidade.

Quatro anos não passaram rápido. Novamente, ela se desdobrou entre a casa, o trabalho e os estudos. Valeram por uma década, porém.

- Eu cresci como pessoa e passei a acreditar em mim, no que eu sou capaz. Se você tem um sonho, tem que acreditar de todo o coração que vale a pena.

Adriana se formou em Pedagogia em abril deste ano.

Nas fotos, aparece orgulhosa segurando o diploma.

A creche na Vila Virgínia continua de pé, e Adriana torce para que seja sempre assim.

Aguarda a contratação como professora prometida para o ano que vem.

E não vai parar por aí.

Quer fazer pós-graduação e especialização em Artes, tal como a professora Jusselene, que tanta importância teve na história.

- A criança é um presente que a gente vai descobrindo a cada dia. É uma troca de aprendizado e isso, para mim, não tem preço. É o que eu gosto. Recebi um presente!

E os alunos também.

Do crack à Psicologia: o recomeço de Alex

Por Daniela Penha em 02/08/2016

- Você sabe que eu tenho uma história linda?

Alex é quem convida a conhecer sua vida. O primeiro contato foi no mercadão, durante uma matéria sobre o aumento dos preços das castanhas.

O resultado foi muito além da economia. Em poucas palavras, ele mostra que o convite vale a pena.

- Usei crack por cinco anos. Dormia na rua. Mas hoje tô super bem, ó. Vou me formar em Psicologia.

Foto: F. L. Piton

A casa já não tinha móveis, a família já não tinha esperança em ajudar.

Quando Alex Rodrigues dos Santos acordou de mais uma ressaca e se viu sozinho, dormindo sob um pedaço de papelão, entendeu que não dava mais para continuar.

Fazia cinco anos que o crack era a única vida.

Pela pedra, ele perdeu o cargo na prefeitura, se afastou dos amigos, deixou a família, desistiu dos sonhos que antes eram combustível.

- Você perde a vergonha. Você perde o brio.

A venda dos móveis ficou pouca perto de tantas perdas. Mas foi quando se viu ali, no chão de uma casa que era a única sobra, com a roupa do corpo como única peça, que decidiu mudar.

“Existem coisas que a gente pode superar na vida”, foi descobrir tempo depois, porque os primeiros meses foram penosos.

Passou 15 dias internado para desintoxicação e esse foi o único apoio médico que teve. Todo o resto fez sozinho. “Quando você é dependente químico, tem um círculo vicioso, parara sair, precisa quebrar essa barreira”.

Deixou de frequentar os lugares que frequentava e esqueceu os contatos dos ‘amigos de pedra”. Foi um desses amigos, aliás, que ofereceu o primeiro trago.

Alex aceitou.

Precisava mesmo escapar da realidade em que a morte do pai havia tomado todo o espaço. “Vicia muito rápido. Depois da terceira vez que usei, comecei a comprar”.

E precisou desaprender o caminho do vendedor.

A família decidiu dar mais um voto de confiança e os amigos antigos voltaram a ser presentes. Perdeu o cargo de técnico em uma unidade de saúde municipal, mas ganhou vaga no setor de limpeza de uma empresa. “Eu queria tanto mudar que em um mês eu já era encarregado”.

Desde então, se passaram cinco anos. Alex hoje tem 37.

Foi contratado como vendedor no mercadão, trabalha em um buffet a noite, faz bicos como cuidador de idosos e, principalmente, estuda.

- Você trabalha tanto para pagar o curso de Psicologia?

É o que pergunta a jornalista, já convicta do “sim” como resposta.

Mas Alex surpreende mais uma vez.

O curso é custeado 100% por bolsas que ele conseguiu estudando muito.

A Psicologia veio como a ciência do fortalecimento. Alex usa o que aprende para se manter firme. “Você sabe o que é homeostase? Alegria, euforia e tristeza são perigosos. A gente tem que estar em equilíbrio”, vai ensinando.

Aprendeu também sobre depressão, frustração, superação, ansiedade, controle da mente. “A gente é lançado no mundo e somos responsáveis pelas nossas frustrações. Nós é que somos responsáveis”.

O objetivo é conseguir ajudar outros dependentes no futuro, atuando na profissão que tanto lhe ajudou.

Ele diz, porém, que não é fácil. “Os meus professores dizem que é uma área muito complexa”.

Mas, ele bem sabe, não há desafio maior que a força que conquistou em si mesmo.

- Quando eu penso na minha história, eu choro muito de alegria e penso no quanto Deus é bom!

Foto 1: F.L. Piton

Foto 2: Matheus Urenha

Foto 3: F. L. Piton

Quem não conhece a garapeira do Abel?

Por Daniela Penha em 24/07/2016

O fornecedor da cana é o mesmo há quase quatro décadas.

O avô passou o negócio para o pai e agora quem comanda é o neto.

Abel, porém, continua o comprador.

Há 38 anos, abriu a garapeira no Calçadão de Ribeirão Preto e desconhece essa história de mudar daqui-ali para ser feliz.

Abel Domingos Pereira dos Santos, aos 67 anos, encontrou a felicidade vendendo garapa, água de coco, churros e salgado para gerações inteiras de famílias ribeirão-pretanas.

Deu tão certo que não quis mudar. Nem mesmo de fornecedor.

“Eu nunca fiz isso de trocar. Se tá dando certo, vou trocar para quê?”, vai tentando vencer a timidez para contar a história da sua vida.

Não demora, porém, para chegar à conclusão: “Minha história é isso aqui. É esse Calçadão. Isso aqui é tudo pra mim!”.

Antes de montar a garapeira, teve carrinho de lanche e trabalhou na feira. O sonho, entretanto, sempre foi trabalhar com a cana, no Centro da cidade onde nasceu.

Não sabe dizer como foi que deu certo. “Só sei que deu certo e eu vim para cá”. Chegou a tocar mais de um negócio ao mesmo tempo, fazendo o tempo se desdobrar em dois, três, quatro. “Nunca entreguei os pontos”.

Quando a Garapeira do Abel engrenou, decidiu que era hora de colher a cana plantada com afinco. Criou os três filhos por ali, junto aos filhos dos outros. “Tem gente que vinha de pequeno e hoje traz os netos”.

Diferente dos “concorrentes”, atende do lado de fora do carrinho. “É para dar atenção pro cliente. Eu gosto assim. A atenção que a gente dá, acaba recebendo”.

Difícil quem não o conhece pelo nome.

E vai além. Vira família da meninada que passa por alí. “Tchau vô!”, diz a moça que comprou a garapa e ganhou o churros. “Come, sim, menina! Não vai ficar sem”.

A bebida geladinha tem sempre chorinho. Abel diz que não tem ideia do quanto vende. “O negócio é meu, dos meus filhos, nunca fui de ficar anotando”.

Bem por isso, não pensa duas vezes para presentear quem está sem dinheiro naquele dia. “A gente tem que ajudar”.

Ele mesmo, porém, não pode tomar a bebida que tanto ama. “É pela diabetes. Nem provo, porque senão acabo tomando”.

Em 38 anos, a primeira vez que “faltou do trabalho” foi há três semanas. Com pneumonia, foi internado e, só aí, ficou longe da garapeira. “Só porque fiquei doente”, frisa.

Nem mesmo quando uma árvore caiu sobre o carrinho e estragou todo o teto ele deixou de abrir. “Continua estragado. Foi um susto! Mas o importante é que não machucou”.

O filho escuta toda a entrevista, em silêncio. Vez em quando, solta uma risada gostosa ouvindo o pai falar. Abel conta, todo orgulhoso, que seus meninos se formaram com o dinheiro que vem da cana: dois em Direito e um Administração.

O orgulho mesmo, entretanto, vem na fala que segue: “Nenhum quis seguir a profissão. Ficam só aqui. Isso é o futuro deles”.

Futuro que, ele espera, seja feito ali, no mesmo vai e vem do Calçadão, com a garapa que – assim seja! – sempre feita com a mesma cana, do mesmo fornecedor.

- E você é feliz?

A repórter pergunta só por retórica. Alguém tem dúvida da resposta?

- Muito! Eu acredito que cada vez fica melhor! Esse Calçadão bonito como tá…

Fotos: Milena Aurea

Carmen veste com amor bebês de UTI

Por Daniela Penha em 17/07/2016

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A força que faz Carmen continuar vem de seres com menos de um quilo.

Muitos já chegam ao mundo sem expectativas médicas. “As chances do bebê sobreviver quase não existem.” Quantas vezes Carmen escutou!

Escuta e não põe fé.

Ninguém vai destruir ideia construída em 16 anos de UTI neonatal.

– Enquanto o coração estiver batendo, há esperança.

Carmen dá a esses seres com menos de um quilo identidade feita de tecido e linha porque acredita que essa vai ser a primeira roupinha de muitas que eles vão vestir.

Na maioria das UTIs neonatais os bebês prematuros vestem só a fraldinha. A mãe pode até querer comprar, mas não há loja que venda roupas para um recém-nascido de meio quilo. E, se houver algum meio, certamente será caro.

“Até roupa de boneca fica grande”, Carmen Lúcia Santana Oliveira, 55 anos, diz.

Nunca havia costurado na vida. Não foi dificuldade, porém. Pediu ajuda para a família, foi aprendendo aqui-ali e a primeira roupinha saiu.

– Quando a mãe encontra a criança com roupa, não sabe se chora ou se ri. É lindo demais. Eu queria que você visse a carinha delas!

A lista de bebês que chama de “seus” é grande. Tão grande que ela nem sabe quantificar. Vai contando as histórias de crianças que hoje exibem seus 9, 10 anos, cheias de saúde; daquelas que participou dos batizados, da festa do primeiro aninho.

Os pais, diz cheia de orgulho, guardam aquela roupinha minúscula como lembrança da força que – poucos acreditam – mas habita esses seres de menos de um quilo.

– Eles mostram a roupa para as pessoas saberem que não é imaginação. O bebê era mesmo daquele tamanho.


Carmen quis ser enfermeira aos seis anos, quando a irmã sofreu um acidente e ela pôde conhecer a rotina daquelas que mudam o canal da TV, fazem curativo prometendo que não vai doer, cuidam das medicações e são, quase que todo o tempo, um pouco psicólogas também.

O seu primeiro emprego foi no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto e de lá não mais saiu. Ficou 16 anos na UTI neonatal e, há pouco mais de um ano, acabou sendo transferida para outro setor.

Passa menos tempo com os “seus bebês”, é fato. Mas, todo dia, dá um pulinho por ali para saber se um novo guerreiro precisa de roupinha. Não deixa faltar estoque, mas frisa:

– Minha especialidade é menos de um quilo.

Carmen tem um sorrido largo no rosto, fala fácil, astral bom.

É ela a força que faz muita gente continuar – e tem bem mais de um quilo.

– Enquanto Deus me der forças, eu vou continuar fazendo. A gente não pode desistir jamais. São milagrinhos de Deus.


Fotos: Mastrangelo Reino

Vagner: 68 anos e uma vida pela frente

Por Daniela Penha em 10/07/2016

Sábado, domingo, feriado. Para Vagner, todo dia era de trabalho feito com gosto. Dos 14 anos aos 63 foi assim. Joalheria, fábrica de velas, oficina, o último dia de trabalho.

A primeira perda foi quando a fábrica de velas pegou fogo, em 98, e o ganha pão virou chama.

Foto: F. L. PitonCoisa material a gente reconstrói, aprendeu então.

Em 2010, o golpe foi baixo. Caiu de bicicleta, um tombo comum. Não bateu em ninguém, não foi atropelado, simplesmente caiu.

Tetraplégico: custou a acreditar.

“Eu só comia se tivesse alguém para dar na boca”.

Por dois anos, viveu em um hospital de retaguarda. Foi suficiente para entender que ali não seria seu novo lugar.

“Lá é para doentes terminais e eu não terminei”, dá risada quando explica, faz piada com o golpe. Nem se lembra mais que foi golpe.

- O que você vai fazer? Tem que encarar a vida!

Encarou. Buscou tratamento, fez fisioterapia e foi driblando os prognósticos médicos.

Pouco a pouco voltou a comer, a mexer os braços, a sorrir. “No começo era um desespero total, mas hoje tá até que bom”.

Foi morar na Casa do Vovô e conseguiu retomar mais uma vontade. Não faltou empenho dos funcionários. “Eu gosto muito de escrever. Leio o jornal todo dia, leio livros. Distrai a mente.”

Os dedos ainda são rígidos, não dobram. E as mãos teimam em não querer movimento. Mas Vagner é mais teimoso. Segura a caneta entre a rigidez e escreve. Faz mensagens sobre o Natal, a Páscoa, o amor, a vida. “Faz bem!”.

As metas, porém, não se esgotaram aí.

A vontade é de deixar a cadeira e caminhar. Quem sabe retomar os sábados, domingos e feriados de trabalho feito com gosto.

Vagner Ferraz da Fonseca tem 68 anos: há uma vida pela frente!

- Me atacou o corpo todinho, mas a mente não. Coloco Deus à frente. E creio que sim: tudo vai dar certo.

*Fotos: F. L. Piton

Marisa e o bosque: uma história de amor

Por Daniela Penha em 03/07/2016

Mais que rápido, os tamanduás vão se aproximando um a um. Enfiam os focinhos compridos pelos buracos da cerca em boas-vindas. Um deles chega a ficar de pé na grade, numa tentativa falha de abraçar Marisa.

- Isso é o melhor de tudo. Eles reconhecerem a gente, mesmo já adultos!

Na casa da onça, a mesma coisa.

Uma onça!

E mia feito gato respondendo ao chamado da mulher.

- Tito, Tito!

E a onça macho se exibe toda. Chega perto da água. E, se tivesse como, capaz que rolaria no chão dando a barriga para a bióloga coçar.

A história de amor entre Marisa dos Santos, 53 anos, e o Bosque Municipal Fábio Barreto começou há meio século, quase a idade da mulher.

Pequenininha, ela morava perto e aproveitava um portão na rua Tamandaré para estar todo dia por ali. “Minha mãe conta que, com cinco anos, eu falava que meu sonho era trabalhar no bosque”.

Realizou o sonho logo depois que se formou em Biologia. Há 23 anos, é “mãezona” de bicho e de muito estagiário que passa por ali. “Eles falam isso porque eu gosto de cuidar de todo mundo”, conta tímida, escondendo os louros.

Marisa cuida dos animais vitimados que chegam ao bosque desde que está lá. Filhotes órfãos, bichos que sofreram maus-tratos, criados em cativeiro, com problemas de saúde que podem parecer irreversíveis até para quem tem muita fé.

Mesmo depois de tanto tempo, ela sabe o número exato de tamanduás que “criou na mão”, como diz. Confessa que os bichos são seus preferidos. “Foram oito, que chegaram aqui filhotes, órfãos, com um pouco mais de 20 centímetros”.

Os cuidados não se restringem ao horário de serviço com cartão picado. Filhotes que mamam precisam de atenção até na madrugada. “O sofá de casa é todo furado de unha de tamanduá”, Marisa cai na risada.

E a lista dos bichos que conhecem a casa da “mãe” é longa: lontra, tamanduá, tartaruga, passarinho, papagaio, arara, cachorro do mato, gato do mato, veados, e por aí vai.

Filho humano Marisa não tem, não. “Mas não dá para sentir falta. Tenho um monte de menino espalhado por esse mundo”, vai logo avisando que por ali não há espaço para lamento.

Enquanto anda pela mata que já é sua, vai contando as histórias de cada um dos bichos. Em casa recinto, dá um “olá” e volta a sonhar, como quando tinha cinco anos. “O meu sonho mesmo é ver isso aqui reformado, com recintos de vidro. Mas ninguém se interessa”, e quase se deixa entristecer.

Em um instante, porém, volta à razão de ser.

- Biologia, além de toda a descoberta das coisas, tem que ter doação. E amor.

Marisa é amor. Bicho nenhum há de negar.

Foto: Weber Sian

Foto: Weber Sian

Tem um cachorro no telhado

Por Daniela Penha em 26/06/2016

De longe, parecem de gesso.

Ué, mas gesso não se move! E estão latindo!

Os cachorros no telhado da padaria são de verdade e custa para a mente processar.

Tem quem pare o carro desesperado: “Seus cachorros escaparam! Estão em cima do telhado!”.

Tem que queira ver de perto: “Olha… tem um cachorro aí em cima”, avisam aos donos da padoca, meio ressabiados.

“A gente dá muita risada”, conta Higor de Jean Santos, filho dos proprietários.

Faz oito anos que Dara está no telhado e há três meses ganhou a companhia de Neguinho.

A cachorra – mistura de Dálmata e Pitbull – é referência no Ipiranga. Quem vai pegar moto-taxi, tem a Dara de localização. “É naquela padaria, onde tem os cachorros no telhado”.

Quem vai explicar o endereço, também se aproveita do grande diferencial. “Vira na padaria dos cachorros, sobe mais duas quadras”.

A surpresa, assim, é só para turistas, gente que passa por ali pela primeira vez.

Tauana de Freitas lembra do primeiro dia de trabalho na loja da frente. “Eu levei o maior susto. Achei que ela fosse cair de lá de cima”.

Mas Dara não cai. Os donos garantem que está mais que acostumada com o lugar que escolheu para si.

A família adotou a cachorra ainda filhote de uma vizinha que não tinha como criar. Moravam na casa em cima da padaria, onde há um portão que dá para o telhado ou marquise, como bem preferir.

Como o portão ficava aberto, Dara descobriu que por ali conseguia monitorar a rua, o entra e sai na padaria, o vai e vem dos donos.

Desde então, escolheu o lugar preferido.

Os donos não moram mais no sobrado. Um inquilino é o novo morador. Mas não tiveram coragem de tirar Dara do seu cantinho. “Esse é o lugar dela. Ela só não vem para cá se não está bem”, conta Lúcia dos Santos, a dona.

A cachorra, assim, é a guardiã do pedaço. Pela manhã, lá está ela tomando sol na marquise. À tardinha, volta ao posto.

Quando um cliente que não gosta entra pela porta, late sem parar. Quando é gente querida, fica quietinha. Na madrugada, quando está perto das 2h, hora em que o “pai” chega para fazer o pão, se encaminha para o telhado e espera ele entrar.

“Ela só entra quando sabe que ele já entrou”, conta Higor.

Acostumada ao cheirinho de pão, não deixa de degustar. Além da ração, nos fins de tarde ganha “filão” quentinho. “Ela é nosso xodó”, Lúcia resume.

Foto: F.L. Piton

Foto: F.L. Piton

História de família

Lúcia e o marido vieram do interior de Minas Gerais para Ribeirão trabalhar na padaria, que era do “patrão”. Depois de 11 anos, o dono desistiu do ponto e o casal conseguiu realizar o sonho do próprio negócio.

O lugar é mais que padaria. O sertanejo é trilha sonora e nesse inverno as blusas de frio estão com 20% de desconto. Tem também presentes para todas as idades e papel higiênico – para qualquer emergência.

O carro chefe são as receitas mineiras: pão de queijo, “filão” quentinho e pudim. Tudo feito pelo marido de Lúcia, que acorda à uma da madrugada, todo dia, há 21 anos.

“Às 6h tem que estar tudo prontinho para abrir as portas”, Lúcia explica.

A padaria é de pais e filhos. O casal, os três filhos e as duas netinhas estão sempre por ali.

A crise, porém, tem feito a vontade de voltar a terra natal ser maior. “O movimento caiu muito. A gente tinha até mais funcionários, mas teve que demitir”, Lúcia tem dias de lamento.

Estão divididos entre tudo que construíram aqui e a família que deixaram por lá. “Meu sonho mesmo é voltar”, ela acaba confessando.

- Mas, e a Dara?

É a pergunta que não tem por que calar.

- Ah, a Dara vai junto. Sem ela a gente não fica!

Será preciso um telhado mineiro para a cachorra continuar a reinar.

Foto: F.L. Piton

Foto: F. L. Piton

‘Menino das balas’ é campeão brasileiro

Por Daniela Penha em 19/06/2016

Cruzamento da São Sebastião com a Visconde de Inhaúma, centro de Ribeirão Preto, lá está o Carlos. Ignorando os mal educados, retribuindo com sorrisos os olhares de pena, brigando com a fiscalização.

É fácil ver que ali tem muita história. Mas quem imaginaria tão lindo conto?

Quando se atreve a não vir – e só por motivo muito sério – recebe ligações e mensagens de todo lado. “Está tudo bem?”, é querido não só por um.

Balas, paçoca, gominha, das 8h às 16h, mesmo em dia de chuva.

Quem imagina que “o menino que vende balas”, como é chamado por ali, já foi campeão brasileiro?

Carlos Roberto Silva Miranda, 26 anos, o cadeirante que vende balas na esquina do Centro de Ribeirão, foi campeão nacional de halterofilismo paralímpico duas vezes e ganhou um campeonato regional – entre 2005 e 2007.

“Foi o primeiro que competi. Tive uma semana para me preparar”, conta em meio a muitas outras vitórias, despretensioso, como se nada fosse.

É que Carlos já nasceu vencendo campeonatos. Ainda que na modalidade da vida os campões não recebam medalhas.

Foto: Arquivo pessoal

Modalidade: vida

Começou a vender bala aos três anos, para ajudar em casa. Na época, não precisava das rodas. Eram as perninhas que iam e vinham sem cansar.

Cinco irmãos, mãe, pai morando em Uberlândia e trabalhando em equipe, sem hora para começar.

Aos nove – que precoce! – o campeonato quase que chega ao fim.

O pai colocou um filho na garupa da moto e Carlos de improviso no tanque. O carro furou o pare, vinha rápido, e o menino só acordou três meses depois.

As pernas já não respondiam.

É assim até hoje.

Um ano e meio internado, aprendendo a conviver com a nova forma. “Não me imagino melhor. As oportunidades que Deus me deu foram as melhores. Sou grato. Aprendi a viver”, o discurso é de vitória mesmo se o pódio é triste.

Quando deixou o hospital, de cadeira de rodas, voltou a vender balas.

Mas a vida preparava mais.

Um instituto ofereceu bolsas para pessoas com deficiência que quisessem jogar basquete e lá foi Carlos. Gostou tanto que passou para o halterofilismo e decidiu ser atleta. “É o sonho”.

Continuou vitorioso no esporte. Em pouco tempo, campeão no halterofilismo paralímpico. O treinador Wéverton Santos, que criou o CDDU (Clube Desportivo para Deficientes de Uberlândia), não tinha dúvidas do potencial do menino. “Ele só parou porque teve um problema”.

E mais um campeonato sem medalhas Carlos teve que ganhar.

Caiu da cama e lesionou de novo a coluna. Só a cirurgia poderia resolver. “Eu já tentei voltar, fazer academia de teimoso, mas fica pior”.

E aí ele veio parar em Ribeirão, na São Sebastião com a Visconde, segurando seu pote de doces. Soube que a cidade é referência em Saúde e coisas mais.

“Eu saí de casa com 16 anos, porque sempre quis ter meu lugar. Uma amiga tinha morado aqui e disse que era bom. Encontrei”.

Casa própria

Todos os dias, o campeão brasileiro acorda às 5h30 para assar os pães de queijo e roscas que o marido traz para vender, com um isopor de água.

Os dois pegam o ônibus antes das 7h, torcendo para o elevador para pessoas com deficiência funcionar. “Tem muito a melhorar”, Carlos também é crítica.

E passam o dia no Centro, vendendo, rindo, driblando, equilibrando as rodas entre um buraco e outro.

Tem sido assim desde que Carlos chegou, há dois anos e meio. E, de pouco em pouco, tem dado certo. Na primeira semana, com R$ 100 no bolso e uma mochila, dormiu em uma pensão, pagando as diárias com os doces.

Depois, conseguiu alugar a casinha e trouxe o namorado. Compraram móveis, eletrodomésticos e sonham com a casa própria. “Quando a gente sair do aluguel vai sobrar um dinheiro para voltar a estudar”.

Mas o sonho mesmo está no esporte, nas medalhas que ainda falta ganhar.

No mês passado, consegui a esperada cirurgia na coluna. A expectativa agora é de voltar aos treinos no mês que vem. “Se Deus quiser, vou conseguir. Pode ter certeza”.

Ninguém duvida, Carlos. Ninguém duvida.

Cidades- Acessibilidade nas ruas de Ribeirão Preto- Carlos Miranda - Foto- Mastrangelo Reino047 em baixa

Foto: Mastrangelo Reino